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Fundador de startup e Arco Educação entram em disputa societária de R$ 1 bi

Conflito entre o comando do grupo cearense e Ulisses Cardinot, que criou a International School, foi parar na Justiça; desentendimento envolve valor que deverá ser pago ao empresário pela venda da startup de ensino bilíngue

Mônica Scaramuzzo, O Estado de S. Paulo

26 de dezembro de 2019 | 05h00

O empresário Ulisses Cardinot, fundador da startup de educação International School (IS), maior plataforma de ensino bilíngue do País, está em litígio com a Arco Educação, controladora do negócio, em um processo avaliado em R$ 1 bilhão, apurou o Estado. A disputa entre as partes está em arbitragem.

Acionista e controlador se desentenderam sobre o valor de saída de Cardinot, que já tinha vendido, em dezembro de 2015, 40% da International School, startup que virou referência em ensino de língua estrangeira no País, para a EAS Educação, empresa do grupo Arco Educação. No ano passado, a Arco captou R$ 780 milhões na Bolsa de Nasdaq, nos EUA, e adquiriu este ano também o Sistema Positivo de Ensino, por R$ 1,65 bilhão. 

Depois da primeira aquisição em 2015, a EAS fez em janeiro de 2017 um outro ajuste societário: passou a deter 51,48% da IS, e Cardinot outros 48,52%. Pelo acordo então firmado entre as partes, Cardinot vai receber o restante dos recursos de sua saída em duas fases, com base no desempenho financeiro do grupo de ensino. 

O combinado é que os pagamentos sejam feitos com base no cálculo do Ebitda (lucros antes de juros, impostos, depreciação e amortização) da International School em dois períodos: de setembro de 2018 a setembro de 2019 e de setembro de 2019 a setembro de 2020, apurou a reportagem. O Ebitda é o principal indicador de desempenho financeiro de uma companhia. Cardinot também poderá receber parte dos recursos em ações da Arco Educação.

Com 48,52% do negócio, o acordo de saída prevê pagamento da primeira parcela em abril do ano que vem, referente à fatia de 25% nas mãos de Cardinot – os 23,52% remanescentes serão pagos em abril de 2021.

Nos últimos meses, contudo, os acionistas começaram a se desentender sobre os cálculos para o pagamento desse valor e a disputa foi parar na Justiça. Os custos administrativos que a controladora cobra da IS para prestação de serviços também viraram alvo de discussão porque sofreram um alto reajuste de um ano para outro: a EAS passou a cobrar quase dez vezes mais que o ano anterior, o que levou o fundador da IS a questionar o valor pago por esses serviços. 

Estratégica

Comprada pela EAS no fim de 2015, a International School foi a principal aposta do grupo de educação cearense para complementar seus negócios e avançar em ensino no País. Em 2018, o grupo de ensino registrou faturamento líquido de R$ 381 milhões, aumento de 56% sobre o ano anterior. O Ebtida ajustado foi de R$ 142 milhões. Já a Arco Educação é avaliada em US$ 2,3 bilhões na Nasdaq. No dia 23, as ações da companhia encerraram o pregão em US$ 44,90, uma valorização de 101,6% desde o início do ano.

A Arco é uma das maiores companhias de educação do País, com atuação em todos os segmentos do ensino básico, infantil ao ensino médio, com mais de 500 mil alunos e 1.400 escolas privadas. Fundada em 2006, a companhia é considerada um case de sucesso no segmento – em 2014 recebeu aporte gigante do fundo General Atlantic, que tem pesados investimentos em outras empresas no Brasil, como XP Investimentos e rede de varejo farmacêutico Pague Menos.

Criada pelo empresário Ari de Sá Cavalcante Neto, a rede logo se expandiu no setor pelo alto índice de aprovação no Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) e no Instituto Militar de Engenharia (IME). Com a compra da International School, o grupo passou a ser referência também em ensino bilíngue. A família Sá Cavalcante é dona do Colégio Ari de Sá, comandado pelo pai de Neto, Oto de Sá Cavalcante. 

As discussões para a saída de Cardinot do grupo começaram a criar um desgaste para o fundador da IS desde o início deste ano. No dia 10 de dezembro, a relação entre as partes azedou de vez. Em assembleia geral ordinária da companhia, Cardinot foi destituído da empresa que fundou. Ele ocupava o cargo de presidente executivo e também estava à frente do conselho de administração da International School – o acordo era que ele permanecesse no cargo até abril de 2021. 

Em decisão tomada ontem, o desembargador Cesar Ciampolini, da 1.ª Câmara Reservada de Direito Empresarial do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, reconduziu Cardinot ao comando da companhia. 

Também nesta assembleia as contas administrativas da empresa foram aprovadas com reserva e os controladores entraram com uma ação de responsabilidade contra seu administrador. Foram apontadas como irregulares reembolsos de plano de saúde e outros gastos com viagens, além de questionamentos de contratos entre partes relacionadas. Cardinot contestou cada item em sua defesa.

Terreno da família

Cardinot criou a startup em 2009. Neste ano, o faturamento estimado é de R$ 102 milhões. A expectativa é que a receita atinja R$ 162 milhões no ano que vem.

Nascido em Campos dos Goytacazes (RJ), Cardinot foi criado no terreno de uma escola – fundada por seu pai. O empresário fundou seu primeiro negócio aos 14 anos: uma empresa de fogos de artifício que chegou a fazer uma venda equivalente a R$ 250 mil, em valores atuais.

Mas sua grande empreitada mesmo seria no ramo da educação, com a International School – hoje o maior sistema bilíngue do País. A companhia atende cerca de 90 mil alunos em 23 estados em escolas privadas. 

Procurados pela reportagem, os escritórios Thomaz Bastos, Waisberg e Kurzweil Advogados, Foccacia Amaral Pellon e Lamonica Advogados, Huck Otranto Camargo e Rolim Fontes Advogados, que defendem Ulisses Cardinot, não quiseram comentar o assunto. Os escritórios Pinheiro Neto Advogados e Spinelli Advogados, que defendem o grupo Arco Educação, não retornaram os pedidos de entrevista. 

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