Fundos de Previdência perdem valor e custos bancários ficam em evidência

Saída para investidor reduzir perdas causadas pelos juros em alta é negociar com bancos taxas de administração e de carregamento menores

Josette Goulart, O Estado de S.Paulo

30 de setembro de 2013 | 02h13

Quando os extratos dos planos de aposentadoria começaram a chegar, qual não foi o susto dos investidores ao ver que seu patrimônio estava se reduzindo em relação ao ano anterior. O efeito foi imediato e os bancos começaram a perceber uma fuga dos planos de previdência de renda fixa (os conhecidos PGBLs e VGBLs) pela primeira vez na história. Foram quase R$ 1,5 bilhão em três meses.

Mas o investidor precisa agir com cautela para não "realizar prejuízo", como se diz no jargão do mercado, e aproveitar esse momento para questionar as taxas cobradas pelos bancos, que influenciam no rendimento.

Esses fundos, principalmente os de longo prazo, estão de fato perdendo valor no ano em parte por um efeito da elevação dos juros. Apesar de parecer uma contradição - já que se a taxa de juros está subindo isso deveria significar mais rendimento - o que acontece é que esses fundos são compostos por títulos do governo de longo prazo já com rentabilidade fixada. Dessa forma, quando a curva de juros no mercado futuro cai, esses fundos ganham, quando essa curva sobe (como neste ano) esses fundos perdem porque precisam fazer a chamada "marcação a mercado". Ou seja, precisam dizer que perderiam dinheiro se tivessem que vender o título agora.

Cobrança. Mas o que as rentabilidades negativas ajudam a evidenciar é que os bancos estão cobrando muito caro. São taxas de administração, taxas de saída, taxas de entrada que, juntas, podem corroer até um terço do patrimônio de quem está poupando, segundo cálculos da Keyassociados. "Mesmo antes de aplicar, o banco já está cobrando", diz Camilo Terranova.

Para se ter uma ideia do efeito perverso da taxa de administração, Terranova fez uma simulação com base em uma aplicação mensal de R$ 100 por 30 anos com rendimento de 6%. Se a taxa de administração for de 2%, o aplicador teria no final do período R$ 83,7 mil. Se essa taxa for de 4%, o acumulado cai para R$ 57,5 mil, uma diferença de mais de 30%. E essa conta não levou em consideração a taxa de carregamento, cobrada na entrada e na saída dos recursos.

Uma rápida checada nos sites de quatro instituições (Banco do Brasil, Bradesco, Itaú e Santander) mostra que não é tarefa fácil descobrir todas as taxas dos produtos. Por isso, o investidor precisa insistir com seu gerente para saber o que está pagando. O educador financeiro André Massaro diz que nada justifica o banco cobrar taxa de carregamento, por exemplo, e que o investidor deve recorrer à portabilidade e levar seus recursos a outros bancos, que cobrem menos. De acordo com dados da Fenaprevi, quase R$ 2 bilhões mudaram de fundos entre 2011 e 2012, com investidores usando da portabilidade.

Para os bancos, a previdência é um produto importante, já que o investidor mantém o dinheiro por um prazo muito longo. Alguns bancos como Itaú e Banco do Brasil começaram a incentivar seus clientes a migrar de fundos, para outros com taxas mais baratas, dentro da própria instituição. "A previdência gera boa receita para o banco, mas ela é mesmo importante por ser uma âncora de relacionamento com esse cliente", diz Cláudio Sanches, diretor de produtos de investimentos e previdência do Itaú.

Sanches diz ainda que por causa das rentabilidades baixas neste ano, o banco instruiu seus gerentes a, em vez de vender o produto de previdência, explicar aos investidores o que estava acontecendo com os fundos, mesmo os mais conservadores. É a primeira vez que esses fundos perdem rentabilidade e foi o grande teste para saber como o investidor reagiria. E não foi bom, segundo Sanches, pois o investidor se assustou e muitos retiraram seus recursos.

Com a queda histórica das taxas de juros (mesmo subindo este ano, elas ainda estão baixas historicamente), os fundos precisam aplicar em papéis mais arriscados para ter melhores rendimentos, mesmo na renda fixa. E isso normalmente significa aplicar mais no longo prazo, o que deixa os fundos suscetíveis à marcação a mercado. "Neste mês, a rentabilidade já voltou a estabilizar", pondera o gerente da BrasilPrev, Daniel Scolese. Quase dois terços dos fundos do BB estão com rentabilidades negativas. Não é diferente em fundos de outros bancos como Bradesco ou Santander.

Fundos de pensão. Também nos fundos fechados, patrocinados por empresas, as rentabilidades ficaram negativas. Mas neste caso o investidor precisa estar ainda mais ciente de que não vale a pena tirar o dinheiro. Isso porque nesses planos a empresa costuma contribuir com parte do valor. "Aqui não importa que taxa de administração está sendo paga, pois quem não aplica está perdendo o dinheiro que a empresa colocaria", lembra Massaro.

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