Fronteiras da ilusão

Uma onda de otimismo vem ganhando corpo na economia brasileira. Mesmo em meio às incertezas econômicas globais, notadamente depois do Brexit, reafirmadas na reunião do G-20, neste fim de semana, na China, começam a se disseminar avaliações de que, no Brasil, o pior da recessão já passou e uma retomada razoavelmente vigorosa do crescimento aponta na linha de um horizonte não tão distante.

José Paulo Kupfer, O Estado de S.Paulo

26 Julho 2016 | 05h00

São pelo menos dois os movimentos que alimentam essa expectativa. O primeiro tem origem na noção, muitas vezes historicamente confirmada, de que os mercados financeiros antecipam as mudanças de direção na economia real. A Bolsa de Valores, sem dúvida, registra sucessivas altas desde o início do ano, assim como a taxa de câmbio apresenta persistente tendência de valorização.

O outro ponto de incentivo ao otimismo deriva de uma bem-sucedida estratégia empreendida pelo governo, que consiste em anunciar intenções e políticas em sintonia com os desejos de setores empresariais e do mercado financeiro, deixando as medidas concretas, eventualmente impopulares, para serem conferidas depois da votação do impeachment da presidente afastada Dilma Rousseff e do fim da interinidade do presidente em exercício Michel Temer. Completa o quadro favorável a uma visão mais cor de rosa do futuro da economia a esperança de um retorno à normalidade da rotina parlamentar, depois da eleição de um político “tradicional” e aliado, caso de Rodrigo Maia (DEM-RJ), para a presidência da Câmara dos Deputados.

Há, contudo, riscos de que um excesso de otimismo alcance as fronteiras da ilusão, sobretudo naquelas análises que antecipam uma recuperação mais rápida da economia. Se, de fato, são visíveis os sinais de que a atividade econômica está batendo no fundo do poço, não são menos consistentes as evidências de que a já previsível retomada deve se dar de forma mais gradual e menos pronunciada. Quanto ao desempenho dos mercados de ativos, seria recomendável descontar os efeitos acidentais da inundação de liquidez, com características patológicas, que volta a assolar a economia global e deságua em mercados emergentes com juros atraentes e ativos desvalorizados.

Analistas de conjuntura de grande prestígio, como o economista Affonso Celso Pastore e os responsáveis pelo Boletim Macro, publicado pelo Instituto Brasileiro de Economia (Ibre-FGV), entre outros, sustentam essa perspectiva não tão risonha. Eles alegam, por exemplo, que, dessa vez, o consumo das famílias, que responde por quase dois terços do Produto Interno Bruto (PIB), não desempenhará o papel de motor da retomada, diferentemente do que ocorreu em 2010, na saída da recessão de 2008/2009. Ao lado do endividamento familiar ainda não equacionado, a taxa de desemprego, ao manter perspectivas de elevação, nos próximos meses, mesmo com a economia deixando de piorar, operará como fator inibidor das compras e do impulso da economia.

Também o investimento em capital fixo apresenta restrições a uma expansão acima da curva. Fora o que possa ser obtido com novas obras de infraestrutura, sua contribuição mais imediata para empurrar a economia ladeira acima tende a ser lateral. As decisões de novos investimentos esbarram tanto na deteriorada situação financeira das empresas e em suas margens de lucro ainda comprimidas quanto na necessidade natural de ocupar a capacidade ociosa existente antes da injeção de recursos na expansão dos negócios.

Setor externo e consumo do governo, os demais componentes da demanda agregada, não devem, igualmente, fazer diferença. Uma suposta expansão desse último contrariaria o esforço de contenção dos gastos públicos prometido pelo governo em exercício e, no que diz respeito às exportações líquidas, diante da tendência de valorização do real ante o dólar, sua contribuição ao PIB, pelo menos até que algum tipo de competitividade mais estrutural seja alcançada, igualmente tende a ser ainda mais complementar.

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