Fundo Carlyle põe controle da CVC à venda e oferece para Smiles, da Gol

Agência foi comprada pelo fundo em 2010 e visão é de que é hora de realizar o investimento; preço e risco de conflito comercial entre CVC e outras aéreas estão entre os entrabes para fechamento do negócio com o Smiles

Mônica Scaramuzzo, Marina Gazzoni, Fernando Scheller, O Estado de S.Paulo

10 Setembro 2015 | 02h05

A agência de turismo CVC, controlada pelo fundo americano de private equity Carlyle, está em conversas com investidores estratégicos para a venda de seu controle, apurou o 'Estado'. A operadora entrou em negociações com o Smiles, empresa de milhagem controlada pela companhia aérea Gol, mas as conversas ainda esbarram no valor do negócio, de acordo com fontes próximas ao assunto.

A empresa já chegou a ser oferecida para outros investidores, como o grupo alemão de turismo Tui, mas as negociações não teriam ido adiante. O Smiles foi procurado pelos acionistas da CVC e fez um estudo do negócio, segundo fontes próximas à empresa. A CVC é vista como um ativo estratégico para o grupo, pois poderia trazer um aumento de margens para a Gol ao adicionar pacotes de viagens às suas passagens aéreas. Ao mesmo tempo, a agência poderia também estender sua oferta de milhas aos pacotes da CVC.

O preço, no entanto, não é o único empecilho para o negócio. Na avaliação do Smiles, há um risco de mercado na integração entre a Gol e a agência de turismo. "A CVC depende de parcerias com todas as empresas aéreas brasileiras. Ela poderia perder poder de negociação com as concorrentes da Gol (TAM, Azul e Avianca)", explica uma fonte com conhecimento do negócio.

Os acionistas da CVC estão oferecendo ao mercado a fatia que o fundo Carlyle detém na empresa, de 45,7%, e os 24,4% do GJP FIP, veículo que reúne os negócios do fundador da agência, Guilherme Paulus. O restante da empresa está na Bolsa de Valores. Existe um acordo entre Paulus e o Carlyle para negociar suas participações em conjunto, apurou o Estado.

O fundo estaria interessado em uma "porta de saída" rápida, já que está há quase seis anos no negócio. O problema, porém, é que o momento não é propício para pressa. "Já passou do tempo do Carlyle sair da CVC. Eles perderam o timing. E estão perdendo capital com a desvalorização do real", disse uma fonte.

Apesar de estar sob pressão, o fundo não quer sair a qualquer preço. O negócio da CVC é considerado sólido. Por isso, os 70% da empresa hoje na mão de Paulus e do Carlyle estariam sendo oferecidos por R$ 1,75 bilhão, ou duas vezes e meia o valor pago pelo Carlyle pela CVC em janeiro de 2010 (cerca de R$ 700 milhões). Esse é o ponto que estaria travando o consenso entre as partes. O Smiles, no entanto, não estaria disposto a pagar o "prêmio" solicitado. A família Constantino, controladora da Gol, é próxima do fundador da CVC. A companhia comprou a Webjet, fundada por Paulus, em 2011, mas acabou abandonando a marca.

A aquisição da CVC seria feita por meio do Smiles porque a empresa tem uma estrutura de capital mais sólida do que a Gol. Neste momento, a companhia aérea está pressionada pela alta do dólar e vem registrando prejuízo operacional. Já o Smiles, que se tornou independente da Gol em janeiro de 2013, é um negócio gerador de caixa e com valor de mercado atualmente de R$ 5,5 bilhões.

Procurado, o Smiles negou a negociação. A CVC e o Carlyle não comentaram a questão.

A venda para uma empresa do setor de viagens é a saída natural do negócio, já que não há liquidez para levar toda a fatia do Carlyle e do empresário Guilherme Paulus à Bolsa, disse outra fonte próxima a companhia.

O caminho natural da CVC, diz uma fonte do mercado financeiro, seria a venda para uma empresa de turismo estrangeira. Mas os estrangeiros não veriam com bons olhos a concentração do negócio em lojas físicas (são quase 1 mil lojas). A própria CVC vem trabalhando para ganhar presença no varejo online, com aquisições como a do Submarino Viagens.

Prós e contras. Maior operadora de turismo brasileira, a CVC reportou vendas líquidas de R$ 369,4 milhões, aumento 16,7% sobre os primeiros seis meses do ano anterior. O lucro líquido do período foi de R$ 62,6 milhões. Desde o começo do ano, com o objetivo de atrair um comprador, a CVC vem divulgando seus resultados mensalmente para passar a imagem de solidez mesmo em um mercado difícil. Neste ano, o setor de turismo tem enfrentado algumas dificuldades com a crise e a valorização do dólar, que reduzem a demanda pelos pacotes de viagens internacionais.

 

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