Fundo sai após reservas de US$ 190 bi

Valor daria para pagar a dívida externa, pública e privada, e eliminaria desconfiança em relação ao fundo soberano

Adriana Fernandes, O Estadao de S.Paulo

06 de dezembro de 2007 | 00h00

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, deve esperar que as reservas internacionais cheguem a US$ 190 bilhões para lançar o Fundo Soberano Internacional, que vai apoiar investimentos de empresas brasileiras no exterior. É que, nesse nível, as reservas serão suficientes para pagar toda a dívida externa, pública e privada. Com isso, eliminaria a desconfiança que a criação do fundo provocaria sobre a capacidade de o Brasil honrar seus compromissos numa eventual crise de liquidez internacional. Apesar das críticas de economistas de peso de que o fundo pode aumentar a dívida brasileira e retardar a concessão do grau de investimento ao Brasil, Mantega está convencido de que o novo instrumento - e a continuação da estratégia do Banco Central de aumentar as reservas - ajudará a conter uma queda mais brusca do dólar em relação ao real. E, sobretudo, suavizar uma volatilidade maior da taxa de câmbio que possa comprometer o parque industrial brasileiro. O governo deve utilizar inicialmente recursos que já tem em caixa para comprar no mercado interno os dólares para o fundo soberano. O caixa foi reforçado porque, desde 2003, o Tesouro Nacional tem vendido uma quantidade de títulos maior do que o volume de papéis que vencem no período.Essa emissão além do necessário para rolar a dívida reforçou o "colchão de liquidez" - uma reserva do Tesouro para honrar o pagamento de títulos na eventualidade de suspender leilões de venda de novos papéis. O colchão é hoje superior a R$ 100 bilhões, nível considerado seguro. O Tesouro também poderá fazer novas emissões líquidas de títulos (emissões maiores do que os resgates) para obter recursos para comprar os dólares.Mantega já manifestou a intenção de que o Fundo tenha entre US$ 10 bilhões e US$ 15 bilhões. As diretrizes para a compra de dólares deverão ser definidas entre o Tesouro e o BC. Com atuação do Tesouro no mercado, o BC terá menor necessidade de comprar dólares para conter a desvalorização da moeda americana. Por isso, a equipe econômica avalia que, do ponto de vista do endividamento público, o impacto das compras do Tesouro será neutro em relação ao que já existe, com as aquisições do BC.Para comprar os dólares no mercado interno, o BC acumula um passivo. Ele paga os dólares com a emissão de reais. Esses reais aumentam a base monetária e o BC precisa enxugar esse excesso de moeda com a venda de títulos do Tesouro que estão na sua carteira. Nessas operações, o BC assume um passivo atrelado aos juros pagos pelo Tesouro nos títulos. Para comprar os dólares do fundo, o Tesouro usará reais obtidos com a emissão líquida de títulos para comprar dólares. "Fiscalmente dá no mesmo", disse uma fonte do Ministério da Fazenda. Inicialmente, a idéia de Mantega era de formar o fundo com os dólares das reservas. Mas o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, resistiu à proposta, observando que causaria ruídos no mercado. "Meirelles quis deixar claro que reserva é reserva", ressaltou outra fonte.Segundo essa fonte, o ministro da Fazenda quer continuar com a política de intervenção no câmbio porque avalia que deixar o dólar cair bruscamente teria impacto nocivo para economia brasileira - não só para os exportadores, que perdem competitividade, mas também para empresas em geral. "É isso ou deixar o câmbio cair para R$ 1,50", ressalta a fonte, lembrando que, desde que assumiu o cargo, Mantega tem deixado clara sua quase obsessão em conter a taxa de câmbio. Além de uma desvalorização maior da moeda americana, o governo também teme uma alta brusca com a expectativa de reversão, a médio prazo, dos superávits da balança comercial e de transações correntes do balanço de pagamentos - cenário que está sendo considerado no Ministério da Fazenda. Nesse caso, empresas com dívidas em dólar seriam prejudicadas. O problema ocorre, por exemplo, quando o investidor se financia em dólares a R$ 1,80, em seguida a cotação cai para R$ 1,50 e depois dispara para R$ 2,00.

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