Werther Santana/Estadão - 10/8/ 2018
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ESG

Coluna Fernanda Camargo: É necessário abrir mão do retorno para fazer investimentos de impacto?

Fundador da XP foi da demissão a uma empresa de quase R$ 80 bilhões

Guilherme Benchimol ganhou o respeito dos principais banqueiros do País e agora terá o desafio de dar satisfação diária a seus milhares de acionistas

Luciana Dyniewicz e Mônica Scaramuzzo, O Estado de S.Paulo

11 de dezembro de 2019 | 12h41
Atualizado 12 de dezembro de 2019 | 11h13

Quando vendeu 49,9% da XP Investimentos para o Itaú Unibanco em maio de 2017, por R$ 6,3 bilhões, Guilherme Benchimol, fundador da companhia, dizia que queria evitar os desafios de uma empresa de capital aberto, onde as oscilações do mercado têm um efeito profundo na gestão. Dois anos e meio depois, com a empresa tendo agora suas ações negociadas na Nasdaq, nos Estados Unidos  - com uma avaliação de mercado de cerca de US$ 19 bilhões, ou quase R$ 80 bilhões -, Benchimol, que se acostumou a ditar o ritmo de seus negócios, terá de enfrentar o desafio de dar satisfação diária aos seus milhares de acionistas.

Para essa tarefa, precisará contar cada vez mais com sua capacidade de convencimento, que, segundo uma pessoa próxima ao empresário, “é sua principal habilidade”. Apesar do estilo agressivo nos negócios, Benchimol é descrito por quem convive com ele como uma pessoa agradável, simples e educada. De acordo com antigos sócios e funcionários, ele está sempre disposto a ouvir uma ideia e conversar, embora tente  fazer com que seus argumentos vençam.

Convincente e motivador, Benchimol também contou, para seu sucesso, com a falta de capacidade dos concorrentes para enxergar o potencial de uma plataforma de investimentos que vendia produtos de terceiros. “Ele trouxe um modelo de fora (copiado da gigante americana Charles Schwab) e a concorrência errou ao não acreditar nesse modelo”, afirma um antigo sócio.

Antes preterido no circuito da Faria Lima, o principal corredor financeiro do Brasil, Benchimol ganhou o respeito dos principais banqueiros do País. Ao comprar quase metade da participação da corretora, o Itaú Unibanco reconheceu que o modelo XP de atrair pequenos investidores não poderia ser copiado por um grande banco, mas era importante participar de um projeto como esse. As negociações foram feitas diretamente por Roberto Setubal quando ainda era o presidente do Itaú. Antes de concluir o acordo, a ideia de Benchimol era abrir o capital da companhia.

Foco nos negócios

Descrito como focado e obstinado, assim como a maioria dos empreendedores, Benchimol é conhecido por colocar seus negócios antes de tudo. “Talvez venha antes até da família”, diz uma pessoa que trabalhou com ele. O empreendedor também não mistura negócios com sentimentos, acrescenta outro ex-sócio.

Em 2010, por exemplo, ficou conhecida no mercado a história de que a mulher de Benchimol, Ana Clara, teria sua participação na sociedade reduzida por não alcançar suas metas logo após voltar de licença-maternidade. Ela havia sido uma das primeiras funcionárias da XP, ainda em Porto Alegre, tendo começado como estagiária e sido logo promovida a sócia. Ana Clara acabou desistindo de continuar na companhia. Eles continuam casados.

“A esposa não estava ‘performando’, e ele (Benchimol) não deixa que sentimentos interfiram nas decisões da empresa”, diz um de seus ex-sócios.

O jovem carioca, com 43 anos e formado em Economia, deixou o Rio de Janeiro aos 24 anos para criar seu próprio negócio na capital gaúcha, após ser demitido da plataforma de investimentos Investshop, que sucumbiu com o estouro da bolha da internet, no início dos anos 2000. Workaholic, Benchimol tornou-se multimilionário cedo. Ele praticamente não tem vida social e, aos fins de semana, costuma discutir assuntos de trabalho com clientes e sócios ao redor da piscina.

A dedicação aos negócios é reconhecida até pelos seus desafetos. Nos bastidores, sabe-se que Benchimol não evita entrar em rota de colisão com os sócios – muitos deixaram a companhia para montar seus próprios negócios. Foi o caso de Marcelo Maisonnave, sócio-fundador da XP, e também do executivo Roberto Lee, um dos fundadores da Clear, corretora comprada pela XP em 2014. Procurados, Maisonnave e Lee não quiseram falar.

Benchimol não costuma temer riscos. Coloca metas absurdas e, com certa frequência, consegue batê-las. Aqueles que não acompanham o ritmo ficam rapidamente para trás. Também é frequente que se encante e desencante com os talentos de um novo funcionário ou de um sócio rapidamente. “Qualquer escorregada, a pessoa é trocada: ou sai ou tem sua participação reduzida. Mas, se consegue surpreender positivamente, pode voltar muito rápido”, conta uma pessoa que trabalhou por dez anos na empresa.

Lemann é fonte de inspiração 

Benchimol tem no trio do 3G Capital – os bilionários Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Beto Sicupira – sua fonte de inspiração. Os três são sócios da maior cervejaria do mundo – a AB InBev, que detém marcas como Skol e Brahma e Budweiser.

Em julho deste ano, Benchimol subiu ao palco do XP Expert, diante de milhares de pessoas, ao lado de Lemann. Segundo a própria empresa, o XP Expert é o maior evento de investimentos do mundo, tendo reunido, na edição de 2019, 30 mil pessoas.

Ali, ele não deu uma palestra, mas participou de uma espécie de talk show. Falar em público não é seu forte. Tentou descontrair: disse que Lemann era uma de suas três grandes referências, ao lado de seu pai e de Ayrton Senna, e jogou tênis com o empresário do 3G. Não conseguiu, porém, esconder o nervosismo: gaguejou um pouco e não se mostrou confortável.

Nas festas de fim de ano da empresa, pelo menos até 2013, Benchimol deixava o discurso para algum sócio. Até hoje, não costuma enfrentar grandes plateias sozinho e só aparece ao lado de um interlocutor, como fez no evento. A partir de agora, porém, ganhou uma plateia muito maior, a dos acionistas, para enfrentar.

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