Fracassa nova reunião da UE sobre dívida grega

Alemanha acusa Atenas de agir de forma irresponsável; saques feitos pela população já fizeram bancos perderem € 80 bi, de € 108 bi disponíveis

ANDREI NETTO, CORRESPONDENTE, O Estado de S.Paulo

17 Fevereiro 2015 | 02h03

PARIS - A nova rodada de reuniões do fórum de ministros das Finanças da Europa (Eurogrupo) para discutir a renegociação da dívida da Grécia começou com um fracasso ontem.

O primeiro encontro foi suspenso após apenas meia hora de debates porque o governo grego recusou a exigência de prolongamento do segundo pacote de socorro da Comissão Europeia, do Banco Central Europeu (BCE) e do Fundo Monetário Internacional (FMI), de € 145 bilhões, que tem como data limite 28 de fevereiro. Para o governo radical de esquerda de Alexis Tsipras, é essencial livrar-se da tutela da troica desde já.

O rascunho do texto de declaração final da reunião, em torno do qual se dariam as negociações, afirmava que Atenas desejaria "concluir com sucesso o atual programa". "As autoridades gregas expressaram a intenção de solicitar uma extensão técnica de seis meses do atual programa como um passo intermediário", dizia o texto.

A sequência do programa imposto pela Europa é recusada pelo governo grego mesmo que uma última parcela do empréstimo no valor de € 7 bilhões ainda devesse ser depositada. A recusa se dá porque o chamado "memorandum" assinado com a Comissão Europeia, o BCE e o FMI prevê a continuidade das medidas de austeridade entre 2015 e 2017, incluindo um programa de privatizações de € 8,5 bilhões e recusado por Tsipras desde a campanha eleitoral.

Ao chegar ao poder, uma das primeiras medidas do governo foi anunciar o cancelamento da privatização de 14 portos e aeroportos que estavam na lista de medidas de austeridade. Por isso, a proposta apresentada ontem pelo Eurogrupo foi definida como "absurda" e "inaceitável" pelo negociadores gregos.

Para o ministro das Finanças da Alemanha, Wolfgang Schäuble, Atenas age de forma "irresponsável". "Diante do que eu ouvi sobre as discussões técnicas do final de semana, estou muito cético", disse à rádio Deutschlandfunk. Schäuble reclamou da postura: "Suponho que seja uma grande partida de pôquer da parte do novo governo".

Não menos duro, o coordenador do Eurogrupo, o ministro de Finanças da Holanda, Jeroen Dijsselbloem, foi taxativo. "Algumas pessoas do governo grego insistem que implementar o programa não é razoável e não pode ser aceito", disse. "Aqueles que ficarem voltando a esse ponto estão perdendo tempo. Nessas circunstâncias, não poderá haver um acordo." Diante do prazo limite de 28 de fevereiro, o Eurogrupo terá de buscar um entendimento até o fim da semana, segundo Dijsselbloem.

Preocupado com as discussões, o ministro das Finanças da França, Michel Sapin, alertou que um fracasso nas negociações seria "um grave fracasso político para a Europa e para a Grécia". Ontem, o ministro de Finanças da Grécia, Yanis Varoufakis, disse que Atenas está disposta a encontrar uma solução para o impasse da dívida num prazo de 48 horas.

Há também outro ponto de pressão sobre o governo grego. Segundo o banco JP Morgan, o sistema financeiro da Grécia pode ficar sem liquidez em duas semanas, caso a população continue a tirar dinheiro dos bancos como tem feito desde a eleição. Dos € 108 bilhões disponíveis na linha de financiamento do BCE e do BC da Grécia aos bancos locais, € 80 bilhões já teriam sido consumidos.

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