Fraga vai à Europa para acalmar investidores

O presidente do Banco Central, Armínio Fraga, vai a Londres na quarta-feira, para uma reunião com a comunidade financeira, a fim de esclarecer o mercado e conter a onda de incerteza que provocou uma desvalorização dos títulos brasileiros de mais de 13% em apenas dois dias e aumentou o risco Brasil para 1.706 pontos, o maior nível desde a época da desvalorização do real e o mais alto do mundo, excluindo a Argentina. Segundo informações obtidas na City, o centro financeiro de Londres, o presidente do BC estaria também preocupado com a redução do crédito para exportações do Brasil ? algo que só ocorreu durante a crise cambial, em 1999. Normalmente, o crédito internacional para exportações é um dos últimos tipos de financiamento a serem atingidos em situações críticas. De acordo com fontes da City, empresários brasileiros já estariam tendo dificuldade de obter financiamento para exportações. E os que conseguem têm de aceitar custos bem mais elevados. Alguns bancos estrangeiros já estão reduzindo o limite de suas linhas de financiamento e um banco britânico já teria até mesmo fechado essa linha para o Brasil. Depois de se reunir com os banqueiros na capital londrina, Fraga vai a Paris conversar com investidores europeus. A assessoria do BC confirmou a viagem de Fraga. Incertezas políticasA crise de confiança nos ativos brasileiros, que levou o dólar para níveis inéditos na sexta-feira e fez o risco país disparar nas últimas semanas, tem raízes na situação interna, principalmente nas incertezas políticas criadas pelas eleições, dizem especialistas. Mas o cenário internacional está contribuindo com lenha para a fogueira que o Brasil vem enfrentando nos mercados doméstico e internacional. A atual onda de venda de ativos brasileiros está sendo agravada por um sentimento de aversão ao risco no mundo. O enfraquecimento do dólar em relação às principais moedas e a forte queda do mercado acionário americano estão levando investidores globais a se desfazerem de aplicações mais arriscadas, como bônus de empresas americanas com alto risco de crédito e títulos de países emergentes, incluindo os papéis brasileiros. Fator BushO ?fator Bush? também dificulta a situação brasileira. Na sexta-feira, declarações do secretário do Tesouro americano, Paul O?Neill, recusando apoio a uma eventual nova ajuda do FMI ao Brasil, coroaram uma semana negra para os mercados brasileiros. Em parte por causa da tendência protecionista do governo americano atual, as exportações mundiais estão despencando este ano. ?A América Latina não é mais prioridade na política externa dos EUA?, diz o chefe da área de pesquisa econômica para a América Latina da consultoria IDEAglobal, Ricardo Amorim. A crise deflagrada pelos atentados de 11 de setembro provocou uma forte onda de vendas de ativos de países emergentes. Somada à aproximação do calote argentino, que acabou acontecendo em dezembro, a onda de vendas fez o risco Brasil subir para 1.256 pontos e o dólar para R$ 2,835. Para enfrentar a turbulência, o BC brasileiro ofereceu proteção cambial aos investidores e o dólar acabou cedendo no terceiro trimestre. Com a virada do ano, porém, o otimismo em relação ao Brasil foi retomado. O risco Brasil chegou a fechar abaixo de 700 pontos (março) e o dólar caiu para R$ 2,26 (abril). Fator LulaMas no fim de abril surgiu o chamado ?fator Lula?, quando bancos estrangeiros recomendaram menos investimentos em títulos do Brasil por causa das perspectivas políticas, e a ?janela? se fechou subitamente, antes que empresas brasileiras pudessem também montar suas emissões. O PT está tentando tranqüilizar o mercado, mas ainda não obteve suceso. Ontem, Luiz Inácio Lula da Silva fez um pronunciamento bastante moderado, afirmando que vai defender o superávit primário e equilíbrio fiscal. Outro problema é que os efeitos do escândalo da Enron se disseminaram pela América corporativa. Nos últimos três meses, o principal índice do mercado acionário americano, o Dow Jones, caiu 9%. A crise de confiança na contabilidade das empresas também atingiu os títulos de dívida das companhias americanas. As empresas já deram calote em U$ 46 bilhões em títulos de janeiro a maio. Com a queda das Bolsas nos EUA e a recuperação incerta da economia americana, o dólar vem se desvalorizando em relação às principais moedas. A injeção de liquidez feita após os atentados de 11 de setembro já não aparece mais na base monetária americana. ?A queda do preço dos ativos e a desvalorização do dólar destroem riqueza?, diz Amorim. Essa aversão global ao risco, somada à tendência de queda nos fluxos de recursos do setor privado para países emergentes nos últimos anos, em reação às sucessivas crises na década de 90, deve dificultar o embate das autoridades brasileiras com os mercados desta vez.

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