Fórum destaca Brasil e região, mas ainda vê riscos

Participantes celebraram bom momento, mas alertaram para o aquecimento da economia, a carga tributária e a dependência da China

Fernando Dantas e Alexandre Rodrigues, O Estado de S.Paulo

29 de abril de 2011 | 00h00

No primeiro dia do Fórum Econômico Mundial no Rio, o feliz momento do Brasil e da América Latina foi celebrado, com destaque para as perspectivas de crescimento e a melhora de distribuição de renda dos últimos anos. "A América Latina e o Brasil estão numa posição invejável", disse Vikram Pandit, principal executivo do Citibank. Diversos participantes, porém, alertaram para riscos que ameaçam estragar a festa na região.

No caso do Brasil, os mais citados foram o sobreaquecimento da economia, que causa inflação e valoriza o câmbio, a carga tributária alta e complexa e a dependência da China - que permitiu o boom latino-americano, ao elevar o preço das commodities com seu aumento de consumo. Outros pontos críticos citados foram deficiências em infraestrutura, educação e tecnologia.

"Nós estamos com superaquecimento", disse, em um debate pela manhã, o presidente da Embraer, Frederico Fleury Curado. Segundo o executivo, além de provocar inflação, o crescimento do consumo está sendo puxado por importações. Ele observou que parte da valorização do real está ligada à queda generalizada do dólar nos mercados cambiais. Outra parcela, porém, é explicada internamente mesmo, já que o real também ganhou valor em relação às demais moedas.

Curado disse "esperar" que seja um fenômeno temporário, que não ultrapasse dois ou três anos. "O Brasil não tem a força dos Estados Unidos para lidar com isso", comentou, referindo-se à sobrevalorização cambial.

Donald Gogel, presidente da Clayton, Dubilier & Rice, empresa americana de private equity (investimento em empresas com capital fechado), disse que o Brasil estava "caro". Segundo ele, a alta rentabilidade dos títulos públicos indexados à inflação no Brasil inibe a atividade de private equity, já que os fundos de pensão preferem os altos e seguros rendimentos desses papéis a arriscar em empresas.

Os impostos no Brasil foram outro alvo de críticas no primeiro dia do Fórum no Rio. Provocado por um participante sobre a reforma tributária que vem sendo empurrada para o futuro desde o governo de Fernando Henrique Cardoso, Curado, da Embraer, respondeu que "a comunidade empresarial brasileira faz essa mesma pergunta". Não só o volume dos tributos foi criticado, mas também a complexidade e excesso de burocracia.

Já o economista Mauricio Cárdenas, diretor da Iniciativa da América Latina do Instituto Brookings, nos Estados Unidos, e ex-ministro colombiano do Desenvolvimento, alertou que, para os países latino-americanos, "a China é um risco". Ele explicou que o bom momento latino-americano deriva de um crescimento impulsionado pela venda de commodities, cuja demanda pode ser reduzida no futuro próximo, caso se confirmem os sinais de recessão mundial e de excesso de investimento na China, que tem capacidade ociosa alta.

Ele também vê como risco a tendência de aperto fiscal nos Estados Unidos, que pode dificultar o desenvolvimento de países latino-americanos, cujos investimentos têm como foco principal o consumidor americano.

Educação. Além de um fator de risco para a expansão de projetos e investimentos, Rebeca Grynspan, do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, apontou o baixo investimento em educação e em inovação como outro limitador do potencial econômico da América Latina, inclusive no Brasil. "Os países conseguiram levar a educação a todos, mas as desigualdades terão de ser enfrentadas com o aumento da qualidade do ensino terciário e com mais investimento em pesquisa e desenvolvimento."

O economista brasileiro Roberto Teixeira da Costa, do Conselho de Empresários da América Latina (Ceal), apontou a descentralização da gestão da educação como entrave à qualidade do ensino. "Há um consenso de que o principal problema do País é educação. O problema é que a educação no Brasil é responsabilidade dos Estados, não é afetada (de imediato) por mudanças do governo (federal)."

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