Julien Warnand / EFE
Julien Warnand / EFE

França coloca acordo climático como condição para negociar com Mercosul

Em meio às declarações de Bolsonaro de que o Brasil pode deixar o Acordo de Paris, presidente francês sinalizou, na Argentina, que negociações entre blocos econômicos, na reta final após quase 20 anos, podem travar novamente

Jamil Chade, correspondente, O Estado de S.Paulo

29 Novembro 2018 | 16h42
Atualizado 29 Novembro 2018 | 22h46

GENEBRA - O presidente da França, Emmanuel Macron, disse nesta quinta-feira, 29, em Buenos Aires, que a assinatura de um acordo comercial da União Europeia com o Mercosul depende do apoio do governo brasileiro ao Acordo de Paris, um compromisso internacional que tem o objetivo de minimizar os impactos do aquecimento global.

As declarações foram feitas durante uma entrevista coletiva na capital argentina, onde começa nesta sexta-feira o encontro dos líderes do G-20, grupo que reúne as maiores economias do mundo.

“Do lado francês, eu digo claramente que não sou favorável à assinatura de um acordo comercial amplo com potências que não respeitam o Acordo de Paris e que anunciam que não vão respeitar o Acordo de Paris”, disse Macron. Nesta semana, o Brasil decidiu retirar sua candidatura para sediar a reunião sobre mudanças climáticas da ONU, em 2019. Bolsonaro admitiu, na quarta-feira, ter participado dessa decisão e explicou que não faria sentido sediar o evento, uma vez que o País pode deixar o acordo do clima.

“Esses acordos comerciais contemporâneos precisam responder aos desafios contemporâneos. Ocorre que há uma mudança política maior no Mercosul que acaba de ocorrer no Brasil. Portanto, é do lado do Mercosul que a questão está colocada para saber qual é a natureza do impacto que essa mudança vai ter”, afirmou Macron. 

As negociações para assinatura de um acordo comercial entre Mercosul e União Europeia se estendem por quase 20 anos e estão na reta final. A França sempre foi resistente a um acordo que prejudicasse seus produtores de carne e açúcar, mas recentemente deu sinais de que poderia chegar a um entendimento. Na quinta-feira, no entanto, Macron deixou claro que as conversas podem travar novamente.

Segundo ele, houve um encontro no início do ano em Paris com o presidente da Argentina Mauricio Macri e certos compromissos foram adotados por ambos os lados para garantir que houvesse um avanço nas negociações entre Mercosul e UE. Um desses compromissos foi de que todos, em um eventual acordo comercial, respeitassem os princípios do Acordo de Paris. “Isso significa que eu me coloco numa situação em que eu exijo esforços de meus trabalhadores, meus industriais, para se adaptarem ao Acordo de Paris. É um sacrifício”, disse Macron. “E do outro lado, assinaríamos acordos comerciais com países que dizem abertamente que não há problemas de aquecimento climático, que não fazem esses esforços.”

Nesta semana, Bolsonaro voltou a dizer que o Brasil é o país que mais preserva o meio ambiente e que o agronegócio está sufocado “por questões ambientais que não colaboram em nada para o desenvolvimento e a preservação do meio ambiente.”

Diplomatas brasileiros disseram ao Estado que, em governos anteriores, o acordo climático nunca foi um obstáculo. Parte dos negociadores brasileiros, porém, alertam que a postura da França pode ser “oportunista”. Paris jamais cedeu em abrir seu mercado para as exportações agrícolas do Mercosul. Agora, segundo alguns diplomatas, encontrou um argumento para impedir o acordo.

Procurado, o Itamaraty disse que não iria se pronunciar.

Resposta de Bolsonaro

Em publicação no Twitter, o presidente eleito Jair Bolsonaro afirmou que não vai sujeitar o território brasileiro a colocações de outras nações.

"Sujeitar automaticamente nosso território, leis e soberania a colocações de outras nações está fora de cogitação. É legítimo que países no mundo defendam seus interesses e estaremos dispostos a dialogar sempre, mas defenderemos os interesses do Brasil e dos brasileiros", escreveu na rede social.

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