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Frustração da reforma da Previdência neste ano poderia levar dólar a R$ 4,10, diz pesquisador

Para Samuel Pessoa, do Ibre/FGV, esse é um dos motivos pelos quais o quadro não seria favorável para um novo ciclo de baixa na taxa básica de juros; projeção do instituto para o PIB em 2019 diminuiu para crescimento de 2,1%

Vinicius Neder, O Estado de S.Paulo

11 de março de 2019 | 18h16
Atualizado 11 de março de 2019 | 19h47

RIO – Uma frustração na tramitação da reforma da Previdência ao longo deste ano poderia levar a cotação do dólar para R$ 4,10, com reflexos na inflação, afirmou nesta segunda-feira, 11, Samuel Pessoa, pesquisador sênior associado do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV). Para Pessoa, esse é um dos motivos pelos quais o quadro não seria favorável para um novo ciclo de baixa na taxa básica de juros (Selic, hoje em 6,5% ao ano).

“Se a gente não conseguir tirar o bode da sala da reforma da Previdência, que é o grande desequilíbrio que a gente tem, não dá para baixar juros”, afirmou Pessoa, em palestra durante o I Seminário de Análise Conjuntural 2019, no Rio.

Pessoa sustentou a perspectiva de desvalorização da taxa de câmbio, no caso de não aprovação da reforma da Previdência pelo Congresso Nacional, na trajetória da cotação do dólar no ano passado. O ano de 2018 começou com o dólar na casa de R$ 3,20, chegou a um pico em torno de R$ 4,10 e recuou, no fim do ano, para a casa dos R$ 3,80.

Segundo Pessoa, estudos do Ibre/FGV para separar efeitos domésticos de efeitos internacionais na trajetória da taxa de câmbio apontam que, enquanto o movimento de desvalorização do real, até pouco depois da metade de 2018, deveu-se, principalmente, ao setor externo, o ajuste para baixo no segundo semestre teve “uma componente doméstica não trivial”, que foi a precificação, por parte de operadores do mercado, de eventual aprovação da reforma da Previdência.

“Uma frustração para a tramitação da reforma da previdência este ano poderá jogar o câmbio para 4,10, com impacto na inflação”, disse Pessoa.

Mais cedo no seminário no Rio, José Júlio Senna, chefe do Centro de Estudos Monetários do Ibre/FGV, já havia defendido a posição de que não há espaço para novo ciclo de baixa da Selic. Senna lembrou que o próprio Banco Central (BC) já citou o risco de frustração das reformas como um elemento desfavorável para o cenário de inflação. Além disso, destacou o pesquisador, o risco de frustração de reformas tende a durar muito tempo.

“O BC tem que manter a transparência em suas ações. Se falhar nisso, pode desancorar as expectativas de inflação. E baixar os juros vai ajudar pouco (a atividade)”, afirmou Senna, lembrando que apesar da grande redução na Selic ao longo do último ciclo de baixa, a atividade econômica não ganhou dinamismo.

PIB

A projeção de crescimento econômico de 2,1% neste ano ante 2018, atualizada pelo Ibre/FGV, embute um cenário otimista para a atividade, segundo Silvia Matos, coordenadora do Boletim Macro. O instituto anunciou suas projeções para este ano, rebaixando a estimativa de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) de 2019 ante 2018 de 2,4% para 2,1%.

Segundo Silvia, o principal motivo da revisão foi estatístico. Com a divulgação, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), do dado fechado do PIB de 2018, a "herança estatística" para o crescimento da atividade deste ano ficou menor.

"Essa projeção de 2,1% é relativamente otimista", disse Silvia, após o I Seminário de Análise Conjuntural 2019, no Rio, durante o qual as projeções foram anunciadas publicamente. "A demora na aprovação da reforma da Previdência cria um risco de frustração", completou a economista.

O "risco de frustração" com a aprovação da reforma da Previdência inclui tanto o tempo gasto na tramitação quanto o impacto fiscal do ajuste nas regras previdenciárias, explicou Silvia. O cenário de crescimento econômico de 2,1% considera a aprovação da reforma pelo Congresso Nacional no terceiro trimestre deste ano. 

De acordo com Silvia, uma "desidratação" do impacto fiscal da reforma teria mais efeitos negativos sobre a atividade econômica do que o adiamento da aprovação para o quarto trimestre, desde que a economia gerada aos cofres públicos fique acima do cerca de R$ 1 trilhão em dez anos da proposta original.

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