Fabio Motta/Estadão - 5/6/2012
Loja da Ricardo Eletro no centro do Rio. Fabio Motta/Estadão - 5/6/2012

Fundador da Ricardo Eletro é preso em operação contra sonegação fiscal

Segundo as investigações, rede varejista teria sonegado cerca de R$ 400 milhões ao longo de cinco anos; em nota, empresa informou que Ricardo Nunes não faz mais parte do quadro de acionistas do grupo

Leonardo Augusto, especial para o Estadão, O Estado de S.Paulo

08 de julho de 2020 | 11h04
Atualizado 09 de julho de 2020 | 00h50

Correções: 09/07/2020 | 00h50

BELO HORIZONTE - O empresário Ricardo Nunes foi preso nesta quarta-feira, 8, em São Paulo, em operação deflagrada por força-tarefa montada pela Polícia Civil de Minas Gerais, Secretaria de Estado da Fazenda e o Ministério Público contra a rede varejista que fundou, a Ricardo Eletro, uma das maiores do País.

Há indícios de que a cadeia de lojas, que atua no setor de eletrodomésticos, tenha sonegado ao longo de cinco anos cerca de R$ 400 milhões em impostos. Foram cumpridos três mandados de prisão e 14 de busca e apreensão na capital, em Contagem e Nova Lima, na Região Metropolitana, e em São Paulo e Santo André. 

A filha do empresário, Laura Nunes, também foi presa na operação. O advogado da família, Marcelo Leonardo, afirmou que a defesa só irá se posicionar depois que tiver acesso aos autos do processo e à decisão judicial que determinou a operação.

Segundo as investigações, os impostos eram cobrados dos consumidores mas não eram repassados ao Fisco. De acordo com informações do Ministério Público, o valor de R$ 400 milhões é correspondente apenas ao Estado de Minas Gerais. Há, no entanto, dívidas “vultosas”, conforme a promotoria, em “praticamente todos os Estados” onde a rede possui filiais.

Além dos mandados de prisão e busca, a Justiça determinou o sequestro de bens avaliados em cerca de R$ 60 milhões “com a finalidade de ressarcir o dano causado ao Estado de Minas Gerais”.

A promotoria afirma que a investigação “ganhou força após decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), de novembro de 2019, que definiu como crime a apropriação de ICMS cobrado de consumidores em geral e não repassados ao Estado”.

O superintendente regional da Secretaria de Estado da Fazenda, Antônio de Castro Vaz de Mello, responsável pela cidade de Contagem, onde fica parte da Ricardo Eletro, afirmou que a empresa já vinha omitindo o recolhimento de ICMS há quase uma década. “A empresa declarava o que deve, fazia parcelamento, mas não pagava”, disse. Conforme o superintendente, a decisão do STF abriu precedente também para outras investigações.

O delegado da Polícia Civil responsável pelas investigações, Vítor Abdala, afirmou que a Ricardo Eletro faturava, mas que outras empresas do grupo, que estão em nome de familiares, é que aumentavam o patrimônio.

Ainda conforme informações do MP, a empresa está em recuperação extrajudicial e não tem condições de arcar com suas dívidas. “Em contrapartida, o principal dono do negócio possui dezenas de imóveis, participações em shoppings e fazendas. Os bens não se encontram registrados em nome do investigado, mas de suas filhas, mãe e até de um irmão, que também são alvos da operação”, diz a promotoria. 

As investigações apontaram que “o crescimento vertiginoso do patrimônio individual do principal sócio ocorreu na mesma época em que os crimes tributários eram praticados, o que caracteriza, segundo a Força-Tarefa, crime de lavagem de dinheiro”.

A operação contou com a participação de três promotores de Justiça, 60 auditores-fiscais da Receita estadual, quatro delegados e 55 investigadores da Polícia Civil.

Ex-acionista

A Ricardo Eletro informou que Ricardo Nunes e familiares não fazem parte do atual quadro de acionistas do grupo, tampouco de sua administração.

Em nota, a empresa esclarece que a operação realizada nesta quarta faz parte de processos anteriores à gestão atual da companhia e dizem respeito a supostos atos praticados por Ricardo Nunes e familiares, não tendo ligação com a empresa.

A empresa diz reconhecer parcialmente dívidas com o Estado de Minas Gerais, e que, antes da pandemia, “estava em discussão avançada com o Estado para pagamento dos tributos passados, em consonância com as leis estaduais”.

A Ricardo Eletro afirma ainda que se colocou à disposição “para colaborar integralmente com as investigações” e que, em paralelo, está abrindo, junto com consultoria externa, investigação interna, apuração dos fatos.

A Máquina de Vendas – dona da Ricardo Eletro e Insinuante – é controlada pela MV Participações, que, por sua vez, é controlada por um Fundo de Investimento em Participações (FIP) e tem suas ações dadas em garantia dos bancos credores. A empresa está em reestruturação financeira desde 2018, quando acumulava dívidas de R$ 1,5 bilhão. / COLABOROU CYNTHIA DECLOED

Correções
09/07/2020 | 00h50

Em uma versão anterior, o texto informou incorretamente que a Ricardo Eletro é controlada pela Starboard. A Máquina de Vendas - dona da Ricardo Eletro e Insinuante - é controlada pela MV Participações, que, por sua vez, é controlada por um Fundo de Investimento em Participações (FIP) e tem suas ações dadas em garantia aos bancos credores. A Starboard, especializada em empresas problemáticas, é gestora de fundos credores, por conta de uma posição em debêntures conversíveis da Máquina de Vendas, que até o presente momento não foi convertida em ações.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Agressividade comercial de Ricardo Nunes deu ao empresário uma vida de lucros

Fundador da Ricardo Eletro chegou a faturar R$ 5 bi, mas fim da parceria com a Insinuante resultou em pedido de recuperação extrajudicial de R$ 1,5 bi

Redação, O Estado de S. Paulo

08 de julho de 2020 | 22h57

Ricardo Nunes abriu a primeira loja da Ricardo Eletro em 1989, em Divinópolis, Minas Gerais. Conhecido pela agressividade comercial, sempre teve sua imagem diretamente associada à rede varejista, seja no próprio nome ou na publicidade: ele mesmo era o garoto-propaganda da companhia.

Há dez anos, o empresário conquistou o seu auge, ao criar a Máquina de Vendas, resultante da fusão da sua empresa com a baiana Insinuante. À época, com faturamento de R$ 5 bilhões, a nova empresa, com mil lojas, se transformou na segunda maior empresa de eletroeletrônicos e móveis do País, ficando atrás apenas da gigante formada pela união de Pão de Açúcar, Ponto Frio e Casas Bahia.

Mais tarde, a empresa teve dificuldades para fazer a integração de suas bandeiras – além da Insinuante e Ricardo Eletro, era dona das redes City Lar, Salfer e Eletro Shopping – e foi perdendo espaço para os rivais. 

Em 2017, em função de desgastes entre o mineiro e Luiz Carlos Batista, fundador da Insinuante, a sociedade foi desfeita. Enquanto Ricardo Nunes defendia expansão a qualquer custo, o sócio baiano queria preservar margem de lucro. A empresa já havia reduzido o número de lojas para 650. 

Em 2018, após um aporte da Starboard, especializada em reestruturação em empresas com problemas financeiros, a empresa entrou em recuperação extrajudicial, para renegociação de R$ 1,5 bilhão com fornecedores.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.