Felipe Rau/Estadão - 18/7/2014
Envelhecimento da frota de veículos no Brasil tem como principal motivo a pandemia de covid-19 Felipe Rau/Estadão - 18/7/2014

Frota brasileira é a mais velha dos últimos 25 anos

Pesquisa mostra que a idade média dos veículos que circulam por ruas e rodovias do País voltou a superar o patamar de dez anos

Cleide Silva, O Estado de S.Paulo

21 de março de 2021 | 05h00

A idade média dos automóveis conduzidos pelos brasileiros passou de uma década, atingindo 10,2 anos. Significa que a frota em circulação no País retrocedeu 25 anos em tempo de uso. Quanto mais velhos, maior chance de se envolverem em acidentes e de emitir mais poluição se não forem bem cuidados.

O envelhecimento tem a ver com o “pífio” crescimento da frota de automóveis no ano passado por causa da crise sanitária, explica Elias Mufarej. Ele é diretor do Sindicato Nacional da Indústria de Componentes para Veículos Automotores (Sindipeças), entidade responsável pelo estudo que é atualizado anualmente.

Segundo ele, se diminui a entrada de modelos novos no mercado, a idade média da frota aumenta. A pandemia do coronavírus levou a uma queda de 28,6% nas vendas de automóveis novos no ano passado. Descontando-se a taxa de mortalidade (carros com perda total ou desmanches), o total de carros em circulação soma 38,1 milhões de unidades, aumento de apenas 0,5% em relação a 2019.

É o menor porcentual de crescimento desde o início dos anos 2000, quando o Sindipeças começou a publicar esse indicador no relatório sobre a frota brasileira. “Carros mais velhos têm maior possibilidade de apresentar defeitos e provocar acidentes, lentidão no trânsito e emitir mais poluentes se não forem feitas as manutenções corretas”, confirma Mufarej.

Em 1995, a idade média dos automóveis bateu em 10,3 anos. Desde então, seguiram-se 18 anos de rejuvenescimento, chegando a 8,6 anos em 2013. A trajetória de renovação foi interrompida na crise econômica de 2014 e seguiu até o ano passado, mesmo com a pandemia derrubando as vendas. Fábricas e revendas ficaram fechadas no período mais crítico de contaminações. O consumidor se retraiu diante do aumento do desemprego e das incertezas para o futuro. 

O músico e professor José Ivo Silva, de 60 anos, planejava trocar seu Hyundai HB20 2015 em meados do ano passado por um modelo zero quilômetro. Morador da capital paulista, ele e a esposa – que é microempresária – utilizam o carro com frequência para trabalho e lazer, mas ficaram com receio de usar o dinheiro poupado para o carro novo num momento de incertezas.

“O número de alunos diminuiu, assim como o de clientes da minha esposa, então decidimos deixar a compra para meados deste não”, diz Silva. “Mas agora não sabemos se será possível, pois está batendo a insegurança novamente.”

Já a consultora de cosméticos Michele Capua, de 43 anos, viu o desejo de ter um BMW se desfazer em razão da alta dos preços. Ela e o marido tinham escolhido o modelo no início do ano passado, mas veio a pandemia e decidiram esperar. “Recentemente, voltamos à loja e o preço está quase o dobro de antes, em razão da alta do dólar, então vamos continuar com o carro atual mesmo”, diz.

Sexta maior

Um ano antes da crise de 2014, a participação na frota dos automóveis com até três anos de uso, considerados seminovos, era de 27%, número que caiu para 15% em 2020. A fatia daqueles com mais de dez anos passou de 35% para 44%, enquanto a dos intermediários, com quatro a dez anos, subiu de 38% para 41% do total em circulação.

A frota total, incluindo comerciais leves, caminhões e ônibus, soma 46,2 milhões de veículos, alta de apenas 0,7% em relação a 2019 e também o menor crescimento da série. Ainda assim, é a sexta maior entre todos os países, atrás de EUA, China, Japão, Rússia e Alemanha. A idade média do total de veículos que rodam pelo País é de 10 anos.

Mufarej lembra que o envelhecimento da frota circulante, por outro lado, permite melhor desempenho do mercado de reposição de peças. O estudo tem o objetivo de subsidiar fabricantes de autopeças, pois, sabendo a quantidade e a idade média dos veículos, facilita programar a produção para o ano.

Total de motos em circulação cai há 4 anos

O Brasil encerrou 2020 com 12,9 milhões de motocicletas em circulação, número que representa 222,1 mil veículos de duas rodas a menos em comparação ao ano anterior.

Houve falta de produtos no mercado no ano passado em razão da grave situação sanitária em Manaus por causa da pandemia do coronavírus, que castigou bastante a cidade, a população e o Polo Industrial onde estão as maiores fabricantes do País – Honda, Yamaha e outras marcas, inclusive de modelos de luxo como BMW.

