Franceses em cólera

Os franceses estão em cólera e a manifestam ruidosamente. Pela sexta vez em poucas semanas, entram em greve e saem às ruas. Poderíamos dizer que é uma "cólera durável", aproveitando a expressão muito apreciada pelos ecologistas.

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

20 de outubro de 2010 | 00h00

Mas não é somente "durável". Ela também está ficando mais intensa e mais tenaz. À greve e às manifestações nas ruas, armas clássicas da luta social, outras duas vieram se juntar, usadas pelos sindicatos e os manifestantes apenas circunstâncias extremas. Ou seja, a agitação nas escolas, de um lado, e o caos no setor de aprovisionamento de petróleo, gasolina e diesel.

Por isso a imprensa estrangeira está em alerta máximo. A BBC inglesa faz um quadro de uma França "em fogo e sangue". O The New York Times, o Diário de Notícias, de Lisboa, La Razón, de Madri, Die Zeit, da Alemanha, o Financial Times londrino, enlouquecem, publicando fotos de carros em chamas, hangares demolidos. Será o apocalipse? E esses alarmes se justificam? Em parte, mas é preciso levar em conta também a índole dos franceses, o seu estilo. A França é campeã do mundo da luta social. Para um manifestante francês, incendiar um depósito de gasolina é algo rotineiro, quase uma distração; faz parte da "cultura francesa", da mesma maneira que um poema de Victor Hugo ou uma ópera de Bizet.

Por que esse sexto dia de luta? Para impedir o governo de sancionar uma reforma da previdência. A França adota o regime de "repartição".

Os franceses cotizam durante toda a sua vida para preparar a aposentadoria que receberão quando pararem de trabalhar. Esse regime de repartição não é questionado por Sarkozy. O que ele deseja modificar são as suas "modalidades".

Vida longa. O que se justifica. A esperança de vida aumentou maravilhosamente na França, como em todos os países ricos. Hoje, um trabalhador, ao se aposentar, ainda tem pela frente 10 ou 15 anos de vida. Como garantir uma aposentadoria por um período cada vez mais longa se as contribuições feitas para as caixas de pensão não aumentam? Hoje elas já registram déficits de alguns bilhões de euros a cada ano. Se não for feita uma reforma, a França vai falir.

Nicolas Sarkozy pretende, assim, aumentar a idade para um trabalhador se aposentar. Atualmente ela é de 60 anos. O plano é retardá-la para 62. E isso não agrada os trabalhadores. Para eles, quando o governo (na época socialista) reduziu a idade de aposentadoria para 60 anos foi um grande avanço social. A idade de 60 anos tornou-se uma "vaca sagrada" e mexer nela será um "sacrilégio".

Esse é o motivo da batalha atual. E o problema é que Sarkozy agiu, neste caso, com sua costumeira falta de tato: brutalidade, recusa em ouvir as objeções, arrogância, triunfalismo, insensibilidade. Os franceses então se mobilizaram. Já conseguiram fazer o presidente recuar em vários pontos particularmente injustos: a nova idade para a aposentadoria não será a mesma para todas as profissões. Por exemplo, aqueles que exercem atividades perigosas ou insalubres poderão se aposentar mais cedo. O mesmo será aplicado no caso de mulheres que tiveram três filhos.

Favores aos ricos. Há um outro aspecto: essa reforma foi decidida num momento pouco propício. Há seis meses multiplicam-se os casos mostrando que, na França de Sarkozy, os "ricos" desfrutam de favores exorbitantes. Um exemplo: para evitar que as grandes fortunas fujam para os paraísos fiscais no exterior, Sarkozy reduziu enormemente o imposto sobre as grandes fortunas.

E recentemente a sociedade teve conhecimento de que a mulher mais rica da França, Liliane Bettancourt (dona da l´Oréal) recebeu do fisco, este ano, uma restituição de impostos de 30 milhões. Claro que todas as bonificações, indenizações e benefícios e restituições de impostos que o presidente distribui alegremente para os "muito ricos" não permitiriam aumentar o nível de vida dos franceses. Mas, no plano simbólico, essas "benesses" insolentes são insuportáveis para os pobres e os operários.

Por isso uma reforma que é sensata no seu princípio, mas brutal e imperfeita nos seus detalhes, tem por resultado levar toda a França para as ruas. Alguns até acreditam que a violência dos protestos tem a ver menos com a reforma e mais com a "rejeição" total do personagem Nicolas Sarkozy. O que exacerba a cólera da rua é a brutalidade, o autismo, o menosprezo que o presidente manifesta pelos parlamentares, juízes, professores, operários, estudantes, enfim, todo mundo ou quase, incluídos seus próprios ministros, que tremem como vara verde cada vez que estão da presença do "mestre".

Força. O que pode suceder agora? Sarkozy quer "impor à força" sua reforma, fazer com que seja votada o mais rápido possível pelo Parlamento, esperando que, uma vez transformada em lei, cessem as manifestações.

O raciocínio é plausível. Mas é possível que essa estratégia da tensão, pelo contrário, aumente ainda mais o descontentamento. É por isso que, nesse dia crucial, os ministros estão menos interessados nas marchas de protesto e nas greves e mais preocupados com agitações menos estruturadas, mais selvagens, ou seja, a ação dos trabalhadores do setor do petróleo e o nervosismo nas escolas.

As escolas secundárias do país são inflamáveis. Os jovens alunos têm pouca formação política, sem um responsável e líderes, e podem pender facilmente para o extremismo e a violência. Ora, em dias tensos como hoje, o menor incidente envolvendo esses estudantes (um ferimento, para não falar de uma morte) pode colocar fogo em todo o país.

Quanto ao petróleo, o pavor dos homens no poder é que os postos de gasolina não sejam abastecidos, levando o país a uma paralisia total que pode provocar o caos. É verdade que os trabalhadores do setor sabem que não podem radicalizar a tal ponto o movimento. De fato, se a greve contra a reforma previdenciária tem uma forte aprovação (entre 70% e 80% dos franceses são favoráveis a ela), a falta de gasolina nos postos poderá reverter esse quadro. Os franceses, como os americanos ou os brasileiros, amam de paixão o seu carro. Se forem privados de gasolina, poderão voltar-se contra os grevista. E o governo não ignora essa possibilidade. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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