Fragilidade do sistema elétrico deve impactar o desempenho da economia

Para especialistas, pode haver impactos na inflação, na produção e nas contas do governo, além de reforçar o pessimismo internacional

Gustavo Porto, da Agência Estado,

05 de fevereiro de 2014 | 14h24

O risco de racionamento de energia elétrica no Brasil é muito pequeno, mas a fragilidade do sistema de transmissão, com apagões pontuais como o desta terça-feira - além da forte estiagem na Região Sudeste -, trará impactos econômicos, fiscais e na atividade do País, afirmam analistas ouvidos pelo Broadcast. Além disso, as notícias negativas climáticas devem piorar a visão já pessimista do exterior em relação ao desempenho do Brasil.

Bráulio Borges, economista-chefe da LCA Consultores, considera "muito precipitado" falar em impactos na produção de possíveis apagões no País. Ele avalia como "muito pequeno o risco de racionamento" mas, assim como em 2013, admite a pressão fiscal e o risco de inflação diante do atual cenário. "Os riscos de pressionar o resultado fiscal e da inflação ocorrem porque o Brasil usa muitos as termelétricas", disse. "Mas o risco inflacionário seria sentido no ano que vem porque o repasse da utilização das térmicas só ocorrerá em 2015."

Borges lembra que, para afastar o risco de apagões, o governo tem R$ 9 bilhões em orçamento justamente para gastar no pagamento da geração de energia térmica e em 2013 30% delas nem sequer foram utilizadas. "Mas como a energia térmica é mais cara, tem gente que fala que a conta pode ser até o dobro este ano", disse.

Segundo o analista do setor da Tendências Consultoria Integrada Valter De Vito, o governo gastou R$ 10 bilhões em 2013 com o custo alto das térmicas e o cenário de preços altos de energia para 2014 trará impactos na produção. "São impactos diretos na atividade econômica porque empresas intensivas em uso de energia preferem parar de produzir para vendê-la", disse. "Outras indústrias que não têm energia contratada vão simplesmente param de produzir para não ter prejuízo."

Para se ter uma ideia do custo, na semana passada o mercado spot de energia superou o teto estimado pelo governo, de R$ 822,83 o megawatt-hora, valor mais de quatro vezes superior aos R$ 200 pagos, em média, por companhias que têm contratos fixos pelo insumo. "A incerteza sobre a perspectiva de chuvas a partir de março é grande", ressaltou. "Embora o cenário de tranquilidade é de que em maio os reservatórios estejam com 50% a 60% da capacidade."

Já André Perfeito, economista-chefe da Gradual Investimentos, avalia ainda que o apagão desta terça-feira e a ameaça de racionamento de água no Estado de São Paulo se somam ao "clima de desconfiança" em relação ao Brasil. "O pânico diante da situação macroeconômica do Brasil é ridículo, pois outros países têm problemas muito piores. Mas essa questão climática é ruim porque o governo não consegue reverter o pessimismo", observou. 

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