Carla Carniel/Reuters
Carla Carniel/Reuters

Funcionários da Ford fazem manifestação na frente das fábricas e cobram ação do poder público

Em Taubaté, trabalhadores fazem vigília em pátio da montadora e, em Camaçari, caminham até a prefeitura; prefeito de Horizonte espera que outro grupo mantenha produção da marca Troller

Gerson Monteiro, Tailane Muniz e Alexandre Valério, especiais para o Estadão

12 de janeiro de 2021 | 14h29
Atualizado 13 de janeiro de 2021 | 10h00

TAUBATÉ (SP), CAMAÇARI (BA) e HORIZONTE (CE) - Em assembleia na manhã desta terça-feira, 12, um dia após a Ford anunciar o encerramento de suas fábricas no País, os funcionários da planta de Taubaté, no Vale do Paraíba, definiram o início de uma vigília por tempo indeterminado, para impedir a entrada e a saída da fábrica, tanto de pessoas quanto de materiais. Grupos vão se revezar a cada seis horas.

Segundo estimativas do Sindicato dos Metalúrgicos, o fim das atividades da montadora de motores representa um impacto de cerca de 10 mil empregos diretos e indiretos. A unidade emprega 830 trabalhadores diretos e 600 terceirizados. 

Os trabalhadores estavam de licença remunerada quando receberam a notícia do fechamento da fábrica. "Começamos a achar as coisas estranhas, pois na sexta-feira fomos avisados que na segunda não era pra ninguém vir trabalhar", conta Walter Donizeti Antunes, que há 10 anos trabalha na área de cabeçotes.

Prestes a se aposentar, Marques Lauber, que tem 26 anos de empresa, também foi surpreendido pela notícia. "É difícil acreditar, depois de tanto tempo aqui.”

A licença de todos os trabalhadores da Ford em Taubaté vai até sexta, 15. Até o momento, a montadora não se manifestou sobre o acordo trabalhista com os funcionários. Ainda nesta terça está prevista uma reunião entre sindicalistas e o governo do Estado, quando o grupo deve pedir apoio do governador João Doria para tentar minimizar o impacto das demissões.

Representantes da categoria também pedem manifestação do governo federal em prol dos trabalhadores e a criação de um projeto de lei que obrigue a montadora a dividir os lucros, com todos os demitidos, pela venda dos modelos que serão importados pela Ford, de acordo com comunicado da multinacional.

A prefeitura de Taubaté lamentou o fechamento da unidade da Ford na cidade e a dispensa dos funcionários. Em comunicado oficial, prometeu apoio da administração municipal aos trabalhadores.

Na quarta-feira, 13, está prevista um ato dos trabalhadores na Câmara Municipal da cidade. Mobilizações virtuais e presenciais também estão planejadas para os próximos dias.

Manifestação na porta da prefeitura

Na fábrica de Camaçari, Região Metropolitana de Salvador, os trabalhadores se reuniram em assembleia nesta terça, por quatro horas, no estacionamento da unidade, e depois partiram em manifestação até a prefeitura da cidade. Na região, 6 mil empregos diretos e indiretos devem ser fechados.

Procurado, o prefeito Antônio Elinaldo (DEM) afirmou, por meio da assessoria, que todas as secretarias vão trabalhar para reduzir o impacto econômico que deve se estabelecer no município. “Nesse momento quero deixar uma palavra de alento e solidariedade para os trabalhadores da Ford e podem ter a certeza que estaremos de braços abertos para ajudá-los no que for possível.”

Para quarta-feira, os funcionários planejam uma carreata até a governadoria, no Centro Administrativo da Bahia (CAB), em Salvador.

Segundo os trabalhadores, novos robôs e máquinas haviam chegado recentemente à fábrica, o que aumentou a surpresa diante da decisão da montadora de deixar o País. Com o investimento em equipamentos, a última coisa que passou pela cabeça do operador de linhas Tiago Santos, de 31 anos, foi o fechamento da fábrica. “Ficamos e estamos todos muito surpresos. Eles deram folga para a gente por causa de um feriado local, aproveitaram, retiraram os equipamentos. Hoje, deram com a porta em nossa cara”, disse.

Presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de Camaçari, Júlio Bonfim afirmou que a ideia é cobrar “comprometimento do Estado”. “Não podemos aceitar isso assim. Fomos surpreendidos da pior maneira, nós precisamos de respostas.” O grupo, com cerca de 2 mil funcionários, chegou à unidade por volta das 5h30, horário em que o turno é iniciado, e encontrou as portas fechadas.

Os funcionários da fábrica de Camaçari afirmaram que até o momento não foram informados sobre qualquer reunião para acertos de contas e fim dos contratos.

Bahia busca outra montadora

Por meio de nota, o governador da Bahia, Rui Costa (PT), lamentou o encerramento das atividades da Ford no Estado e anunciou a criação de grupo de trabalho, com Federação das Indústrias do Estado da Bahia (Fieb), para atrair outra montadora. "A saída da Ford do Brasil significa milhares de desempregados, sendo cerca de 6 mil demissões somente na Bahia. Significa o aumento da pobreza em nossa nação. Infelizmente, são centenas de indústrias que vão fechando, semana após semana, já que temos um país que não cuida da sua economia, não garante segurança institucional a seus investidores e não faz as reformas necessárias - inclusive a tributária de que tanto precisamos. Ficamos indignados e tristes, pela falta de gestão, de competência e de trabalho, em nosso País. Infelizmente, enquanto uns, dia após dia, só fazem politicagem, nosso País vai perdendo centenas de investidores e postos de trabalho", afirmou o governador.

Rui Costa reforçou que o Estado trabalha para voltar a ter uma representante do segmento instalada no território. "Nós não vamos ficar parados e iremos fazer a nossa parte. Hoje mesmo, já entrei em contato com embaixadas de outros países, especialmente asiáticos, para efetivar o convite para que indústrias automotivas venham visitar nosso parque e conhecer nossa infraestrutura para que possamos atrair o interesse de outros grupos e voltemos a ter, o mais rápido possível, a fabricação de carros na Bahia, garantindo a renda e o emprego para milhares de famílias de baianos e baianos", concluiu.

'Luto e preocupação' no Ceará

O clima é de incerteza entre os 470 funcionários da fábrica da Troller em Horizonte (CE) - o fechamento da unidade está previsto para o quarto trimestre de 2021. Não foi informado o que será feito com o equipamento nem o destino dos trabalhadores. Uma funcionária, que não quis se identificar, disse que o sentimento é de luto e preocupação. 

"Fomos pegos de surpresa, acho que o Brasil inteiro foi pego de surpresa. [A Troller] vinha crescendo, ampliando mercado”, disse o prefeito de Horizonte, Nezinho Farias. "Nossa esperança é que ela vai continuar até o final de 2021 e dá tempo de um grupo comprar a fábrica com a marca Troller e dar continuidade." 

Segundo ele, a fábrica da Troller tem valor sentimental para a região: "É motivo de orgulho para o Estado e para a cidade, uma marca totalmente cearense".

A Troller nasceu em Horizonte, em 1995. Dois anos depois, a empresa foi comprada por Mário Araripe, que investiu na expansão da linha de montagem. Em 2007, a fábrica tornou-se parte da Ford, que concentrou a produção no modelo de jipe T4. 

Na tarde de terça-feira, 12, representantes do Sindicato dos Trabalhadores em Montagens Industriais em Geral no Estado do Ceará (Sitramonti-CE) reuniram-se com funcionários na entrada da empresa para iniciar a discussão sobre um acordo coletivo. 

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