Funcionários reclamam de atraso no pagamento; Varig nega

A Associação dos Pilotos da Varig disse nesta segunda-feira que a empresa tem um atraso de pagamento de três meses com a categoria. O Sindicato dos Aeroviários de São Paulo explicou que a demora varia de dois a três meses, de acordo com a faixa salarial, para os empregados em terra. A companhia aérea, por sua vez, nega ambas as denúncias, explicando que os pagamentos realmente são feitos "em picado" durante o mês, mas que a demora não passa disso. Em meio à polêmica estão os funcionários. Comissário de bordo da Varig há 21 anos, Carlos Ferreira* não paga o condomínio há cinco meses. A escola de seus dois filhos adolescentes está atrasada, e o "pingado de dinheiro", como ele mesmo diz, que caía regularmente na conta, dava apenas para aliviar um pouco o cheque especial ou para fazer uma compra básica de supermercado."Usei até agora toda a reserva que tinha. Ainda não vendi nada, mas sei de colegas que já venderam carro e até apartamento e outros que estão se valendo da ajuda de pais e parentes", explicou o comissário, que pediu para não ser identificado. No caso dele, morador do Rio de Janeiro, o problema é ainda pior, tendo em vista que sustenta a casa junto de sua mulher - também funcionária da companhia aérea.Há dois anos a Varig pagava no começo do mês os salários de quem tinha a receber até R$ 800. Os demais - superiores a esse valor - recebiam parceladamente, normalmente nos dias 8 e 17 de cada mês. Atualmente, segundo o comissário, os funcionários recebem parcelas referentes a abril e maio. A última parcela paga foi de R$ 400 e a próxima, que será feita na terça-feira, será de R$ 300. O comissário explicou que a empresa avisa, por meio de e-mails, quais serão os procedimentos de pagamento.No caso dos comissários, outro problema é enfrentado: o não pagamento de diárias de alimentação. Os que são feitos no Brasil, explicou Ferreira, já não foram depositados em conta corrente em 16 de junho.A questão financeira, porém, não atrapalha no trabalho. "Os funcionários sempre acreditaram na recuperação da empresa, apesar de todos os problemas, tanto é que continuam a trabalhar com dedicação", explicou. Segundo ele, contudo, a insatisfação é generalizada. "Pelas informações que recebi, as associações deverão convocar os funcionários no início da próxima semana uma grande manifestação pelos salários, antes da assembléia de credores e do novo leilão.""Todas as nossas economias para uma aposentadoria um pouco mais tranqüila evaporaram da noite para o dia. E o mais importante: somos credores também, mas diferentemente de BR, Infraero e outras, somos os únicos que não estamos sendo contemplados com pagamentos. Se eles não forem pagos, ameaçam cancelar o fornecimento dos serviços e parar a companhia, porém, nós também podemos parar a companhia, pelo prosaico motivo de que estamos sem dinheiro para ir trabalhar", adicionou. Confirmação A Associação de Pilotos da Varig explicou "entender os problemas enfrentados pela companhia", e não se pronuncia como forma de solidariedade. Em São Paulo, o Sindicato dos Aeroviários, por sua vez, informou que o atraso médio é de dois meses. A situação se agrava com o aumento do salário: há reclamações de pessoas que ganham acima de R$ 3 mil, de até três meses. O presidente do sindicato, Uébio José da Silva, explicou que agora em julho, todos os funcionários receberiam R$ 300 - independentemente do total do salário."Todo mundo tem que fazer do seu jeito. Muita gente pega empréstimo porque acredita em uma melhora da companhia. Os que têm dívida deixaram de estudar, têm ação de despejo", afirmou. Entretanto, conforme Silva, os funcionários aguardam a decisão da Justiça sobre o destino da companhia aérea, sem organizar qualquer tipo de manifestação ou ação trabalhista. "Os funcionários têm feito de tudo para não prejudicar ainda mais a situação da Varig", concluiu."Como funcionário eu tenho fé e esperança que a Varig possa não ter o mesmo fim que tenha a Vasp e a Transbrasil, mas como presidente sou mais pé no chão. A situação é muito delicada, se o governo num tiver boa vontade, tem tudo para acontecer o mesmo. Ou, pelo menos, a empresa vai ficar muito pequena", ressaltou Silva, que trabalha na companhia desde 1988, e atualmente ocupa o cargo de agente de finanças. Enquanto isso, os funcionários precisam esperar e desviar dificuldades como podem. "Não tive nenhum problema jurídico ainda, mas o assédio dos meus credores é diário. Quando vou conversar com algum credor meu, levo no bolso as cópias dos e-mails da presidência a respeito do pagamento. Até agora ninguém deixou de me cobrar, mas causa uma certa surpresa, já que a opinião pública não sabe o que estamos passando", completou Ferreira.

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