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E-Investidor: como a queda do PIB afeta o mercado financeiro

Fuga de capital dos Piigs supera R$ 1 tri

Em um ano, Portugal, Irlanda, Itália, Grécia e Espanha enfrentam retiradas de altas somas dos bancos que preocupam toda a Europa

JAMIL CHADE , CORRESPONDENTE / GENEBRA, O Estado de S.Paulo

17 de junho de 2012 | 03h07

A crise nos países do sul da Europa já faz mais de R$ 1 trilhão abandonar os bancos em um ano, para locais mais seguros, e deixa as economias da periferia do bloco ainda mais vulneráveis a um novo choque que as eleições gregas poderiam causar.

Há alguns anos, o economista-chefe do Goldman Sachs, Jim O' Neill, criou a sigla Brics para se referir aos países emergentes, como Brasil, Rússia, Índia e China. O grupo saiu do papel e se transformou numa realidade política. Agora, é outra sigla que se transforma em realidade, ainda que desta vez em forma de pesadelo na Europa, os Piigs.

Há dois anos, a utilização do termo para qualificar os países do sul da Europa em dificuldade causou polêmica no continente. O mercado financeiro e mesmo alguns jornais passaram a se referir às economias altamente endividadas como Piigs - referência à primeira letra de cada um dos países: Portugal, Itália, Irlanda, Grécia e Espanha (Spain, em inglês). A sigla assemelha-se à palavra "pigs" - porcos, em inglês.

Sua utilização quase causou uma crise diplomática, com os países afetados acusando o incidente de escancarar os preconceitos latentes no continente. Dois anos depois, porém, a sigla parece se confirmar. Uma por uma, suas letras foram "resgatadas", faltando apenas a Itália.

Seja qual for a sopa de letras, a realidade é que os países que formam a sigla são hoje o maior pesadelo da história do euro. A crise que começou na Grécia se espalhou para Portugal e Irlanda, desembarcou na Espanha e ameaça a Itália. Juntos, esses países já consumiram quase 500 bilhões em resgates, tanto de Bruxelas e do FMI quanto das intervenções do BCE na compra de títulos da dívida.

Nesse período, todos os governos dos cinco países foram derrubados ou humilhados nas urnas. A recessão se aprofundou, o desemprego bateu recorde e milhares de jovens portugueses, espanhóis, gregos e irlandeses já buscam a sorte fora de seus países.

O motivo de tanta preocupação é um só: se Grécia, Espanha e Portugal são mesmo parte da periferia do bloco, Espanha e Itália são respectivamente a quarta e terceira maiores economias da zona do euro. Os bancos internacionais têm exposição de US$ 3,8 trilhões nas economias mais endividadas da Europa, segundo o Banco de Compensações Internacionais (BIS). Só os bancos alemães detêm US$ 701 bilhões em papéis das dívidas dos cinco países mais endividados da Europa.

Mas a turbulência não dá sinais de acabar. Bilhões de euros deixaram os cofres dos bancos desses países. Muitas dessas instituições já viviam em situação de fragilidade. Com a fuga de capital, o rombo e a necessidade de resgate ficam ainda mais claros.

Na Espanha, 67 bilhões deixaram os bancos apenas em março. No primeiro trimestre, a sangria chegou a 97 bilhões. Nos últimos nove meses, atingiu 200 bilhões. Na Itália, a fuga de capital chegou ao fim de março em 240 bilhões, ante o mesmo período do ano passado, segundo dados do BC italiano.

Desde que a crise eclodiu na Grécia no fim de 2009, correntistas e investidores já retiraram 72 bilhões. Em Portugal, o auge da crise nos bancos foi em meados do ano passado. Entre janeiro e outubro, 11 bilhões deixaram o país.

É por essa razão que a Comissão Europeia já estuda medidas de controle de capital e até limites de saques. "A crise financeira ameaça ainda se aprofundar, com implicações reais para a vulnerabilidade de países inteiros", alertou Fred Tanner, diretor do Centro de Políticas de Segurança, em Genebra.

Enquanto a fuga assusta no sul, é para a Alemanha que pelo menos parte do dinheiro se dirige. No fim de abril, os depósitos em bancos alemães cresceram 4,4% ante o mesmo período de 2011, para um total de 2,1 trilhões. E dados do BCE indicam que os depósitos em bancos da Grécia, Espanha e Irlanda sofreram contração de 6,5%. Em Atenas, a queda foi de 16%.

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