Fórum Social: China recria 'ficções financeiras'

Em meio ao ritmo acelerado de crescimento, a China está replicando "ficções" financeiras usadas nos Estados Unidos, apontou hoje o geógrafo e professor da City University de Nova York David Harvey, durante painel sobre a conjuntura econômica no seminário que discute os dez anos do Fórum Social Mundial, realizado em Porto Alegre.

SANDRA HAHN, Agencia Estado

26 Janeiro 2010 | 17h35

Em artigo preparado para o evento, Harvey acrescentou que "a China e a Índia ainda estão crescendo, a primeira aos trancos e barrancos. Mas no caso da China o custo equivale a uma enorme expansão dos empréstimos bancários em projetos de risco - os bancos chineses não foram apanhados no frenesi especulativo global, mas agora estão dando continuidade a este movimento".

Harvey questionou mecanismos financeiros criados recentemente nos Estados Unidos. "É interessante, particularmente nos Estados Unidos, ver a velocidade como a sociedade tenta reconstruir todas estas ficções novamente", afirmou. "E estas ficções estão sendo replicadas na China", alertou, prevendo nova crise financeira. "Nós estamos em um momento em que o crescimento para sempre é impossível e, portanto, precisamos pensar em uma alternativa para o capitalismo", defendeu.

No artigo, Harvey observou que "a alavancagem que nos levou à crise retornou como se nada tivesse acontecido". Em sua visão, "inovações em matéria de finanças usadas como novas formas de empacotar e vender dívidas de capital fictício estão sendo reinventadas e oferecidas às instituições (como os fundos de pensão) desesperados por encontrar novos mercados para o capital excedente. As ficções (assim como os bônus) estão de volta!", escreveu.

Na mesma linha, ressaltando que não é economista, a cientista política francesa Susan George, integrante da organização não-governamental Attac (Associação para Taxação das Transações Financeiras em Apoio aos Cidadãos), disse que "pode-se vender a mesma casa seis vezes e lucrar em todas elas", mas isso "não contribui em nada para a economia real". Ela defendeu que as finanças deveriam ser uma ferramenta da economia real e propôs que os bancos sejam forçados a financiar novos projetos ecológicos. "Eles não vão fazer isso a não ser que recebam ordem política para isso", concluiu.

Questionada, após a palestra, sobre como forçar os bancos a seguir esta linha, Susan citou que em 2008 (após a crise financeira) algumas pessoas falavam em nacionalizar bancos, mas sua linha é de "socializar bancos". "Como fazer qualquer coisa é sempre uma questão de política e unidade", acrescentou. Em sua palestra, Susan defendeu a formação de alianças entre os movimentos sociais para conquistar mudanças dos governos.

O secretário nacional de Economia Solidária do governo federal, Paul Singer, recorreu aos exemplos de sua pasta para apontar alternativas de produção. Ele citou que a economia solidária cresce ao ritmo de 20% a 30% ao ano e um censo realizado em 2007 demonstrou o emprego de 1,7 milhão de pessoas nestas atividades cooperativas. Em 2010, a secretaria prepara novo censo para medir a dimensão da economia solidária, que não tem limites e pode produzir qualquer item, de tomates a aviões, conforme ele.

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