STR/AFP
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Fundador da AliBaba crê que menos de 1% do comércio mundial será offline em 30 anos

Jack Ma, fundador do Alibaba Group, é considerado como exemplo de um dos visionários mais bem sucedidos da história da internet

Jamil Chade, O Estado de S.Paulo

02 Outubro 2018 | 17h12

GENEBRA - Em 30 anos, menos de 1% do comércio mundial será offline, o transporte não ocorrerá em containers e manufaturas não irão mais gerar empregos. A visão é de Jack Ma, fundador do Alibaba Group e considerado como exemplo de um dos visionários mais bem sucedidos da história da Internet. 

“Em 2030, o comércio será diferente”, disse Ma, num evento na Organização Mundial do Comércio, nesta terça-feira, 2. “Há 300 anos, apenas alguns reis se beneficiavam do comércio. Nos últimos 30 anos, 60 mil empresas se beneficiaram e, nos próximos 30 anos, 80% das pequenas empresas no mundo vão ganhar”, disse. “Teremos anos inclusivos”, garantiu o 21º homem mais rico do mundo e com uma fortuna avaliada em US$ 36,3 bilhões. 

Para Ma, porém, o que vai mudar é a composição e infra-estrutura do comércio. “85% do comércio será eletrônico”, disse. “As formalidades do comércio serão pacotes, não containers”, insistiu. “Não haverá Made in Germany ou Made in China. Haverá apenas Made in Internet”, disse.

O chinês deixa claro que, seja qual for o setor, um empresário não terá opção e “terá de ser globalizado”. Mas não necessariamente ser “grande” será uma vantagem. 

A criação de empregos também será profundamente transformada. “O setor manufatureiro não vai mais criar empregos. Serão empregos feitos por robôs. Os novos empregos serão criados no setor de serviços”, disse. 

Ma também revela a mudança no comportamento de consumidores em todo o mundo, algo que irá se aprofundar nos próximos anos. “Temos 300 milhões de compradores por dia na Internet. 60 milhões de pessoas passaram três ou quatro horas online consultando produtos, sem comprar, todas as noites”, disse. “Eles conversam com nossos conselheiros. Claro, temos muitos robôs para conversar com eles”, ironizou. 

Ma deixa claro suas críticas ao papel do estado. “Governos apenas querem criar regulações. Mas se regulamos tudo, matamos tudo”, garantiu. “Precisamos deixar espaço para inovação. No Alibaba, crescemos por que o governo não se deu conta. Quando viram, ficamos mais lentos”, disse. 

“Quantos ministros compram online? Muitos poucos. Mas são eles que estão regulando. Isso nos deixa preocupado. Quando eu me reúno com ministros, eles me dizem que seus filhos compram online. Então são os filhos deles que deveriam regular”, insistiu. 

Ma conta a história da lei Red Flag, criada em 1894 nos EUA. Por pressão dos donos de carroças, governos colocaram um limite de velocidade para os carros de 7 milhas por hora. “O resultado disso é que o avanço parou”, contou. “Parem de lutar contra a tecnologia. Só podemos abraçá-la. Se lutar, estão lutando entre vocês e estão perdendo o futuro”, declarou.

O desafio, porém, é o que fazer com 40% da população mundial que ainda não tem acesso à internet. Mas o chinês garante que isso não será um freio. “A tecnologia é oportunidade para os mais pobres. A eletricidade levou 60 anos desde sua criação para chegar ao Quênia. No caso dos celulares, foram necessários três anos. Por isso eu digo que governos precisam criar infraestrutura para a Internet existir, e não se concentrar em regular. Mas promover”, completou. 

OMC afirma se preocupar com novo cenário do comércio mundial

Se Ma tem uma visão muito clara da revolução que está pela frente, a OMC também se diz preocupada com a disparidade que esse novo cenário irá criar. “Se as sinergias adequadas são criadas, em especial no que se refere a políticas públicas, até 2030 a revolução tecnológica poderia ajudar a alimentar o crescimento do comércio mundial em 30 pontos percentuais. Isso é enorme”, declarou Roberto Azevedo, diretor-geral da OMC.  

Na avaliação de Azevedo, cada vez mais o comércio ocorrerá por meio de plataformas digitais. “Temos de nos perguntar: o sistema comercial global que temos hoje está equipado para esse novo ambiente?”, questionou.  Em sua avaliação, a base ainda é válida: regras claras, abertura e não-discriminação. Para ele, porém, isso pode não ser suficiente diante dos avanços tecnológicos. Sem uma atualização das regras internacionais de comércio, o risco é de que esse fenômeno possa ter um impacto negativo.

“A mudança tecnológica pode criar novos problemas”, disse. “Ela poderia aumentar o número de grandes empresas, às custas das pequenas. Ela poderia criar novas desigualdades, por exemplo entre empresas avançadas digitalmente e aquelas que ficam para trás”, alertou.

Azevedo quer novas regras, justamente para não deixar que essa nova base seja estabelecida por disputas comerciais que chegariam até os tribunais. “Se a constituição não é atualizada, veremos uma diferença cada vez maior entre esses princípios básicos e a evolução de hábitos, comportamentos e mesmo valores éticos”, disse.

Para ele, com a diferença se aprofundando, são os tribunais que estão preenchendo o espaço e criando jurisprudência. Mas nem sempre ela poderá refletir os desejos e prioridades.

“Essa é a primeira questão que estamos enfrentado: queremos deixar esse espaço para cortes ou ações unilaterais? Ou queremos sentar e preencher esses vazios juntos?”, disse. “Ainda que não possamos parar essa evolução, podemos moldá-la. Temos de moldá-la”, defendeu Azevedo. “Se não fizermos, ela vai deixar inevitavelmente muita gente para trás e criará novos problemas sociais, novas fontes de desconforto e distúrbios”, alertou.

Ele lembrou ainda de um estudo no Fórum Económico Mundial em que se prevê que, em 2025, máquinas terão mais postos de trabalho no setor manufatureiro que humanos. Como resultado, a tecnologia vai eliminar 75 milhões de empregos vão desaparecer nos próximos quatro anos. Mas, ao mesmo tempo, 133 milhões de novos cargos vão ser criados em novos setores. 

Para Azevedo, o desemprego existirá por conta das revoluções tecnológicas. “Mas as oportunidades também existirão e a questão é como ocupar essas posições”, disse. Ele ainda rejeita a ideia de que as regras de abertura estabelecidas pela OMC favorecem apenas aos mais ricos e às grandes empresas.

“Se cruzarmos o braço, garanto que as grandes empresas e governos serão os maiores vencedores”, alertou.

 

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