França relança negociações para reforma

Presidente francês diz que vai propor retomada das discussões na reunião do G-20, em Nice

Andrei Netto CORRESPONDENTE PARIS, O Estado de S.Paulo

27 de agosto de 2010 | 00h00

A Europa ainda não abriu mão de uma profunda reforma do sistema financeiro internacional. Depois de a Alemanha anunciar na quarta-feira a criação de um novo imposto sobre o sistema bancário, o presidente da França, Nicolas Sarkozy, anunciou a intenção de relançar as negociações por um novo "Bretton Woods" nas reuniões de cúpula do G-8 e do G-20 que ocorrerão em solo francês em junho e novembro de 2011, respectivamente.

Segundo o chefe de Estado francês, limitar-se às medidas tomadas até aqui seria "condenar o G-20 a conduzir o mundo a novas crises".

A disposição foi expressa aos embaixadores franceses em reunião realizada na noite de quarta-feira, no Palácio do Eliseu. Para Sarkozy, será necessário em 2011 "consolidar os mecanismos de coordenação" e "reforçar a supervisão multilateral", estendendo-a aos paraísos fiscais e às agências de classificação de risco.

Contra os riscos. O presidente francês também afirmou que proporá no G-20 o reforço do Conselho de Estabilidade Financeira (FSB) e a implantação das medidas prudenciais que visam ao combate aos riscos excessivos assumidos pelos bancos.

As propostas foram apresentadas antes mesmo da realização da cúpula do G-20 de Seul, na Coreia do Sul, em novembro.

"A França propõe a seus parceiros a escolha da ambição", afirmou Sarkozy. "Só o G-20 dispõe de peso específico, de legitimidade e de capacidade de decisão necessárias para dar os impulsos indispensáveis a essas medidas."

Para o chefe de Estado, as cúpulas de 2011 devem tirar o G-20 e o G-8 da apatia e marcar de fato a realização de um novo acordo de Bretton Woods, em alusão aos tratados assinados em 1944 para regular o sistema financeiro internacional.

"A prosperidade do pós-guerra se deveu muito a Bretton Woods, às suas regras e instituições. Desde o início dos anos 70, nós vivemos em um não-sistema monetário internacional", declarou Sarkozy.

Entre as medidas defendidas pela França estão a criação de um mecanismo para reduzir a volatilidade monetária - sem, entretanto, a adoção de câmbios fixos. Sarkozy defendeu a revisão do sistema de moedas de reserva, papel hoje desempenhado basicamente pelo dólar, sugerindo a adoção dos Direitos de Especiais de Saque (SDRs) do Fundo Monetário Internacional (FMI).

Estabilidade de preços. "Oferecer um ativo de reserva internacional que não seja emitido por um único país permitiria reforçar a estabilidade do sistema inteiro", argumentou. O presidente francês também pregou o debate de medidas que garantam a estabilidade dos preços internacionais das matérias-primas e dos alimentos.

Mas a prioridade número 1 das cúpulas, segundo a pauta francesa, deverá ser o reforço dos mecanismos de gestão de crise. Sarkozy proporá mais reforço do FMI. "A crise financeira, e também a crise do euro, mostraram que, para assegurar a estabilidade, o mundo deveria ser capaz de mobilizar rapidamente somas muito importantes para enfrentar a especulação irracional dos mercados", estimou.

Argumentos

NICOLAS SARKOZY

PRESIDENTE DA FRANÇA

"A França propõe a seus parceiros a escolha da ambição. Só o G-20 dispõe de peso específico, de legitimidade e de capacidade de decisão necessárias para dar os impulsos indispensáveis a essas medidas".

"A crise financeira, e também a crise do euro, mostraram que, para assegurar a estabilidade, o mundo deveria ser capaz de mobilizar rapidamente somas muito importantes para emfrentar a especulação irracional dos mercados".

A França defende ainda a criação do cargo de secretário-geral do G-s20 e a ampliação de seu leque de temas, incluindo as negociações de um futuro acordo climático.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.