Frustrações olímpicas

A “Olimpíada das Olimpíadas”. Faltam apenas dois meses, dois meses para a abertura dos jogos Rio 2016. A poucas semanas do evento portentoso, evento que chamará a atenção de todo o mundo para as nossas belezas e mazelas, encantos e amarguras, pouco se diz sobre qual será o legado da “Olimpíada das Olimpíadas”. Menos ainda é dito sobre fato de estarmos tão próximos do maior evento esportivo internacional.

Monica de Bolle*, O Estado de S.Paulo

08 Junho 2016 | 05h00

Quebrando o silêncio que impera nos meios de comunicação nacional sobre os Jogos Olímpicos, afogados em meio aos escândalos e à crise econômica, o Estadão publicou matéria recente sobre decisão do COI, o Comitê Olímpico Internacional. O COI decidiu recentemente adiantar parte dos US$ 1,5 bilhão que viriam em agosto para ajudar a cobrir os gastos da cidade maravilhosa com o evento. Disse Thomas Bach, presidente do COI, que a decisão fora um “gesto de solidariedade”, maneira elegante de reconhecer o estado lastimável das contas públicas do Estado e do município do Rio de Janeiro. Forma gentil de alertar para o fato de que há muitos ingressos que ainda não foram vendidos – é possível, vejam só, encontrar ingressos para a final olímpica do futebol –, além de novos patrocinadores que não foram encontrados. A penúria dos orçamentos do Comitê Organizador, da Autoridade Pública Olímpica, não foi citada diretamente pelo cortês dirigente do COI.

Qual o impacto da Olimpíada para a cidade do Rio de Janeiro, para o País? Há literatura vasta sobre o tema, muitos artigos acadêmicos que tentam destrinchar as verdades escondidas por detrás do “glamour” dos jogos, da propaganda, das palavras dos governantes. O que todo esse trabalho mostra é que as razões que levam um País, uma cidade, a pleitear o título de anfitriã da Olimpíada têm pouca ou nenhuma relação com argumentos econômicos. Estudo recente de autoria dos economistas Robert Baade e Victor Matheson publicado na última edição do Journal of Economic Perspectives diz, com clareza: “A conclusão contundente é que, na maioria dos casos, as Olimpíadas geram perdas expressivas para as cidades anfitriãs. Sobretudo quando essas cidades pertencem aos países menos desenvolvidos”.

Pensemos no caso do Rio de Janeiro, município cujo déficit como proporção das despesas correntes líquidas alcançou exorbitantes 17% ao final de 2015. Estudo comissionado pelo Ministério dos Esportes e preparado pela USP diz que, para cada US$ 1 de investimento, o País terá retorno de US$ 3,3 até 2027, que o impacto sobre o PIB do País poderá alcançar a extraordinária cifra de 2% do PIB, que cerca de 120 mil empregos serão criados, anualmente, até 2027. Recorrendo à evidência internacional, Baade e Matheson (2016) afirmam que uma boa regra de bolso para avaliar o real impacto da Olimpíada sobre a economia é pegar o que dizem governos e organizadores e mover tudo uma casa decimal para a esquerda. Se fizermos isso com o ganho de 2% do PIB estimado pela USP, concluímos que o melhor que se pode esperar é ganho de 0,2% do PIB, número que não chegaria a pódio algum.

Originalmente, a Olimpíada estava orçada em US$ 13,7 bilhões, montante reduzido para US$ 11 bilhões quando o governo federal, responsável por mais de dois terços das obras de infraestrutura para os jogos, percebeu que não conseguiria dar conta do recado em meio à recessão e aos imensos problemas do País. Ainda não será desta vez que o metrô do Rio será concluído. A quantia de US$ 11 bilhões representa, ao câmbio de hoje, cerca de 0,6% do PIB brasileiro. Contudo, dizem Baade e Matheson, geralmente os custos excedem em 150% aqueles anunciados pelo governo. Acreditando nos economistas, somei. Cheguei a um custo final de US$ 16 bilhões, ou cerca de 0,9% do PIB brasileiro. Se subtrairmos do ganho esperado de 0,2% do PIB os custos de 0,9%, a Olimpíada haverá de deixar-nos prejuízo de 0,7% do PIB, ou uns R$ 42 bilhões. Mais perdas em País cujas contas estão mergulhadas em território profundamente vermelho. 

Chegamos, portanto, à devastadora conclusão. A Olímpiada das Olimpíadas trará o prejuízo dos prejuízos. Mais uma para a conta de D. Rousseff.

*Economista, pesquisadora do Peterson Institute for Internacional Economics e professora da Sais/Johns Hopkins University

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