Ygit Cicekci/ Reuters
Ygit Cicekci/ Reuters

Funcionário falsificou registro de jatos usados em fuga de Ghosn, diz empresa

Dona de aeronaves afirma que um só empregado confessou ter eliminado nome do ex-presidente da Nissan de documentos, embora Justiça turca tenha efetuado 5 prisões no caso; segundo mídia japonesa, executivo saiu de casa pela porta da frente

The New York Times

04 de janeiro de 2020 | 05h00

TÓQUIO - Novas pistas sobre como o executivo Carlos Ghosn fugiu do Japão surgiram na sexta, 3, depois que uma empresa turca de locação de aviões afirmou que seus jatos foram usados ilegalmente para levar o plano a cabo. Enquanto isso, a mídia japonesa reportou que as imagens das câmeras da segurança da casa de Ghosn, em Tóquio, mostraram o executivo saindo de casa sozinho, no domingo.

As duas informações pintam um quadro do plano que permitiu que Ghosn voasse da cidade de Osaka, no Japão, a Beirute, no Líbano. Ainda assim, alguns detalhes importantes continuam a ser pouco claro. As autoridades do Japão e da Turquia ainda estão investigando como o executivo conseguiu empreender sua escapada da prisão domiciliar.

Ghosn – que insiste na própria inocência – enfrentava quatro acusações de fraude financeira no Japão e esperava um julgamento que poderia ocorrer em algum momento de 2020. Mas ele decidiu fugir, afirmando que não confiava no sistema legal japonês e temendo não ter direito a um julgamento justo. Ele comandou a aliança Renault-Nissan por quase duas décadas. Foi preso em Tóquio, em novembro de 2018. 

A MNG Jet, empresa de aluguel de aviões, disse que um de seus funcionários falsificou registros para remover o nome de Ghosn da documentação de dois voos – um entre Osaka e Istambul, na Turquia, e outro entre Istambul e Beirute. 

Prisões

A companhia disse que o funcionário confessou ter agido sozinho e sem o conhecimento da direção da MNG. O nome do empregado, porém, não foi divulgado. Apesar disso, as autoridades turcas afirmaram ontem que manteriam pressas por um período mais longo cinco pessoas – na quinta-feira, havia detido sete pessoas para interrogatório.

As informações da mídia sobre o caminho de Ghosn entre o Japão e a Turquia batem com os registros de voo da aeronave Bombardier usada pela MNG, de acordo com o site FlightAware, um serviço de monitoramento de voos. A MNG disse ter feito uma queixa criminal na Turquia e diz esperar que “as pessoas que usaram ilegalmente ou facilitaram o uso (das aeronaves) sejam processadas de forma exemplar”.

A companhia embarcou ouro para a Venezuela, ajudando nos esforços do governo para levantar dinheiro, de acordo com o banco de investimento Caracas Capital, que acompanha a movimentação de ouro pelo país. Esse movimento da MNG também foi confirmado por sites de monitoramento de voo. “Se você precisa que alguma coisa seja feita, a MNG é a companhia a se escolher”, disse Russ Dallen, sócio-diretor da Caracas Capital. 

Dúvidas

Não está claro como Ghosn, que enfrentava constante vigilância em Tóquio, conseguiu enganar as autoridades e chegar a Osaka, um aeroporto que fica a mais de 400 km de distância da capital. 

No Japão, algumas reportagens afirmaram que Ghosn saiu de casa, em Tóquio, e nunca mais voltou. Os promotores japonesas estão investigando se Ghosn, após deixar sua casa, encontrou-se com o grupo que ajudou em sua fuga para o Líbano. 

Tanto mistério tem alimentado algumas teorias mirabolantes. Pelo menos um jornal do Líbano reportou que Ghosn foi retirado de casa dentro de uma caixa de instrumento musical. O governo libanês afirmou que Ghosn – que é cidadão francês, brasileiro e libanês – chegou ao país de forma legal, usando um passaporte francês. 

Enquanto isso, as autoridades japonesas têm se mantido em silêncio sobre a fuga do mais famoso réu do país. Promotores fizeram buscas na casa do executivo, em Tóquio. A fuga de Ghosn ocorreu durante o fim de semana de ano novo, o mais importante feriado japonês. 

Na quinta-feira, o ministro da Justiça do Líbano, Albert Serhan, disse que o país recebeu um alerta de prisão da Interpol. O governo libanês disse que vai cumprir suas obrigações, mas isso não deve significar a prisão de Ghosn – e sim um convite para depoimento. O Líbano também já adiantou que não vai deportar o executivo.

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