França e Alemanha chegam a acordo

Após reunião de sete horas entre Merkel e Sarkozy, países definem uma ''posição comum'' - ainda sem detalhes - sobre o socorro à Grécia

Andrei Netto, O Estado de S.Paulo

21 de julho de 2011 | 00h00

ENVIADO ESPECIAL / BERLIM

Chefes de Estado e de governo de 17 países da União Europeia se reúnem hoje em Bruxelas em cúpula para decidir o novo plano de socorro à Grécia, avaliado em ? 115 bilhões. A informação mais esperada, entretanto, não é o tamanho do pacote, mas a forma como o país será resgatado - com ou sem default de pagamento de sua dívida soberana.

A decisão será tomada ao longo do dia, sob influência da "posição comum" negociada durante sete horas de discussões por Angela Merkel e Nicolas Sarkozy, desde o fim da tarde de ontem, em Berlim. À 1h de hoje, horário local (20h de Brasília), um comunicado conjunto foi distribuído à imprensa informando o acordo, sem fornecer detalhes.

Antes do acerto, os líderes ouviram as ponderações do presidente do Banco Central Europeu (BCE), Jean-Claude Trichet. "Merkel e Sarkozy concordaram numa posição comum franco-alemã, a qual foi informada ao presidente do Conselho Europeu, Herman Van Rompuy, a fim de que ele reúna esses elementos nas consultas conduzidas para a reunião de chefes de Estado e de governo da zona do euro", diz a nota.

A cúpula de hoje vem sendo comparada à reunião promovida pelos líderes políticos em 14 de outubro de 2008, também em Bruxelas. Na oportunidade, impactada pela quebra do banco americano Lehman Brothers, a UE afirmou em comunicado que não permitiria nenhuma falência bancária no bloco - informação que aliviou a pressão nos mercados do continente. O melhor cenário esperado pelos investidores hoje é um sinal semelhante, desta vez relativo aos países-membros da zona do euro.

Eurobonds. Entre os pontos negociados até a noite de ontem, estavam o reforço dos recursos e das atribuições do Fundo Europeu de Estabilidade Financeira (Feef). Liderados pela França, um grupo majoritário de países propõe que o fundo possa passar a emitir eurobonds - títulos da dívida europeia. Com eles, o Feef poderia financiar a recompra de obrigações gregas. Essa opção pode tanto evitar o calote quanto promover uma parcial reestruturação da dívida, dependendo do valor que Bruxelas for autorizado a pagar pelos papéis.

Segundo a porta-voz do governo francês, Valérie Pecrèsse, até ontem a Alemanha resistia à proposta, que na prática amplia o "federalismo" da UE, reduzindo o poder de gestão econômica de cada país. O governo de Merkel teria preferência pelo reescalonamento da dívida da Grécia - medida que seria interpretada por agências de rating como default de facto - e a criação de um imposto sobre o sistema financeiro destinado a recuperar o valor investido no salvamento da Grécia, da Irlanda e de Portugal.

Ontem, o Conselho Alemão de Especialistas Econômicos - fórum de acadêmicos que assessora o governo alemão - defendeu em artigo no jornal Frankfurter Allgemeine Zeitung a ideia da troca de títulos gregos por eurobonds emitidos pelo Feef, combinado a um default parcial da Grécia. A hipótese é rejeitada pelo BCE, que ameaça não receber títulos de países em default como garantia de empréstimos aos bancos privados. A retaliação defendida por Trichet ameaçaria, por sua vez, a estabilidade do sistema financeiro do continente.

Ontem, Merkel recebeu um telefonema do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, que reforçou a necessidade de um acordo amplo hoje. Coincidência ou não, a chanceler se disse "muito confiante" quanto aos "bons resultados" nas negociações. À espera, os mercados financeiros reagiram com euforia. Em Milão e Madri, as bolsas subiram 3%, enquanto Paris, Londres e Frankfurt os pregões fecharam com altas de 1,6%, 1,1% e 0,4%, respectivamente.

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