França chocada com acusação de abuso sexual contra Strauss-Kahn

O diretor-gerente do FMI, Dominique Strauss-Kahn, foi acusado no domingo de abuso sexual contra uma camareira em um hotel em Nova York, em um escândalo que parece minar suas chances de disputar as eleições presidenciais da França.

CHRISTINE KEARNEY E JOHN IRISH, REUTERS

15 de maio de 2011 | 14h20

As acusações também ameaçam criar um vácuo na liderança do Fundo Monetário Internacional (FMI), que supervisiona o sistema econômico global.

Um de seus advogados, Benjamin Brafman, disse à Reuters que Strauss-Kahn vai se declara inocente.

O socialista de 62 anos, peça-chave na resposta à crise global do fim de 2007 a 2009 e à crise soberana na Europa, foi retirado de um avião da Air France que estava pronto para levantar voo no aeroporto internacional JFK, em Nova York, com destino a Paris, no sábado.

O porta-voz da polícia de Nova York Paul Browne disse que ele foi acusado de crime sexual e tentativa de estupro. Strauss-Kahn deve aparecer diante de um juiz ainda no domingo.

A prisão causou choque e incredulidade na França, onde um porta-voz do governo pediu cautela e respeito partindo do pressuposto de inocência até que se prove o contrário.

"As notícias que recebemos de Nova York ontem à noite vieram como um trovão", disse a líder socialista Martine Aubry, pedindo por união do partido.

Francois Bayrou, oposicionista de centro de Strauss-Kahn, disse que "tudo isso é completamente espantoso, imensamente embaraçoso e aflitivo".

"Se os fatos se provarem verdadeiros, é algo degradante para todas as mulheres. E é terrível para a imagem da França."

A líder francesa de extrema direita Marine Le Pen disse que as esperanças de Strauss-Kahn por uma candidatura à Presidência francesa acabaram.

Strauss-Kahn e Marine Le Pen vêm aparecendo em primeiro e segundo lugares em pesquisas recentes sobre as eleições presidenciais do próximo ano, à frente do presidente conservador Nicolas Sarkozy, mesmo que o diretor-gerente do FMI ainda não tenha declarado sua candidatura.

Em comunicado em seu site, o FMI se recusou a comentar o caso, dizendo que permanece operando normalmente. Em outra nota, a instituição informou que o número 2 do órgão, John Lipsky, irá assumir o posto de diretor-geral na ausência de Strauss-Kahn.

Na Grécia, uma autoridade disse à Reuters que a prisão de Strauss-Kahn pode causar algum atraso de curto prazo nas discussões com a União Europeia e o FMI sobre o pacote de resgate do país. O diretor-gerente do FMI estava diretamente envolvido nas negociações.

ESPOSA DIZ CONFIAR NO MARIDO

Anne Sinclair, esposa de Strauss-Kahn, disse em comunicado não acreditar nas acusações contra o marido. "Eu não duvido que sua inocência será confirmada. Eu peço respeito e decência."

Um dos advogados de Strauss-Kahn na França disse que é preciso tomar cuidado com conclusões precipitadas até que os fatos sejam esclarecidos.

Uma camareira de 32 anos abriu queixa por abuso sexual pelo suposto incidente ocorrido na suíte do hotel Sofitel da Times Square por volta das 17h de sábado (horário de Nova York), segundo a polícia.

Strauss-Kahn aparentemente deixou o hotel logo após o incidente, de acordo com a polícia.

"Ela disse a detetives que ele (Strauss-Kahn) saiu do banheiro pelado, correu em sua direção e começou a tentar abusar sexualmente dela, segundo o testemunho", disse o porta-voz da polícia Browne.

O diretor-gerente do FMI ainda teria tentado prender a camareira no quarto do hotel, segundo o testemunho.

Strauss-Kahn não tem imunidade diplomática, disse Browne.

De acordo com as leis estaduais de Nova York, crimes sexuais podem levar a uma sentença de 15 a 20 anos de prisão.

A acusação é um grande embaraço ao FMI, que autorizou bilhões de dólares em empréstimos a países com problemas em suas contas e teve um papel relevante na crise de dívida da zona do euro.

FRANÇA EM CHOQUE

Popularmente conhecido por suas iniciais DSK, esperava-se que o diretor-gerente do FMI declarasse no final de junho se iria disputar as eleições presidenciais da França.

As últimas pesquisas o colocaram claramente como vencedor sobre Sarkozy, que deve tentar a reeleição.

"O caso e as acusações marcam o fim de sua campanha e pré-campanha para a Presidência e irão provavelmente levar o FMI a pedir que ele deixe o posto", disse Marine Le Pen, líder do partido Frente Nacional, à emissora de televisão i-Tele.

Até mesmo aliados políticos de Strauss-Kahn estão pessimistas.

"O desfecho mais provável é que o caso vai ficar na memória e mesmo se ele se declarar inocente, o que deve ocorrer, provavelmente ele não terá condições de ser o candidato Socialista para a Presidência e não será capaz de permanecer no FMI", disse o proeminente socialista Jacques Attali.

AVIÃO RETIDO

Em Nova York, o porta-voz da polícia Browne disse que foi detectado que Strauss-Kahn tinha deixado o hotel.

"Descobrimos que ele estava no avião da Air France. Eles mantiveram o avião em solo e ele (Strauss-Kahn) foi retirado da aeronave e está agora detido para ser interrogado."

A camareira, que não teve sua identificação revelada, foi tratada em um hospital por ferimentos leves, disse Browne.

O cônsul geral francês se encontrou com Strauss-Kahn durante a noite, sob regras normais de proteção de cidadãos franceses detidos no exterior, disse uma porta-voz do consulado em Nova York.

Strauss-Kahn assumiu o comando do FMI em novembro de 2007 para um mandato de cinco anos até 2012.

Antes disso, ele foi ministro das Finanças na França, membro da Assembleia Nacional francesa e professor de economia.

Ele já enfrentou controvérsia antes. Em 2008, ele se desculpou por "um erro de julgamento" após um caso com uma economista do FMI que era sua subordinada.

Strauss-Kahn pediu desculpas a mulher, Piroska Nagy, e a sua esposa, bem como aos funcionários do FMI, pelos problemas causados.

Sua prisão acontece após comunicado na quinta-feira de que Lipsky, o número 2 do FMI, pretende se aposentar em agosto quando termina seu mandato.

Uma crise de liderança no FMI seria especialmente preocupante para as nações europeias, já que Strauss-Kahn tem um papel central em pacotes de ajuda para Islândia, Hungria, Grécia, Irlanda e Portugal.

(Reportagem adicional de Lesley Wroughton, Noeleen Walder, Catherine Bremer e John Irish)

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