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Freada nas construções chinesas afetaria Brasil

Economista diz que China terá de investir menos no setor, o que levará ao fim do ciclo de commodities que turbinou as exportações brasileiras

CLÁUDIA TREVISAN, CORRESPONDENTE /PEQUIM, O Estado de S.Paulo

22 de março de 2012 | 03h05

O investimento chinês no setor de construção terá que desacelerar de maneira significativa se o país estiver disposto a reequilibrar sua economia, o que levará ao fim do super ciclo de commodities que turbinou as exportações brasileiras nos últimos cinco anos, afirmou ontem o economista norte-americano Nicholas Lardy, autor do recém lançado Sustaining China's Economic Growth After the Global Financial Crisis (Sustentando o Crescimento Chinês depois da Crise Financeira Global).

Em sua opinião, grandes exportadores de minério de ferro, como o Brasil e a Austrália, terão um período difícil com a inevitável perda de fôlego da China, agravada pela a mudança de modelo de desenvolvimento, com redução dos investimentos e aumento do consumo.

A construção residencial está no centro do ajuste. Para Lardy, o setor foi o principal motor de crescimento em anos recentes, mas o volume de investimentos que recebe chegou a patamares insustentáveis, que tendem a se reduzir a partir de agora.

No ano passado, a quantidade de recursos destinada à construção de casas atingiu 9,4% do PIB, índice semelhante aos 9,5% registrados pela Espanha no pico de sua bolha imobiliária em 2007 e superior ao máximo observado nos EUA (6% em 2005) ou Taiwan (4,3% em 1980).

Em palestra a jornalistas estrangeiros em Pequim, Lardy apontou outros limites para a expansão do setor. A parcela da riqueza das famílias aplicada em propriedades imobiliárias dobrou entre 1997 e 2010, quando chegou a 40%. "Esse porcentual não vai dobrar de novo na próxima década", disse. Nos EUA, o pico foi de pouco mais de 30% em 2005, antes da crise global. O indicador está agora em 25%.

Além disso, o endividamento das famílias aumentou de maneira acelerada entre 2008 e 2011, quando saltou de 31% para 54% da renda disponível, um patamar "extremamente elevado" para países com semelhante estágio de desenvolvimento.

"É pouco provável que o setor de construção residencial continue a ser o principal motor de crescimento da China", disse Lardy. Como há várias linhas de transmissão entre o investimento em casas e outros setores da economia, isso deverá provocar uma substancial desaceleração da expansão do PIB, previu.

Distorções. Analistas do banco UBS estimam que 40% da demanda chinesa de aço está relacionada à atividade de construção residencial, que também influencia o consumo de outros insumos como cimento e cobre.

Até a compra de carros sofre reflexo do investimento, uma vez que muitos empreendimentos são realizados na periferia das cidades, o que exige locomoção dos moradores.

Lardy sustenta que o boom que manteve guindastes ocupados em todo a China, alimentando a demanda por aço - e por tabela, a de minério de ferro - é resultado de distorções financeiras que criaram uma demanda artificial por imóveis residenciais, transformados na principal opção de investimento das famílias que acumularam cada vez mais poupança a partir de 2003.

Segundo o economista, há diferenças entre o padrão de crescimento adotado entre 1997 a 2003 e de 2004 a 2011. O segundo período viu o que ele chama de "repressão financeira", com taxas negativas de juros sobre depósitos, aumento da poupança, redução do consumo e canalização da poupança das famílias para a compra de imóveis.

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