Roosevelt Cassio|Reuters
Roosevelt Cassio|Reuters

Funcionários estão na incerteza sobre futuro dos empregos na Embraer

Apesar de receio de funcionários, sindicato dos engenheiros diz que vetar acordo com Boeing é ‘quase uma utopia’

Gerson Monteiro e Luciana Dyniewicz, especial para O Estado

05 Julho 2018 | 17h53
Atualizado 05 Julho 2018 | 23h26

Nas fábricas da Embraer no interior de São Paulo, houve tanto comemoração como preocupação nesta quinta-feira, 05, após os funcionários receberem o comunicado de que a brasileira e a Boeing haviam assinado um memorando de entendimento para criarem uma nova companhia. “Teve gente eufórica, achando que vai ser transferido para os Estados Unidos. Mas a maior parte está receosa”, disse a engenheira Rozana Nogueira, diretora do sindicato da categoria do Estado de São Paulo (Seesp).

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Segundo ela, a preocupação maior é com a manutenção do polo tecnológico em São José dos Campos, cidade em que fica a maior unidade fabril da companhia. “Vamos continuar como um centro de desenvolvimento de tecnologia ou virar apenas uma montadora?”, questionou.

Rozana lembrou ainda que há apreensão em relação ao que restará de forma independente na Embraer – os segmentos de aviação executiva e de defesa. As duas áreas foram responsáveis por 42% da receita da companhia no ano passado. “A Boeing levou o filé. Como o restante vai sobreviver? É a área de defesa que fomenta pesquisa. Depois, a tecnologia é embarcada na comercial”, acrescenta a engenheira, que trabalha há 19 anos da Embraer.

Ao contrário do que pretende o Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos e Região (leia mais abaixo), o sindicato dos engenheiros não pretendem pedir que o negócio seja vetado, de acordo com Rozana. “Vetar é quase uma utopia. É uma empresa privada. Mas temos preocupação de como a questão vai se desenrolar.” 

 Segundo outros trabalhadores ouvidos pelo Estado, o clima de receio e insegurança nas fábricas vem desde dezembro do ano passado, quando surgiram as primeiras notícias sobre as negociações. 

Há inquietações pessoais, disse Rozana, como em qual companhias cada trabalhador vai ficar – ela mesma exerce funções hoje tanto na área de aviação comercial como na militar – e se aqueles que forem transferidos para a nova companhias serão demitidos para depois serem recontratados. “Não sabemos de muita coisa além do que foi divulgado. Não sabemos como serão as transferências, se haverá demissões, se seremos demitidos e recontratados pela joint venture, são muitas as incertezas”, disse um engenheiro que não quis se identificar.

Um profissional da área de novos projetos da unidade de São José dos Campos disse apenas esperar que a empresa defina o quanto antes seu futuro. “Que agora comece a ficar mais claro, porque existiam muitos boatos que estavam nos consumindo”, desabafou. 

Na visão do comerciante Diego Souza, proprietário de um pequeno mercado de bairro, qualquer mudança na Embraer deixa “todo mundo com a pulga atrás da orelha”. “Ainda não dá pra dizer se isso é bom ou ruim, mas a cada demissão nessas empresas grandes impacta direto na gente que é pequeno”, afirmou ele.

Futuro. Para o empresário Lorival Anderson Éttori, ex-diretor do Departamento de Segurança e Defesa (Comdefesa) da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) e especialista em Economia Brasileira para Negócios da USP, é importante que a transição seja clara e transparente para que os empregados consigam se adaptar ao novo panorama.

De acordo com Éttori, no curto prazo, alguns remanejamentos e cortes de funcionários poderão ser feitos, mas, no longo prazo, com o crescimento da companhia, poderá haver ampliação do quadro de funcionários. “Pode haver contratação em massa, principalmente na região do Vale do Paraíba, que é um grande celeiro de tecnologia, até porque o custo de produção no Brasil é bem menor para o setor do que em outros países”, afirmou.

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