Fórum Econômico discutirá insegurança global

A insegurança global é o grande tema do Fórum Econômico Mundial de 2002. E ela emana não só do fato de que os Estados Unidos, a poderosa locomotiva da economia globalnas duas últimas décadas, entrou em uma recessão de desfecho incerto.A insegurança também é geopolítica, e a destruição das torres gêmeas do World Trade Center por extremistas islâmicos associados à Al-Qaeda em 11 de setembro de 2001 fez de Nova York um lugar apropriado para se discutir como tornar o mundo mais seguro."Nós estamos acordando de um sonho, o de que o colapso daUnião Soviética significou que as relações internacionais foram suplantadas pelas relações comerciais", disse George Friedman, presidente da Stratfor, uma das maiores consultorias privadas do mundo de inteligência e assuntos geopolíticos.Friedman foi um dos participantes do debate sobre segurançaglobal que, junto com a discussão sobre a recuperação econômica, abriu os trabalhos do Fórum Econômico Mundial em Nova York.Aquele tipo de ilusão, continuou Friedman, é típica deperíodos que seguem ao fim de conflitos de escala global, ou que envolvam as maiores potências.Processos parecidos aconteceram depois do Congresso de Viena, que encerrou a fase das guerras napoleônicas no século 19, e depois das Primeira e Segunda Guerras Mundiais.Basicamente, ele diz, a ilusão é a de que "as coalizões queganharam a guerra vão sobreviver a ela". No caso atual, com o fim da Guerra Fria, a ilusão teria sido a de que as naçõescapitalistas avançadas alcançaram uma supremacia tal que, unidas poderiam ditar a nova ordem mundial sem maiores solavancos - talvez algo parecido com a tese do "fim da história", de Francis Fukuyama, professor de Economia Política Internacional, que participa do Fórum, mas não estava neste debate.Na verdade, como a sessão sobre segurança global mostrou, o mundo pós-Guerra Fria é um quebra-cabeça geopolítico coalhado de problemas e perigos, cuja abordagem freqüentemente divide os antigos parceiros da Guerra Fria.A falta de respostas consensuais sobre o que talvez pudesseser descrito como a "nova desordem mundial" ficou patente em diversos temas do debate sobre segurança global. Um dos mais polêmicos foi sobre o papel da democracia e direitos humanos no aumento da segurança global.Para Alain Dieckhoff, diretor do Centro de Estudos e Pesquisas Internacionais, na França, um especialista em Oriente Médio, a redução das desigualdades sociais e o aumento da classe média são fatores que reforçam a demanda por democracia e direitos humanos. E isto, por sua vez - mas não de uma forma direta e automática -, contribui para estabilizar os países, aumentar a segurança e conter o terrorismo.Uma visão quase que diametralmente oposta foi colocada po Sergei Karaganov, presidente do Conselho de Política Externa e Defesa do Instituto da Europa, na Rússia. Karaganov, que passou por diversos postos no sistema de defesa russo, defendeu a idéia de que democracia e direitos humanos são ótimos, e segurança também - porém, muitas vezes, eles não combinam entre si.Embora dizendo-se contrário ao desrespeito aos direitoshumanos pelos russos na guerra contra os rebeldes da Chechênia, Karaganov tentou justificar aspectos daquela política tendo como base a oposição descrita acima. O seu melhor exemplo, porém, foi o da Arábia Saudita.No país, as forças políticas dominantes são a monarquiadominada pela família Saud, com um histórico péssimo em termos de democracia e direitos humanos; e do outro, há ofundamentalismo islâmico, no exato país onde cresceu e se formou Osama bin Laden.Para Karaganov, numa situação destas, não há como não apoiar os Saud. Ele foi contestado, é claro, inclusive porrepresentantes de entidades de defesa dos direitos humanos na platéia. Foi lembrado, por exemplo, que o apoio quaseincondicional do Ocidente aos Saud permitiu que a famíliahegemônica esmagasse as lideranças moderadas, de onde poderiam surgir forças políticas capazes de ocupar o poder sem provocar pesadelos no resto do mundo.Outra questão complicada e não resolvida das relaçõesinternacionais, abordada por Gareth Evans, presidente do Grupo de Crises Internacionais, na Bélgica - uma organização privada dedicada a estudar, antecipar e prevenir crises causadas pela ação humana - é o dilema entre o respeito à soberania dos países e as chamadas "intervenções humanitárias", quando se tenta impedir assassinatos em massa, perseguições raciais e outras ações de caráter extremamente nocivo levadas a cabo pelos governos de algumas daquelas nações.Outra questão abordada no debate foi sobre o que fazer com o Iraque, colocado recentemente pelo presidente George W. Bush numa "tríade do mal", junto com o Irã e a Coréia do Norte Dieckhoff, ressonando uma visão mais européia do que americana, acredita que a posição de rever as sanções e tentar retomar o programa de inspeções no Iraque - para impedir a fabricação de armas de destruição de massa - é mais sensata do que tentar derrubar Saddam Hussein e substituí-lo por um governo deoposição, mimetizando o que foi feito no Afeganistão.Christoph Bertram, diretor do Instituto Alemão para Assuntos Internacionais e Segurança, é outro que defende a política de revisão de sanções e retomada de inspeções no Iraque. Para ele, "o uso da força (nas relações internacionais) só deve ser feito com motivos relevantes e legítimos, e não porque ´nós não gostamos do sujeito e resolvemos derrubá-lo´".Um motivo relevante legítimo para ele, no caso iraquiano,seria a descoberta que o país está desenvolvendo armas atômicas, por exemplo. Como este não é o caso, uma intervenção seria um ato arbitrário que tornaria ainda mais difícil o desenho de uma estratégia coerente dos países ricos para se mover no mundo confuso e turbulento do período pós-Guerra Fria.

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