Fraga reconhece que País vive crise de confiança

O presidente do Banco Central, Armínio Fraga, reconheceu hoje que o Brasil vive uma crise de confiança. Ele demonstrou, no entanto, que essa crise é administrável e que, "com perseverança, sangue frio, coerência e clareza", é possível responder a essa situação. Ele cobrou indiretamente responsabilidade dos candidatos à presidência da República para trazerem também coerência e clareza ao debate.Segundo ele, essa resposta não deve vir apenas daqueles que estão administrando a economia macroeconômica, mas também daqueles que se propuseram a "assumir o timão" a partir do ano que vem. Ele disse que um exemplo dessa crise de confiança é o que acontece om a dívida interna, já que, desde maio, a demanda por títulos que vencem a partir de janeiro de 2003 desapareceu. "É um fato", disse.Outro exemplo citado por Fraga é a dificuldade de financiamento do balanço de pagamentos que tem sido escasso, com prazos encurtados e dificuldade de financiamento para o início de 2003. "Com franqueza, temos de aceitar esse fato. Não julgem o mensageiro, mas há desconfiança com relação ao futuro da política econômica", afirmou.A situação externa, de grandes tensões no mercados globais, de queda nas bolsas e e aversão ao risco, não ajudam ao Brasil, mas Fraga ponderou que quem avalia com isenção a situação observa que outros países não foram afetados tanto quanto o Brasil por essa tensão, citando o Chile, México, Polônia. "É preciso voltar o foco para o debate interno", afirmou.DiscursoFraga disse que não foi suficiente os dois candidatos à Presidência, que passaram para o segundo turno, terem apresentado compromissos com a manutenção de certas políticas adotadas pelo atual governo. "O fato de o discurso ter mudado ajudou. Abre uma janela positiva para uma saída com retomada de crescimento sem recessão. Mas é uma mudança recente", disse. Para Fraga, os candidatos precisam ser mais enfáticos, perseverar mais e rechaçarem com clareza "caminhos estapafúrdios"."A hora é de se fazer debates e de se deixar tudo com clareza", afirmou. Fraga disse que isso é fundamental para ajudar o governo a enfrentar a atual crise. Para o presidente do BC, o governo sozinho não tem todos os instrumentos necessários para resolver o problema.O presidente do Banco Central ressaltou que não foram os investidores externos que começaram a traçar um cenário mais pessimista para o Brasil. Segundo Fraga, a análise mais pessimista começou a surgir no próprio País no primeiro semestre deste ano. Ele rechaçou ainda as críticas de que sua entrevista poderia ser interpretada como uma manifestação de cunho eleitoral para ajudar o candidato do PSDB, José Serra.Fraga lembrou que ele próprio tem insistido a questão dos compromissos dos candidatos e a manutenção de princípios de política econômica. Ele acrescentou que a decisão do BC de elevar a exigência de capital para a exposição líquida de câmbio teve um caráter meramente prudencial e não eleitoral. "Nós até pensamos que alguém poderia dizer isso, porque a medida foi adotada um dia depois da eleição. Mas não importa. O que importa é que a medida foi tomada na hora certa.InsinuaçõesArmínio Fraga negou que o BC atue com viés político. "Não admito qualquer insinuação desse tipo. Nunca houve o viés, nem por um lado nem por outro." Segundo ele, o cardápio de medidas de intervenção no câmbio é o já conhecido. "O cardápio é esse. É o clássico", disse, ponderando que não se deve esperar uma solução mágica do BC. "Essa solução não existe", disse. O cardápio que o BC tem, segundo ele, ajuda, mas não é solução para tudo.Fraga afirmou ainda que o BC vem calibrando o uso das reservas de maneira "prudente" e que toma as decisões a partir de avaliações diárias. "Não temos plano de vôo", afirmou. Fraga citou os números das reservas internacionais, em US$ 37 bi, e as reservas líquidas, "em US$ 18 bi e qualquer coisa", e lembrou que o Brasil tem US$ 30 bi do FMI. Segundo ele, são números importantes. Em função disso, o BC pode reagir, fazendo intervenções, mas fazendo intervenções com estratégia diversificada, mas sabendo que não são resposta para tudo.Armínio Fraga defedeu da sua forma de atuação nesse momento de crise na economia brasileira. "Na média, acertamos", disse Fraga, em resposta a uma pergunta de que o BC vem fazendo atuações erradas desde o início do ano. Fraga disse que "não vejo o que é que poderia ter sido feito de maneira diferente". Ele acrescentou: "talvez um leilão ou outro...". Fraga disse ainda que o BC está tomando decisões difíceis em momentos de volatilidade.Ele lembrou que o BC e o Tesouro tiveram a preocupação de desconcentrar os vencimentos de títulos da dívida interna e externa e, para isso, criou um espaço amplo de desconcentração, que agora está sendo usado. "Nunca se imaginava que esse fosse um período de tamanha turbulência", admitiu Fraga. Ele disse que esperava que haveria alguma volatilidade e foi pensando nela que o BC e o Tesouro deixaram essa folga.Ele lembrou que o Banco Central conseguiu captar no mercado internacional no início do ano toda a necessidade de financiamento. "Captamos com senso de oportunidade, que se mostrou adequado e feliz." Para Fraga, a situação hoje estaria pior se o BC e o Tesouro não tivessem deixado essa folga. "Foi feito um esforço para criar o colchão e infelizmente agora estamos utilizando. Esse colchão foi preventivo. O sistema de metas de inflação tem sido capaz de administrar esse momento de volatilidade com flexibilidade."?Maluquice?O presidente do Banco Central afirmou que "é uma maluquice e incompatível com o regime democrático" uma política de controle do câmbio. Ontem, o megainvestidor George Soros chegou a afirmar que o Brasil será forçado a adotar algum tipo de controle de capitais. O presidente do BC também criticou o fato de analistas estarem discutindo esse tema em público. "Eu não vi nenhum candidato falar isso, mas a todo momento eu vejo algum analista dando entrevista em que se discute a possibilidade de controle de câmbio", afirmou.Fraga também enfatizou durante entrevista que não está mais pessimista agora do que antes. Ele disse acreditar que o Brasil tem solução e que o problema por que passa o país agora é um problema de crise de confiança, que será superada. Fraga também lembrou que a taxa de câmbio está cerca de 50% acima da média histórica dos últimos 30 anos, demonstrando que com isso há espaço para a queda do câmbio e, consequentemente, para provocar a redução da dívida para níveis abaixo de 60% do PIB.O presidente do BC também ressaltou o fato de o Brasil ter um crescimento econômico positivo este ano, ainda que pequeno, tendo em vista a situação de países como Argentina e Uruguai, que terão retração possivelmente com um porcentual acima de dois dígitos. Sobre o fato de o Brasil ainda ser vulnerável a crises, ele afirmou que o atual governo vem implantando um modelo viável de transição, mas que esse processo ainda não chegou ao fim. Em função disso, segundo Fraga, o Brasil sofre com intensidade os efeitos das crises externas.

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