França busca alternativa para reduzir riscos

Com o veto alemão ao eurobônus, o ministro da Economia propôs criação de 'eurobills' emitidos por uma agência de dívidas da zona euro a ser criada

ANDREI NETTO , CORRESPONDENTE / PARIS , O Estado de S.Paulo

31 Outubro 2012 | 02h11

Em uma nova tentativa de dissolver o risco que pesa sobre as dívidas dos países da zona do euro, o governo da França propôs ontem, em Berlim, a criação de um novo mecanismo de mutualização do passivo público (divisão dos riscos), os "eurobills". A proposta leva em conta os sucessivos vetos impostos pela chanceler da Alemanha, Angela Merkel, aos eurobônus, os títulos de longa duração. Pelo projeto, a mutualização seria apenas parcial, relativa a dívidas de curtíssimo prazo e controlada por uma agência europeia a ser criada.

A proposta não foi apresentada com o nome de eurobills, mas foi defendida pelo ministro da Economia da França, Pierre Moscovici, durante reunião com ministro de Finanças da Alemanha, Wolfgang Schaueble. Em paralelo, Merkel recebeu os chefes do Fundo Monetário Internacional (FMI), da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), da Organização Mundial do Comércio (OMC), da Organização Internacional do Trabalho (OIT) e do Banco Mundial, as maiores agências internacionais de economia, que já haviam se reunido com o presidente da França, François Hollande, na segunda-feira, em Paris.

O objetivo da França é ampliar o escudo de defesa da zona do euro contra a instabilidade provocada pela crise das dívidas soberanas.

Moscovici descartou a adoção de eurobônus neste momento, diante dos vetos de Angela Merkel, mas insinuou que o assunto poderá ser retomado após as eleições parlamentares alemãs de 2013. "Nós não falamos mais em eurobônus. Estou consciente de que na Alemanha se trata de um limite que não pode ser ultrapassado por alguns, entre eles o governo atual."

Por ora, disse Moscovici, é preciso pensar em mutualizar as dívidas de curtíssimo prazo, com um ano ou menos de maturidade. "Nós devemos abordar unidos o problema da dívida, que deve ser sustentada pelos 17 países-membros da zona do euro para mutualizar certos instrumentos de financiamento de curto prazo dos Estados, para construir a primeira etapa para uma certa forma de mutualização da dívida."

Inspiração. A proposta é defendida pelo Ministério da Economia da França e tem como um de seus inspiradores o economista francês Thomas Philippon, conselheiro econômico de Moscovici. Philippon defende a criação de uma agência específica para emitir e administrar a dívida de curto prazo da zona do euro, um projeto denominado pela imprensa da Europa de "eurobills". Elementos dessa proposta já foram recusados em junho por Merkel, durante a cúpula de chefes de Estado e de governo da União Europeia, em Bruxelas. À época, o projeto estava no rol dos considerados "economicamente contraprodutivos" pela chanceler.

Ainda assim, o governo de Hollande parece disposto a aumentar a pressão sobre a Alemanha para acelerar a estabilização da zona do euro com medidas até aqui bloqueadas por Berlim. Em queda acentuada de popularidade, o presidente francês tem dado mostras de estar disposto a entrar em choque com Merkel sobre questões econômicas para demonstrar pulso firme.

Em resposta a Moscovici, Schaueble revelou que Alemanha e França trabalham para apresentar na cúpula de novembro da UE "uma solução ampla e completa" para a crise da dívida da Grécia. "Nós, Alemanha e França, faremos o que for necessário para estabilizar a confiança na moeda comum."

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