Hélvio Romero/Estadão
Hélvio Romero/Estadão

Fundos começam a captar recursos no Brasil

Famílias endinheiradas têm sido alvos de fundos de capital de risco no País; tradicionalmente, eles buscavam recursos no exterior

Reneé Pereira, O Estado de S. Paulo

07 de julho de 2019 | 05h00

Especializados em garimpar ideias que podem virar negócios bilionários, os fundos de venture capital sempre buscaram recursos no exterior para investir nas startups brasileiras. Mas esse movimento começa a mudar. Com a queda da taxa de juros, famílias endinheiradas têm buscado novas alternativas para remunerar suas fortunas, e os fundos estão nesse caminho.

 

Embora alguns invistam diretamente nas empresas, a maioria prefere entrar num fundo e diluir os riscos. Com maior apetite ao risco, essas carteiras investem quantias entre R$ 100 mil e R$ 300 milhões em várias empresas ao mesmo tempo. Eles sabem que a maior parte delas vai ficar pelo meio do caminho, mas aquelas que “vingarem” vão compensar os fracassos. A venda da 99 para a chinesa Didi, por exemplo, rendeu a investidores retorno 60 vezes o montante aplicado. O valor do negócio foi de quase US$ 1 bilhão.

 

“O que tem ocorrido nesse mercado é como jogar na Mega Sena quando o valor está alto. Quanto mais unicórnios aparecem, mais os investidores se interessam”, afirma o sócio e chefe do XP Private, Beny Podlubny. A taxa de juros mais baixa é o pontapé para esse movimento, mas o fator psicológico também conta. Ninguém quer ficar fora dessa onda que está no mundo inteiro. “O fato é que apesar da euforia esse mercado veio para ficar e tem muito para crescer no Brasil”, diz o executivo.

 

Exemplo disso, está na proliferação dos fundos de venture capital. Só no ano passado, eles investiram US$ 1,3 bilhão no Brasil: volume 51% superior ao de 2017, segundo dados da Associação Latino-americana de Private Equity e Venture Capital (Lavca, na sigla em inglês). Nos Estados Unidos, Israel e China, esse mercado está muito mais avançado. 

 

Nos últimos anos, o BTG, por exemplo, fez viagens de imersão para investidores conhecerem como funcionam esses investimentos no resto do mundo. “Era uma forma de trazer mais informação e dar conforto para os investidores atuarem nesses ativos”, afirma Luciano Juaçaba, diretor executivo do Wealth Management do BTG Pactual. Ele conta, no entanto, que além dos juros baixos, a nova geração de famílias tradicionais tem trazido “frescor” para a diversificação dos investimentos.

 

“Outro aspecto importante é que tem surgido no Brasil uma classe de gestores bem qualificados”, completa ele. Na lista, estão monashees e Redpoint eVenture. Em ambos os casos, os gestores têm recebido grande demanda do investidor nacional. Esse apetite tem chamado a atenção de novos entrantes nesse segmento.

 

A Crescera, ex-Bozano Investimentos, que fez a gestão de um fundo de venture capital do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), decidiu para explorar esse mercado e atender a demanda de seus clientes. O novo fundo deverá investir na chamada série B, que envolve empresas um pouco mais maduras. A expectativa é captar entre R$ 300 milhões e R$ 400 milhões, sendo cerca de 70% no Brasil e 30%, no exterior.

 

“O setor está no despertar do venture capital no País. Durante muitos  anos foi mais vantajoso deixar o dinheiro rendendo na renda fixa”, diz Fernando Silva, sócio de venture capital da Crescera. Agora os Family office (que fazem a assessoria para famílias endinheiradas) estão tendo de assumir um pouco mais de risco e estão ávidos por novos serviços, completa. 

 

Alexandre Pierantoni, diretor da consultoria Duff & Phelps no Brasil, confirma que tem visto muitas famílias, empresários e executivos em busca de investimentos de risco por causa da redução da taxa de juros. Nesse grupo também estão empresários que venderam seus negócios e estão atrás de novos desafios. “Todos querem achar o próximo unicórnio brasileiro”, diz ele. 

 

Pedro Englert, presidente da StartSe, plataforma de apoio as startups, tem a mesma percepção. Tanto que ele próprio investe em startups. Começou aplicando em empresas de setores variados. “Fiquei quase no zero a zero. Agora, com os investimentos em empresas do setor financeiro, estou tendo mais sucesso”, diz ele, que tem 15% de sua carteira de investimentos alocada em startup. Ele afirma que, desde o ano passado, tem percebido uma entrada mais forte de dinheiro dos family office. “Eles estão vendo um mercado mais consistente e maduro.” 

 

 Mas o diretor da Associação Brasileira de Private Equity e Venture Capital (Abvcap), Humberto Matsuda, afirma que apenas os Family office mais sofisticados tem investido nesse setor. Ou seja, é gigantesco o potencial desse mercado no Brasil. Segundo ele, no mundo, o mercado de ativos alternativos, que inclui os fundos de venture capital, private equity e hedge fund (também conhecidos no Brasil como multimercados), deve crescer de US$ 8 trilhões para US$ 14 trilhões em 2023.

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