Fórum Econômico: crise fiscal e desemprego são riscos

Relatório de Risco Global enfatiza a necessidade de melhora da estrutura da governança global

Daniela Milanese, da Agência Estado,

14 Janeiro 2010 | 14h10

A economia global enfrentará como principais riscos nos próximos anos as crises fiscais, o desemprego, a redução dos investimentos em infraestrutura e o impacto das doenças crônicas. A análise é do Relatório de Risco Global divulgado nesta quinta-feira, 13, pelo Fórum Econômico Mundial, dias antes do encontro que acontece em Davos no final do mês e que completa 40 anos em 2010.

 

Na avaliação da entidade, esses riscos não surgiram do dia para a noite, mas a recessão limitou a habilidade dos políticos para combatê-los. Os problemas, que já estavam presentes, acabaram agravados pela forte crise que se abateu sobre a economia global, principalmente após o colapso do Lehman Brothers, em setembro de 2008.

 

Nos últimos anos, cresceu dramaticamente a percepção de que os riscos estão interconectados e que os choques e vulnerabilidades são realmente globais. Como emergem ao longo do tempo, esses perigos podem ser amplamente subestimados, acredita o Fórum. "Os próximos meses colocarão em teste a disposição dos tomadores de decisões globais para cooperar na solução dos riscos globais", afirma Sheana Tambourgi, editora do relatório.

 

O documento novamente enfatiza a necessidade de melhora da estrutura da governança global. "Essa estrutura precisa ser apoiada por líderes dispostos a reconciliar a agenda frequentemente divergente e aptos a resolver as questões estruturais de longo prazo, assim como os problemas imediatos", diz o documento.

 

A entidade aponta que, em razão da crise financeira, diversos países correm o risco de apresentar níveis insustentáveis de endividamento, o que trará pressão sobre as taxas de juros. Em último caso, a situação pode levar a uma crise de dívida soberana.

 

Com poucas exceções, os países desenvolvidos estão entre os mais atingidos pelas questões fiscais. Conforme o Fundo Monetário Internacional (FMI), a média de dívida em relação ao PIB das economias avançadas que fazem parte do G-20 deve subir para 118% até 2014, bem acima dos 78% registrados em 2007. Já os emergentes não devem ultrapassar o índice de 40% nesse período.

 

O desemprego, também apontado como um dos maiores riscos para os próximos anos, subiu dramaticamente nos últimos 18 meses. Desde o início da crise, o número de pessoas sem ocupação foi elevado em 25,5 milhões nos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). O número pode chegar a 50 milhões neste ano no mundo todo, afirma o relatório. "Os empregos não são criados de forma tão rápida como são perdidos e um período de elevado desemprego terá efeito adverso no consumo."

 

Segundo o Banco Mundial, serão necessários investimentos de US$ 35 trilhões em infraestrutura nos próximos 20 anos. Também como resultado da crise, os aportes recuaram, fator apontado como um dos principais riscos pelo Fórum, especialmente nas áreas de energia e agricultura.

 

Como consequência de uma profunda transição sócio-demográfica na população mundial e mudanças nos hábitos alimentares, as doenças crônicas (como câncer, diabetes, problemas cardiovasculares e respiratórios) estão se espalhando rapidamente. Tanto que a situação chega a ser chamada de "pandemia silenciosa". Conforme o relatório, esses problemas elevam o custo com saúde e reduzem a produtividade e o crescimento econômico.

 

Além desses riscos principais, o Fórum Econômico Mundial também elenca outros perigos que, apesar de menos relevantes, devem ficar no radar. O primeiro são os crimes transnacionais e a corrupção. "Alguns especialistas estimam que o crime organizado global e o comércio ilegal respondem por 10% do PIB mundial", diz o relatório. Esses problemas estão interconectados com outros, como terrorismo, a instabilidade no Afeganistão e a proliferação nuclear.

 

Outro fator considerado pelo Fórum é a perda de biodiversidade, já que aproximadamente 60% do ecossistema do planeta foram degradados nos últimos 50 anos. A entidade calcula que os prejuízos com o desmatamento e a degradação da terra estão entre US$ 2 trilhões e US$ 4,5 trilhões por ano. "As consequências dessas perdas não afetarão somente os negócios com recursos naturais, mas também a cadeia de suprimento e a perspectiva de crescimento da maioria dos setores industriais."

 

O Fórum aponta ainda como risco a vulnerabilidade dos sistemas. Conforme o relatório, as sociedades industriais modernas são altamente dependentes de um limitado número de provedores de serviços de energia, água, petróleo e gás. Além disso, com o crescimento da computação em nuvem (cloud computing), uma nova era de complexidade está se abrindo, o que tornará os riscos mais difusos e mais difíceis de serem administrados.

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