A frota de motos, no entanto, vem caindo desde 2016, depois de atingir 13,6 milhões de unidades um ano antes. 

Já a idade média dos veículos de duas rodas tem aumentado, assim como a dos automóveis. Há uma década, era de 4,1 anos e, atualmente, chega ao dobro: 8,4 anos. 

Há seis anos, 30,6% do todas as motos que rodavam pelo País tinham idade média de até três anos. Atualmente, são apenas 20,1% nessa faixa. Modelos com quatro a dez anos de uso representavam 56% da frota, participação que em 2020 cai para 47,3%.

Já as motocicletas mais velhinhas, com 11 a 20 anos, saltaram de 14,4% do total em circulação, em 2014, para 32,5% no ano passado. A crise sanitária, portanto, afetou todos os segmentos de veículos, das motos populares até o carros de luxo. 

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Indústria aposta em maior vacinação para reativar negócios

Previsão é de melhora do mercado este ano, mas pandemia e falta de componentes ainda são fatores de vulnerabilidade

Cleide Silva, O Estado de S. Paulo

21 de março de 2021 | 05h00

A expectativa dos fabricantes de veículos e de autopeças é de que este ano seja melhor em vendas do que em 2020, mas, segundo o diretor do Sindipeças, Elias Mufarej, vai depender de variáveis como tempo de restrição de circulação nas cidades para tentar frear a covid-19, assim como do fechamento de concessionárias e de fábricas, que já está ocorrendo.

Na sexta-feira, a Volkswagen anunciou que suspenderá a produção em suas quatro fábricas no País por 12 dias a partir de quarta-feira para ajudar no combate à pandemia. 

“O mercado de veículos depende de renda, emprego e confiança dos consumidores; sem isso, é difícil ter demanda”, afirma ele. Foram esses fatores que levaram à retração do mercado no ano passado. A produção caiu quase 32% e teve o pior resultado dos últimos 16 anos, com 2 milhões de unidades. 

Além da questão sanitária, a prorrogação da atual falta de peças para a produção – causada pela pandemia no ano passado – é outro fator de vulnerabilidade para o setor. General Motors e Honda já interromperam a produção neste ano em razão da escassez principalmente de semicondutores.

Para Mufarej, contudo, se a situação sanitária melhorar, com mais pessoas vacinadas, o ambiente econômico vai reagir e, consequentemente, o mercado automotivo.

Outro dado que ajuda a prever uma demanda maior – que pode ajudar na redução da idade média da frota de carros – é o número de habitantes por veículo no País, hoje de 4,6. Apesar de estar em queda há vários anos, essa relação ainda é a quarta maior entre 20 nações pesquisadas pela Organização Internacional dos Construtores de Automóveis (Oica).

A relação entre a população total do Brasil e a quantidade de carros da frota é a mesma de 2019, mas bem inferior a de uma década atrás, que era de 6,1. Acima do País, estão Indonésia (11,5), China (8,4) e Turquia (5,1). A menor relação continua sendo a dos EUA, com 1,2 habitante por carro em circulação

Caminhões. A frota de caminhões, que sempre foi mais velha que a de automóveis, atingiu em 2020 idade média de 11,7 anos, voltando aos níveis de 15 anos atrás. O segmento teve sequência de 16 anos de rejuvenescimento e chegou aos 9,7 anos em 2013. Após a crise de 2014, a idade média só aumentou.

O presidente da Bright Consulting, Paulo Cardamone, reforça que veículos antigos, sem boa manutenção, aumentam o número de acidentes e de mortes principalmente nas estradas. Com isso, gastos do governo nas áreas de saúde e infraestrutura são maiores.

Há pelo menos 17 anos o setor de transporte discute com o governo federal um programa de renovação da frota, que começaria pelos caminhões. A ideia era subsidiar a troca de veículos antigos por mais novos.

‘Agora vai’

Na semana passada, em eventos online em que participou para debater o futuro da indústria automobilística, Margarete Gandini, responsável por temas relacionados ao setor na Secretaria de Desenvolvimento da Indústria, Comércio, Serviços e Inovação do Ministério da Economia, disse que “acho que agora vai”.

Ela informou que no fim do ano deve ser lançado um programa piloto para renovação dos caminhões com mais de 30 anos. Há 15,5 mil veículos nessa faixa. Margarete adiantou que não será um programa baseado em subsídios, mas em “princípios de mercado”, o que foi entendido pelo setor como facilidades em obter crédito.

Para Mufarej, é necessário o início da aplicação de soluções que possibilitem ao menos a troca gradativa de um caminhão velho por outro menos velho “para ir eliminando riscos que uma frota antiga carrega”.

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