José Patrício/Estadão
José Patrício/Estadão

França reduz resistência e acordo entre UE e Mercosul pode avançar

Tendência é de que a França dê seu acordo para ampliar de 70 mil toneladas para 100 mil toneladas a cota de importação de carne do Mercosul, mesmo desagradando produtores europeus

Andrei Netto, correspondente, O Estado de S.Paulo

31 de janeiro de 2018 | 17h48

PARIS - Durante muito tempo considerado o país que mais bloqueava o acordo de livre-comércio entre a União Europeia e o Mercosul, a França mudou de posição nas últimas horas em favor de um fechamento rápido da negociação, que se prolonga há mais de 20 anos. Desde terça-feira, 30, delegados governamentais de Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai estão em Bruxelas na expectativa de avançar em um entendimento com a Comissão Europeia. Agora, o entendimento parece mais próximo.

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Nos bastidores políticos em Paris, a tendência é de que a França dê seu acordo para que Bruxelas proponha a ampliação da cota de importação de carne do Mercosul de 70 mil toneladas por ano a 100 mil toneladas por ano, mesmo desagradando o setor francês, que teme uma invasão de carne brasileira, uruguaia e argentina. 

Na sexta-feira, em reunião bilateral com o presidente da Argentina, Mauricio Macri, Macron deu o sinal de que seu governo estaria pronto a aceitar o acordo com o Mercosul, desde que as negociações evoluam.

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"Nós compartilhamos a mesma visão estratégica sobre este acordo entre União Europeia e o Mercosul, que pode ser bom para as duas partes. É pertinente tentar finalizá-lo rapidamente no contexto geopolítico atual", argumentou Macron, em alusão à rejeição do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, a mais acordos de livre-comércio e em favor de medidas protecionistas. 

O presidente francês, que foi um dos artífices do acordo de livre-comércio com o Japão, em fase de definição, coloca-se no tabuleiro político como um dos incentivadores da globalização comercial no mundo.

Para o presidente, o importante é que as "linhas vermelhas" estabelecidas pelo governo francês não sejam ultrapassadas. Esses limites seriam o respeito ao modelo social e às práticas ambientais europeias, de forma a evitar o que Paris chama de "dumping" social e ambiental - quando países produzem com mão-de-obra barata, sem direitos sociais e com práticas sanitárias abaixo do exigido pela UE.

Hoje, o ministro da Agricultura, Stéphane Travert, afirmou em declaração a deputados na Assembleia Nacional que, as condições ainda não estão reunidas. O recado é claro: o governo ainda espera que haja concessões dos países latino-americanos. "A França espera avançar com o Mercosul, mas no contexto atual é essencial chegar a um resultado equilibrado, e no estado atual, as contas não fecham", afirmou.

Em Bruxelas, a equipe da comissária europeia de Comércio, Cecilia Malmström, segue discutindo com os delegados de Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai em busca de um entendimento. "As coisas avançaram, e nós esperamos agora que o Mercosul volte e nos dê seu parecer sobre a forma como poderíamos finalizar as negociações", disse o vice-presidente da Comissão Europeia, Jyrki Katainen, em entrevista coletiva. "No final, só restam as questões mais difíceis. Mas se a vontade política é forte, como é o caso nesse momento, estou certo de que podemos chegar a esse objetivo."

Enquanto nos meios políticos de Paris e Bruxelas a ideia de chegar a um acordo avança, entre líderes do setor rural na França a resistência permanece elevada, em especial entre produtores de gado bovino e de frango. Para eles, os dois segmentos correriam o risco de se ver desestabilizados pela entrada de carne produzida com baixo custo e normas sociais e ambientais abaixo das praticadas pela Europa.

Os produtores reclamam que a renda média da categoria na França seria de 12 mil euros por ano, e que a tendência seria de baixa com o aumento da competição. Isso porque a Europa bane o uso de ração geneticamente modificada - em especial a soja - e debate a proibição do uso do glifosato, um herbicida reputado por seus efeitos nocivos à saúde, o que implica custos mais elevados de produção.

O risco seria maior no segmento de carne de alto valor. "As exportações de países do Mercosul serão as mesmas que as do Canadá, ou seja, pedaços de carne destinados ao mercado mais caro, mas com preços muito mais baixos", entende Baptiste Buczinski, chefe de projeto do Instituto de Criação (Idele), da França.

Sindicatos setoriais também manifestam preocupação pelo que consideram a iminência de um acordo com o Mercosul. A Confederação de Agricultores criticou a decisão de Macron de baixar a guarda e o chamou de "traidor". "O Brasil não continua a ser incapaz de demonstrar a credibilidade do sistema de traçabilidade e de certificação sanitária das carnes? A criação sul-americana não continua a ser responsável por desflorestamento, e logo incompatível com a agricultura engajada na luta contra as mudanças climáticas?", questionou a organização.

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