Foxconn procura sócio brasileiro

Empresa taiwanesa planeja bancar de 40% a 50% do projeto de US$ 12 bilhões no País e estuda buscar recursos no BNDES

Cláudia Trevisan, correspondente de O Estado de S.Paulo,

23 de abril de 2011 | 19h09

A Foxconn pretende bancar de 40% a 50% do projeto de investimento de US$ 12 bilhões no Brasil anunciado na semana retrasada, durante visita da presidente Dilma Rousseff à China. O restante viria de parceiros brasileiros e de financiamento ou participação no projeto do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), disse ao ‘Estado’ uma fonte que acompanhou as conversas com a empresa.

Apesar do ceticismo com que o anúncio foi recebido no Brasil, analistas acreditam que o movimento faz sentido dentro da estratégia da Foxconn. Os custos de produção na China estão subindo e continuarão em alta por muitos anos. O governo anunciou há poucos dias que pretende dobrar a remuneração dos trabalhadores até 2015 e a moeda continuará a se apreciar, ainda que em ritmo mais lento que o desejado por outros países.

Além disso, a produção no Brasil reduziria o preço final dos produtos, que não estariam sujeitos ao Imposto de Importação que encarece eletrônicos e computadores fabricados em outros países. O desktop da Apple de 21,5 polegadas, por exemplo, custa US$ 2,5 mil no Brasil, US$ 1,5 mil na China e US$ 1,2 mil nos Estados Unidos.

Com o aumento da renda e da demanda por produtos de alta tecnologia, faria sentido investir na produção de componentes e equipamentos acabados dentro do Brasil. "As companhias de eletrônicos estão começando a repensar suas estratégias globais de manufatura, produzindo em locais mais próximos do consumidor final, para reduzir os riscos na cadeia de fornecedores e o tempo e custo de transporte", disse Pamela Gordon, presidente da empresa de consultoria Technology Forecast, especializada em estratégias de produção para a indústria de eletrônicos.

Segundo Pamela, a reestruturação em andamento também tem o objetivo de reduzir as emissões de gases que provocam efeito estufa, o que tem peso para as grandes marcas globais que estabelecem metas de poluição dentro de suas estratégias de sustentabilidade ambiental.

Na avaliação de Pamela, a cifra de US$ 12 bilhões é compatível com o tamanho do projeto. Segundo o ministro da Ciência e Tecnologia, Aloizio Mercadante, a intenção da Foxconn é produzir displays digitais utilizados na fabricação de celulares, tablets, computadores e TVs.

Prazo. Os investimentos seriam realizados ao longo de cinco anos, divididos em duas etapas. Na primeira, que abrangeria o período 2011-2013, seriam fabricadas telas pequenas e médias. A outra etapa seria implantada em 2014 e 2015, para produção de telas grandes, destinadas a aparelhos de TV de alta definição.

Jamie Wang, analista da Gartner em Taiwan, também acredita que o investimento no Brasil se enquadra dentro da estratégia da Foxconn, mas questionou o valor de US$ 12 bilhões. Na sua avaliação, caso o projeto se concretize, a cifra será inferior a US$ 1 bilhão no primeiro ano e subirá nos anos seguintes, de acordo com a demanda dos clientes da companhia.

A cifra também foi recebida com ceticismo por Vincent Chen, analista da taiwanesa Yuanta baseado em Hong Kong. Em sua avaliação, US$ 12 bilhões é muito dinheiro, mesmo se for investido em dez anos.

Mercadante não confirmou o porcentual do investimento que caberia à Foxconn, mas disse que a empresa iniciou negociações com potenciais parceiros brasileiros, alguns dos quais já teriam visitado suas instalações na China.

A responsabilidade pela análise das condições para a implantação do projeto está a cargo de um grupo de trabalho integrado pelo BNDES e os ministérios da Ciência e Tecnologia, Desenvolvimento e Fazenda. Quando anunciou a intenção da Foxconn em Pequim, a presidente Dilma afirmou que o projeto envolverá a discussão de "vantagens tributárias" para o investimento.

A Foxconn está presente no Brasil desde 2003, com quatro fábricas que empregam 5,7 mil pessoas e produzem equipamentos para Sony, Dell, HP e Sony Ericsson.

Loucura. A experiência no País não parece ter impressionado o fundador da companhia, Terry Gou. Em entrevista ao Wall Street Journal publicada há sete meses, Gou disse que os salários locais eram "muito altos" e a infraestrutura, precária. "Os brasileiros, assim que ouvem a palavra futebol, param de trabalhar. E tem também toda a dança. É loucura". De acordo com ele, enviar mercadorias do Brasil para os Estados Unidos é mais demorado e caro do que despachar os mesmos produtos da China, apesar da distância.

À presidente Dilma, Gou disse que está atraído pelo mercado doméstico brasileiro e as oportunidades que serão criadas pela Copa do Mundo em 2014 e a Olimpíada de 2016. Também ressaltou que sua estratégia de expansão passou a privilegiar os integrantes do Brics, composto por Brasil, China, Rússia, Índia e África do Sul.

Mesmo que os planos de investimento no Brasil venham a se concretizar, a China continuará a ser por muito tempo o principal polo de produção da Foxconn. A empresa é a maior exportadora do país asiático e respondeu no ano passado por 5,5% de seu comércio internacional, com embarques de US$ 86 bilhões e importações de US$ 82 bilhões. Muitos dos componentes utilizados em suas linhas de montagem vêm de outros países e regiões, como Japão e Taiwan.

A companhia é a segunda maior exportadora da República Tcheca, onde iniciou operações em 2000, mesmo ano em que adquiriu a fábrica de placas-mãe que a Intel possuía em Porto Rico.

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