'Frutos virão na segunda década da concessão'

Odebrecht Transport estima que o número de passageiros no Galeão pode ir a 80 milhões e elevar a receita comercial

Entrevista com

ALEXA SALOMÃO, O Estado de S.Paulo

23 de novembro de 2013 | 02h12

Segundo Paulo Cesena, diretor-presidente da Odebrecht Transport, o valor pago pelo Galeão será compensado pelo crescimento do aeroporto, que deverá ser acima do previsto pelo governo.

O Galeão é tão estratégico assim para vocês pagarem um valor considerado tão agressivo? Dizem que foi a taxa necessária para entrar no setor aéreo.

Não fazemos essa conta. Nossa conta levou em consideração a capacidade de geração de faturamento de um aeroporto que pode crescer na segunda maior região metropolitana do Brasil e também que contamos com uma Changi, que tem experiência em países emergentes. O preço foi apenas 30% superior ao do segundo colocado. Não sei qual a qualidade dos outros estudos, mas o nosso foi muito aprofundado. O governo diz que o Galeão sai do atual patamar de 18 milhões de passageiros por ano para 60 milhões. Nós achamos que vai a mais do que isso.

Mais quanto?

Nossa estimativa é de que pode chegar a 80 milhões de passageiros. Quais são os gargalos que poderiam impedir que ele chegue a esse patamar? Nenhum. A gente que estuda os vários aeroportos no Brasil sabe que há uma série deles com limitações para crescer. Falta espaço porque as cidades foram crescendo e chegaram até eles. Ao passo que o Galeão, lá na Ilha do Governador, está em um espaço extremamente privilegiado, tem condições enormes de crescer. A outra coisa que fez diferença foi a visão da Changi em relação ao potencial das receitas comerciais. Hoje são apenas 10 m² para a exploração comercial. Nós acreditamos que a área comercial pode ir a 60 mil m² até o final da concessão.

O que vocês viram que pode ser incluído no Galeão que os concorrentes não viram?

Fizemos correlações com o hábito de consumo dos passageiros brasileiros e dos internacionais, em cima da experiência dos vários aeroportos que ela opera, principalmente em países emergentes, onde a classe média consome cada vez mais.

Vocês vão ter de investir R$ 1 bilhão para cada ano de concessão. Em quanto tempo esperam ter retorno desse investimento?

Não tenha dúvida de que o investimento nesse aeroporto, como todos em infraestrutura, é de longo prazo. Tanto a Changi, quanto a Odebrecht são investidores com tradição de visão de longo prazo. Se você tem uma concessão de 25 anos, é natural que os primeiros 10 anos sejam de investimentos. É apenas na segunda década da concessão que se começa a colher os frutos. Olhe para trás e veja o quanto a demanda cresceu nos aeroportos brasileiros de 2003 a 2013.

De onde virão os recursos?

Nosso consórcio é 60% Odebrecht e 40% Changi. O aporte virá dos dois acionistas, que tem uma solidez financeira muito boa. A Changi, inclusive, pertence ao governo. As obras serão financiadas pelo BNDES, como foi definido para todos os participantes.

Vocês vão usar o teto de 70% do financiamento do BNDES?

Sim. E a outorga é paga ao longo de 25 anos, com a geração de caixa da própria operação. Enquanto o caixa não for suficiente para pagar a outorga, os acionistas cobrem. Como temos uma visão de longo prazo, entendemos que é preciso fazer esse suporte nos primeiros anos, período que o aeroporto precisa para decolar.

Os privados têm 51% da concessão e a Infraero, 49%? O investimento é proporcional

Sim, são proporcionais à participação de cada um.

Vocês vão entrar em novas concessões?

Temos interesse em todas que se mostrem atraentes. Estamos em concessões de rodovias, de mobilidade urbana, de portos e agora, aeroportos, o que completa o conjunto de quatro segmentos.

A Odebrecht tem uma dívida alta. Haverá algum impacto sobre a dívida do grupo?

Não. Vale aqui o conceito de Project Finance. Entramos em projetos com geração de caixa assegurada e será a geração de caixa que vai remunerar o endividamento. Assumiremos em agosto um aeroporto com 18 milhões de passageiros e a dívida vai ser suprida por esse empreendo.

Que desafios vocês esperam encontrar na obra?

As questões socioambientais não são desafios imediatos. Vão demandar ações na próxima década, existem soluções de engenharia para minimizar os impactos e não tenha dúvida de que vamos ser transparentes e dialogar com as comunidades. O grande desafio agora é atender a exigência dos passageiros, que, com toda razão, querem ver melhorias na qualidade da prestação dos serviços. Nosso primeiro foco será atendê-los. O segundo foco é fazer rapidamente as obras que vão atender a Olimpíada.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.