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Fraqueza geral

Não é apenas o semestre que está comprometido; Todo o ano de 2015 tende a ser de quebra da atividade econômica - e não só do comércio

Celso Ming, O Estado de S. Paulo

14 Maio 2015 | 21h00

Quem tem dúvidas sobre a extensão e a intensidade da retração da economia no primeiro trimestre deste ano, deve olhar para os números divulgados nesta quinta-feira pelo IBGE sobre o desempenho do comércio varejista (veja o gráfico abaixo).

As estatísticas dividem essa área em dois campos: varejo restrito e varejo ampliado. Este último acrescenta ao primeiro o comércio de veículos e de materiais de construção.

Em março, as vendas do varejo restrito caíram 0,9% em relação a fevereiro. Comparado o primeiro trimestre com igual período de 2014, a queda foi de 0,8%.

O número ainda mais expressivo é o que aponta para a abrangência da retração, que, por analogia com o que acontece com a inflação, pode ser chamado também de índice de difusão. O IBGE examina dez ramos do comércio restrito. Sete apontaram queda no trimestre. Vista a mesma coisa de outro jeito, as vendas no varejo restrito, em março, foram mais fracas em 16 dos 26 Estados (e Distrito Federal) da União. O estrago é ainda maior quando se consideram os dois ramos que completam o extrato do varejo ampliado, queda de 5,3% no trimestre.


Ninguém esperava que o ajuste da economia fizesse efeito tão rapidamente nem que fosse tão intenso. Pelo menos três fatores vêm contribuindo para essa retração. O primeiro deles é a perda de poder aquisitivo provocada pela inflação e pelos tarifaços que comeram uma fatia maior do orçamento. O segundo é o excessivo endividamento. O consumidor foi induzido pelo governo a não ter medo de ser feliz e sair comprando casa própria, veículo e aparelhos domésticos.

O financiamento parecia atraente porque apontava prestações que cabiam com folga no salário. Mas, muito depressa, tudo ficou mais caro, o dinheiro encolheu e ficou complicado honrar os carnês no banco no fim do mês.

O terceiro fator que segurou as vendas do varejo foram as más notícias, digamos assim. Ameaças de desemprego e de salário mais curto, o preço do ajuste, o juro mais alto e tanta coisa mais pediram comportamento mais retrancado do consumidor. Ele já não saca seu cartão de crédito com a facilidade de antes, reduziu suas idas a restaurantes e a esticada à praia nos fins de semana.

Pode-se ponderar que o relatório do IBGE ficou para trás porque termina em março e já estamos em meados de maio. Só que desta vez não dá para insistir em que é preciso olhar pelo vidro do para-brisas e não pelo retrovisor, porque as estatísticas mais recentes são ainda mais negativas, especialmente nas faixas de bens de consumo duráveis (veículos e aparelhos domésticos). Em abril, as vendas de veículos despencaram 6,6% em relação a março e os comerciantes se queixaram de que o movimento do Dia das Mães foi o mais fraco em anos.

Não é apenas o semestre que está comprometido. Todo o ano de 2015 tende a ser de quebra da atividade econômica - e não só do comércio. A título de contraponto ao quadro ruim, resta o consolo de esperar por certa recuperação da economia provavelmente antes do fim do ano, dentro do princípio de sabedoria popular de que no fundo do poço sempre tem alguma mola.

CONFIRA:

Aí está a evolução do emprego no Estado de São Paulo até abril.

Começo de safra

Outro indicador do estado geral da economia é o nível do emprego no Estado de São Paulo. As estatísticas da Fiesp mostram um aumento de 5 mil empregos em abril. Mas este é um número ilusório porque se concentra nos setores do açúcar e do álcool, cujas safras estão começando (vai até dezembro). As contratações pelas usinas chegaram a pouco mais de 16 mil funcionários. O problema é que o resto da indústria de transformação demitiu 11 mil e tende a demitir ainda mais.

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