Fraqueza política, desalento econômico

Opinião

Jorge J. Okubaro, O Estado de S.Paulo

16 de março de 2015 | 02h06

Mais do que a velocidade com que se deteriora o ambiente político e econômico, por si só preocupante, o que causa perplexidade neste momento é a incapacidade do governo de agir de maneira eficaz para, no que depende dele, evitar que as coisas piorem. Como se participasse de um jogo em que todos estão condenados a perder, a presidente Dilma Rousseff dá lances que tornam mais distantes as soluções - condicionadas, em primeiro lugar, à sua compreensão da dimensão dos problemas.

Por palavras e gestos, porém, a presidente não parece querer mais do que reafirmar sua condição de legitimamente eleita para o cargo - o que não está em questão - e apontar como causa das dificuldades fatores alheios à responsabilidade do governo - o que torna mais difícil a busca das respostas adequadas.

As derrotas que sofreu no Congresso, algumas duras, não a convenceram da necessidade de buscar entendimento com as diferentes forças políticas - a começar por sua base de apoio no Legislativo, cada vez mais fragilizada pelas posições francamente oposicionistas de alguns de seus mais notórios integrantes, como os presidentes das duas Casas que o compõem.

A presidente demorou para responder à frequentemente noticiada sugestão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva - que jamais poderá ser considerado inepto nesse campo - de trazer nomes de peso para o grupo de articulação política de seu governo, especialmente representantes expressivos do principal partido da base, o PMDB.

Quando o fez, na semana passada, citou um político cujo talento se comprovou na articulação de seu próprio partido, o ex-prefeito paulistano e atual ministro das Cidades, Gilberto Kassab, do PSD, que pode desempenhar um papel importante para o governo. Da lista que Dilma pretende incorporar ao grupo de articulação faz parte também o ministro de Ciência e Tecnologia, Aldo Rebelo, do PCdoB, cuja principal qualidade política é a de se relacionar bem, sobretudo com os que já estão do lado do governo. O terceiro novo integrante da equipe, o ministro da Aviação Civil, Eliseu Padilha, é do PMDB, como sugeriu Lula, mas seu peso e sua influência no partido parecem não corresponder às necessidades políticas do governo.

Já os que permanecem no grupo de articulação, e são os companheiros de partido com os quais a presidente tem mais afinidade política, são criticados por boa parte do PT, especialmente os integrantes das tendências que foram excluídas do governo - entre as quais aquela mais próxima de Lula. Assim, até no PT se faz oposição.

No campo econômico, o quadro não é melhor. O que de mais efetivo o novo governo Dilma apresentou - o ajuste fiscal conduzido pelo ministro da Fazenda, Joaquim Levy - corre o risco de ser desfigurado, tanto no que depende de decisões de um Congresso cada vez mais hostil ao Planalto como no que depende apenas de decisões do Executivo, que, acuado, pode fazer um acerto mitigado e menos produtivo.

A resistência da equipe econômica à correção de 6,5% da tabela do Imposto de Renda Pessoa Física foi suficiente apenas para evitar danos ainda maiores à arrecadação tributária. Negociações com o Congresso, de responsabilidade dos ministros da área política, tiveram de ser feitas pelo ministro da Fazenda, que aceitou regras mais vantajosas para os contribuintes do que as que tinham sido anunciadas.

Medidas mais rigorosas para a concessão de benefícios custeados pelo Fundo de Amparo ao Trabalhador e pelo INSS - algumas excessivamente duras, reconheça-se - começaram a ser questionadas dentro do partido do governo, o PT. Isso abriu espaço até mesmo para uma estranha articulação de dirigentes empresariais interessados em vantagens políticas pessoais com sindicalistas que viram na resistência às medidas uma grande oportunidade de aparecer bem para suas bases. A fragilidade política do governo estimula gestos oportunistas como esses.

A maneira como evoluem as negociações do ajuste fiscal, encolhendo-o, acrescenta um fator político negativo a um quadro econômico que já vinha desestimulando os investimentos. Sem investimentos, não há crescimento. E, sem crescimento, o desânimo, notável em diferentes setores da economia, tende a se disseminar, com isso aprofundando a crise.

Nos últimos anos, investiu-se pouco na expansão e na modernização do parque produtivo, e não há indicações de que, no futuro próximo, os investimentos venham a alcançar o nível necessário para assegurar o crescimento mais rápido da economia. Pesquisa divulgada há dias pelo Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas mostrou que, neste primeiro trimestre, um terço das empresas industriais consultadas está investindo menos do que nos 12 meses anteriores. Entre os motivos para a redução está, obviamente, a deterioração do clima econômico e político.

Quanto à inflação, até o Banco Central, responsável por conduzi-la para a meta raras vezes cumprida de 4,5% ao ano, parece ter desistido de reduzi-la nos próximos meses. Da ata da mais recente reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), na qual se aprovou a elevação da taxa Selic em 0,5 ponto porcentual (para 12,75% ao ano), foi excluída a expressão "longo período de declínio" da inflação, que aparecia em atas anteriores. Note-se que, ainda assim, a ata faz menção apenas ao avanço dos preços administrados, sem citar o impacto da alta do dólar sobre os preços internos.

Quanto à atividade econômica, dados sobre produção, vendas, emprego e renda vão confirmando a estagnação - quando não a recessão. Vai se consolidando um cenário que realimenta o pessimismo já intenso entre empresários, investidores, trabalhadores, consumidores - em algumas cidades e regiões, a insatisfação parece ter chegado ao ponto de transbordamento.

O necessário desanuviamento do ambiente depende de atitudes eficazes, mas serenas, dos que têm sabedoria para indicar caminhos e dos que têm a responsabilidade de percorrê-los - a começar pelo governo.

*Jorge J. Okubaro é jornalista e autor de 'O Súdito (Banzai, Massateru!)', ed. Terceiro Nome 

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