Fundo Soberano ainda não comprou dólares

Após dois anos de ameaças, governo continua sem utilizar o fundo para conter a valorização do real e prefere manter ações tradicionais

Fabio Graner/BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

25 de julho de 2011 | 00h00

Praticamente dois anos de ameaças e até agora nada. A frase resume o que foi a atuação do Fundo Soberano do Brasil (FSB) no mercado de câmbio.

Desde 2009, o Tesouro Nacional frequentemente menciona a possibilidade de entrar comprando dólares no mercado para tentar conter o ímpeto de valorização do real. Mas o fato concreto é que o governo ficou só na ameaça verbal e deixou o FSB apenas como um suposto craque que está no banco de reservas e nunca entra em campo.

A equipe econômica preferiu, até o momento, utilizar instrumentos tradicionais de intervenções do Banco Central para tentar conter a contínua valorização do real.

Na lista de mecanismos usados, estão as compras de dólares nos mercados futuro e à vista (para as reservas internacionais), e o uso de medidas tributárias e regulatórias, como o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) mais alto para o ingresso de capitais estrangeiros e as limitações para os bancos apostarem na alta do real.

O Fundo Soberano tem um patrimônio líquido de R$ 18,8 bilhões. Mas, em tese, seu poderio de atuação é muito superior a esse valor, porque o Tesouro pode emitir títulos públicos para a carteira do FSB, para que este possa comprar mais dólares.

Efeito psicológico. Apesar da inoperância do Fundo no mercado cambial, o governo considera que a mera possibilidade de intervenção já ajuda no esforço para evitar que o dólar caia muito rapidamente.

A visão é que as expectativas têm peso importante na formação do preço da moeda e o risco de um novo comprador, com grande potencial de aquisição, entrar no mercado a qualquer momento seria levado em conta para a definição da cotação.

O presidente da Sociedade Brasileira de Estudos das Empresas Transnacionais e da Globalização Econômica (Sobeet), Luiz Afonso Lima, enxerga problemas na estratégia de "ameaçar e não fazer".

Ele considera que quando o governo cogita a hipótese de atuar de alguma forma, o mercado se antecipa e traz mais recursos para fazer frente à ameaça, o que acentua a tendência de valorização da moeda. "É um tiro que sai pela culatra. Ameaçar é a pior hipótese", afirmou. Na visão de Lima, se quiser agir, o governo deve fazer sem pré-avisos.

A despeito dessa avaliação, Lima não considera que o efetivo uso do FSB mudaria alguma coisa em relação aos rumos da taxa de câmbio brasileira.

Para referendar o raciocínio, ele lembra que nos últimos anos o BC comprou centenas de bilhões de dólares e mesmo assim o dólar foi parar na casa de R$ 1,55. "Talvez tivesse algum efeito se a agressividade do Tesouro fosse muito maior", disse.

Na visão do presidente da Sobeet, seria muito mais interessante se o governo retomasse uma das ideias originais do FSB, que era usar os recursos para financiar a internacionalização das empresas brasileiras.

Segundo ele, o crédito externo só é favorável para grandes grupos e o FSB poderia ajudar empresas de menor porte a disputar uma fatia do mercado internacional.

Para o economista do BES Investimento, Flávio Serrano, o uso do "gogó" não é eficiente e, na prática, cria ruído e adiciona incerteza ao mercado, afetando a formação de preço.

Ele avalia que qualquer medida adotada pelo governo tem efeito apenas de curto prazo, sem alterar a tendência de valorização do real, que é determinada principalmente pela política monetária frouxa dos Estados Unidos, que despejam dólares no mercado para tentar aquecer sua economia.

"O uso do FSB pelo Tesouro também teria efeito momentâneo no câmbio", disse.

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