"be water"

Coluna Leandro Miranda: como se moldar à nova economia após a covid-19?

Frase de Lula ''é uma visão preconceituosa''

Para especialistas, porém, tese do presidente sobre ?brancos de olhos azuis? não afeta relações com outros países

Lourival Sant?Anna, O Estadao de S.Paulo

28 de março de 2009 | 00h00

Tudo estava indo bem. O primeiro-ministro britânico, Gordon Brown, anfitrião da Cúpula do G-20 na quinta-feira em Londres, respaldava a aspiração do Brasil e de outros países emergentes de ganhar mais voz nas instâncias internacionais. Então o presidente Luiz Inácio Lula da Silva resolveu dizer o que pensava: "É uma crise causada, fomentada, por comportamentos irracionais de gente branca, de olhos azuis". O insólito comentário logo ganhou destaque nos sites mundo afora. Apesar de "preconceituoso", dizem os especialistas, não deve prejudicar o Brasil no papel que ele tenta atribuir-se."É uma visão preconceituosa, porque associa determinada característica e comportamento a um grupo étnico-racial", classifica Rosana Heringer, especialista em racismo. "Não ajuda no combate ao racismo. Se a gente se incomoda com estereótipos contra os negros, da mesma forma tem de ser crítico diante de visões negativas em relação aos brancos. Esse tipo de imagem é delicado, perigoso." Ela explica, no entanto, que não chega a ser uma declaração racista: "Racismo seria dizer que eles geraram a crise por serem brancos".Lula já havia feito esse tipo de declaração ao lado de outros governantes. Diante da presidente da Argentina, Cristina Kirchner, ele disse, no dia 20, num discurso a empresários na Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, que Barack Obama "é o primeiro presidente eleito nos Estados Unidos, em muitas décadas, que se parece com a gente". E reiterou: "É a primeira pessoa com a cara de gente". Em novembro de 2003, ao lado do presidente da Namíbia, Sam Nujoma, Lula confessou: "Estou surpreso porque, quem chega a Windhoek, não parece que está num país africano. Acho que poucas cidades do mundo são tão limpas e bonitas arquitetonicamente quanto esta cidade. E um povo extraordinário". E arrematou: "A visão que se faz da América do Sul é que nós somos índios pobres"."É uma declaração desastrosa, totalmente errada, mas essas opiniões dele já são conhecidas", pondera o argentino Eduardo Viola, professor de relações internacionais da Universidade de Brasília. "É uma declaração muito negativa para ele e para o Brasil, mas não tem nenhum significado. Não afeta as relações." Essa é também a visão de Tullo Vigevani, do Grupo de Conjuntura Internacional da USP. "Pode criar pequeno mal-estar, mas não tem influência. Teria, se refletisse uma atitude estruturada do governo brasileiro. Não se trata disso. Lula tem feito questão de ter boas relações com todos os países.""O Brasil tem de ser muito menos bombástico que essa declaração, e muito mais propositivo", sugere Ricardo Sennes, professor da PUC de São Paulo e diretor da Prospectiva Consultoria de Assuntos Internacionais. Para Sennes, o Brasil serve de modelo em matéria de regulação financeira, com mecanismos como o Sistema Brasileiro de Pagamentos e o "clearing" de câmbio da Bolsa Mercantil e de Futuros, que controla a exposição dos bancos. "O Brasil não tem de ser defensivo, tem o que propor", diz ele. "Mas não está preparado estrategicamente para isso."Viola acha que a inclusão dos emergentes nas instâncias globais está "consagrada", em razão das crises econômica e ambiental. Mas o G-20 deve dar lugar a uma estrutura um pouco mais enxuta, como o G-8 + 5, ou seja, as sete maiores economias, com a Rússia, e mais a China, Índia, Brasil, México e África do Sul. No máximo, incluiria ainda um país árabe.Mas o caminho não está trilhado. Vigevani adverte que as intenções expressas por Gordon Brown na quinta-feira em Brasília "têm de ser testadas na reunião, porque declarações bilaterais ou entrevistas à imprensa no término de um encontro de presidentes não têm o significado de um documento". Felizmente, as declarações de Lula, também não.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.