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Francos, pânico e tolice

O que precisamos entender é que todas as regras habituais da política econômicamudaram com a crise

PAUL, KRUGMAN, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

17 de janeiro de 2015 | 02h03

Ah, a Suíça, famosa pelos relógios cuco e a prudência com o dinheiro. Outros países talvez experimentem com políticas econômicas radicais, mas, com os suíços, nunca temos surpresas.

Até o dia em que eles nos surpreendem. Na quinta-feira, o Banco Nacional Suíço, equivalente ao Federal Reserve americano, chocou o mundo financeiro com um golpe duplo, simultaneamente abandonando a política de manter o franco suíço atrelado ao euro e cortando os juros pagos sobre as reservas bancárias para -0,75% (isso mesmo, juros negativos). Seguiu-se o caos no mercado.

E todos deveriam sentir um arrepio de medo, mesmo aqueles sem nenhum interesse financeiro direto no valor do franco. Pois o périplo monetário da Suíça é uma miniatura de exemplo de como é difícil combater o vórtice deflacionário que agora arrasta boa parte da economia mundial.

O que precisamos entender é que todas as regras habituais da política econômica mudaram quando a crise financeira teve início em 2008; entramos numa espécie de mundo de Alice através do espelho e ainda não saímos.

Eis como a coisa funcionou: quando a Grécia entrou em sua crise de endividamento no final de 2009, e outros países europeus se viram sob pesado estresse, o dinheiro em busca de um santuário migrou para a Suíça. Isso fez o franco suíço disparar, com efeitos devastadores na competitividade do país, e ameaçou jogar a Suíça - onde a inflação e os juros já eram baixíssimos - numa deflação ao estilo japonês.

Assim, os responsáveis pela política monetária suíça decidiram empregar um esforço total para enfraquecer a própria moeda. Talvez alguém pense que fazer a própria moeda valer menos é fácil - não basta simplesmente imprimir mais notas? -, mas, no mundo pós-crise, a tarefa é dificílima. Imprimir dinheiro e metê-lo nos bancos não produz nenhum efeito: o dinheiro fica ali parado. Os suíços tentaram uma abordagem mais direta, vendendo francos e comprando euros no mercado de divisas estrangeiras, adquirindo nesse processo uma imensa reserva de euros.

Mas nem isso produziu o efeito desejado. Então, em 2011, o Banco Nacional Suíço testou uma tática psicológica.

"A atual supervalorização acentuada do franco suíço representa um risco sério para a economia suíça", declarou o banco, "e traz o risco de desenvolvimentos deflacionários".

E assim o banco anunciou que definiria um valor mínimo para o euro - 1,2 franco suíço - e, para fazer valer a nova regra, estaria "preparado para comprar divisas estrangeiras em quantidades ilimitadas". A esperança do banco era que, ao definir esse limite, o resultado pudesse restringir a quantia de euros que teriam de ser comprados.

E, durante três anos, o plano funcionou. Mas, na quinta-feira, os suíços subitamente desistiram da ideia. Não sabemos exatamente o motivo; ninguém que conheço acredita na explicação oficial, segundo a qual esta seria uma resposta a um euro mais fraco. Mas parece provável que uma nova onda de dinheiro em busca de santuário estava encarecendo demais os esforços para manter o valor do franco baixo.

Se me perguntarem, os suíços acabam de cometer um grande erro. Mas, francamente - franca-suiçamente? -, o destino da Suíça não é a questão importante. Em vez disso, o importante é a demonstração do quanto é difícil combater as forças deflacionárias que agora afetam boa parte do mundo - não apenas Europa e Japão, mas possivelmente também a China. E embora os Estados Unidos tenham apresentado bons resultados nos meses mais recentes, seria tolice dos americanos pensarem que estão imunes.

Tudo isso nos mostra como é importante manter a deflação à distância - uma vez que caímos nela, pode ser extremamente difícil sair. Essa é uma das razões pelas quais cortar os gastos do governo numa economia deprimida é uma ideia tão ruim: não se trata apenas do custo imediato em termos de empregos perdidos, mas também o risco de cair numa armadilha deflacionária.

É também motivo para ter muita cautela ao aumentar os juros numa situação de baixa inflação, mesmo que uma deflação não pareça iminente.

No momento, as pessoas sérias - as mesmas pessoas sérias que decidiram, equivocadamente, que 2010 seria o ano em que o foco deveria sair dos empregos e passar aos déficits - parecem estar se aproximando do consenso segundo o qual o Fed deveria começar a aumentar os juros muito em breve. Mas por quê? Não há nenhum indício de aceleração da inflação nos dados reais, e os indicadores do mercado para a expectativa de inflação estão caindo, o que indica que os investidores enxergam um risco deflacionário, ainda que o Fed não veja isso.

E eu partilho dessa preocupação do mercado. Se a recuperação dos EUA enfraquecer, seja em decorrência do contágio dos problemas externos ou por nossos alicerces não serem tão sólidos, a opção por uma política monetária mais apertada pode facilmente se revelar um ato de suprema tolice.

Assim, vamos aprender com os suíços. Eles foram cuidadosos; administraram o dinheiro com prudência durante gerações. E agora estão pagando o preço. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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