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Fronteira agrícola teme queda de preços

Agricultores recém-chegados ao NorteAraguaia podem ter prejuízo na 1ª safra

JOSETTE GOULART , ENVIADA ESPECIAL / CONFRESA, E PORTO ALEGRE DO NORTE (MT), O Estado de S.Paulo

14 de setembro de 2014 | 02h05

Para os produtores, a queda no preço internacional de produtos agrícolas trouxe um risco financeiro. A conta para produzir simplesmente não fecha. Os custos subiram e a valorização do dólar não está sendo suficiente para equilibrar as receitas. No Norte Araguaia, em Mato Grosso, uma das novas fronteiras agrícolas do País, os armazéns estão abarrotados de milho. Amanhã, os produtores começam o plantio da soja sem saber se vão conseguir pagar o custo da safra que estão plantando. A maioria está à espera de alguma notícia de quebra de safra que possa alterar a trajetória dos preços.

O Norte Araguaia, região distante e de difícil acesso, recebeu dezenas de agricultores nos últimos três anos, que investiram pesado para abrir 430 mil hectares de plantação. Se em anos anteriores, até setembro, quase metade da produção de soja já estava vendida, neste ano sequer 10% foram comercializados.

Por ser uma região nova no plantio, os custos de produção são maiores. Incluem o investimento inicial com máquinas e terras. A queda nos preços agrícolas é especialmente nociva para quem recorreu a financiamentos e tem parcelas do crédito vencendo nos próximos meses. Os grandes produtores, que normalmente usam recursos próprios, conseguem minimizar as perdas. Os pequenos, no entanto, não têm alternativas para contornar o baque de uma safra frustrada.

Segundo Paulo Borges, que tem uma fazenda na região, um produtor de soja pode ter até 20% de retorno no negócio em um período de dez anos, mesmo que tenha perdas em alguns anos. "Este é o negócio com a menor barreira de entrada que existe. Qualquer um pode comprar terras e começar a plantar", diz Borges. Qualquer um, porém, é modo de dizer. Para plantar em 500 hectares, considerado uma pequena propriedade no Mato Grosso, é preciso ter pelo menos R$ 2 milhões.

Com tanto dinheiro aplicado nos últimos anos, a expectativa para a nova safra não é das melhores e o clima entre os agricultores da região é de apreensão. Os produtores dos Estados Unidos começaram a colher seus grãos e devem registrar uma supersafra. Isso tem feito os preços na Bolsa de Chicago, que balizam toda a venda de soja no mundo, despencarem. A cotação do bushel (unidade de medida dos grãos no mercado americano) chegou nesta semana a US$ 10, o menor patamar dos últimos quatro anos.

O consultor Paulo Molinari, da Safras & Mercado, diz que já há quem estime que a queda vai se acentuar e que o preço pode chegar a US$ 8 por bushel. Caso a previsão se concretize, será uma queda de 20%, que afetaria em toda a cadeia global de produção.

No Brasil, os preços costumam ser definidos em saca de soja e variam em razão não só dos preços internacionais como também em função do dólar, Para os produtores do Norte Araguaia, as grandes comercializadoras internacionais de graças ofereciam na semana passada valores que variavam entre R$ 40 e R$ 45 por saca.

O que dezenas de produtores da região entrevistados pelo Estado dizem é que esses valores não pagam o custo da produção. Poucos são os que aproveitaram os preços de julho para vender antecipadamente a soja. Naquele mês foi possível negociar a saca por até R$ 60 a saca.

Investimento. Como nos últimos quatro anos houve quebra de safra nos Estados Unidos, os preços da soja tiveram altas históricas nesse período e incentivaram os produtores a fazer grandes investimentos em novas áreas, como a cidades de Confresa. Os donos de terra começaram a trocar o boi pela soja ou a fazer a integração das áreas. Em apenas três anos, a área plantada triplicou nesse região. Os preços para compra de terras inflacionaram, a mão de obra ficou escassa, apesar de a população praticamente ter dobrado.

Agora a queda nos preços dos grãos já afeta o comércio local e provoca uma freada na economia. Um dos donos da Agrícola Roncador, representante da marca Agrale, Sirlândio Guimarães, que vende tratores e equipamentos agrícolas, diz que as vendas caíram 50% em comparação com o ano passado.

"Fiz uma pequena experiência na safra passada plantando arroz para preparar o solo para a soja neste ano", diz o pecuarista Bertier da Silva Filho. "Mas até agora não me animei em plantar soja."

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