Fraga diz que juro tende a cair, a depender da postura fiscal

Ex-presidente do BC alerta para o aumento dos gastos públicos, que podem comprometer recuperação

Michelly Chaves Teixeira, da Agência Estado,

10 de setembro de 2009 | 15h39

O ex-presidente do Banco Central (BC) Arminio Fraga acredita que a taxa básica de juro (Selic), hoje em 8,75% ao ano, tende a ficar menor mesmo em um cenário de expansão econômica. Contudo, ele alerta para o fato de o aumento dos gastos públicos comprometer esta tendência. "Se não fizermos nenhuma bobagem na Previdência, ou criando gastos públicos incomprimíveis no futuro, a tendência é de o juro cair. Por outro lado, se formos numa direção de perda gradual de responsabilidade fiscal vamos ter sérios problemas com (a política) de redução das taxas de juros - neste caso talvez até tenham que subir", afirmou nesta quinta-feira, 10, Fraga.

 

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Porém, as condições atuais da economia e do mercado de crédito, que volta a se equilibrar, levam a crer que "a taxa de juros tende a cair, sem prejuízo de se manter a inflação sob controle", segundo Fraga. "No momento em que o crescimento da oferta de crédito se normaliza (em relação à época em que houve superoferta de recursos), como vem acontecendo, ou fica até aquém do normal, como ficou durante a crise, há mais espaço para o BC reduzir os juros como o fez, até de forma agressiva, eu diria, pelos padrões históricos", avalia Fraga, que agora preside o Conselho de Administração da BM&FBovespa.

 

Diante do fato de que o mercado de crédito está mais irrigado, assim como o de capitais, Fraga avalia que o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) poderá voltar a ser mais seletivo e, por consequência, reduzir o ritmo de concessão de empréstimos. "Agora há muitas empresas que podem captar no mercado", destacou.

 

Questionado sobre como o governo poderia equalizar a questão do câmbio, já a apreciação do real tem incentivado as importações e causado descontentamento no setor produtivo, Fraga diz que não vê muita alternativa. "Eu gosto do sistema atual, flexível e flutuante. Tem espaço para o BC atuar nos momentos em que julgar necessário, em situações em que mercado apresentar comportamento atípico, que a liquidez cair ou quando o governo queira acumular reservas. Este é um sistema que, no geral, funciona bem e, com o tempo, tende acertar mais do que errar", opinou.

 

Sobre o compulsório, o ex-presidente do BC avalia que a tendência mais à frente é de os porcentuais voltarem a subir em um "ajuste fino", embora não nos mesmos níveis praticados anteriormente pelo Brasil. Mas as taxas de recolhimento compulsório no País devem seguir um pouco acima dos padrões internacionais. "Não creio que o Brasil vá caminhar na direção de um nível como se via antes, hoje se entende que era demais. Os compulsórios têm uma função prudencial, ou seja, de ter um colchão de liquidez para um dia de sufoco. Mas acho que aqui a tendência vai ser BC é buscar normal, sendo que nosso normal é acima dos padrões globais", observou.

 

Com relação ao Produto Interno Bruto (PIB) do segundo trimestre, que será divulgado amanhã, Fraga disse que não poderia precisar um número, mas que sua percepção é de que o País pode crescer para, em 2010, registrar uma alta superior a 4% nas riquezas produzidas. "Claramente a economia está se recuperando e o segundo semestre vai ser bem melhor que o primeiro". Fraga participou hoje do seminário "Os Desafios do Novo Mercado", promovido pela BM&FBovespa.

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