Futebol e economia: de vira-latas a ''mascarados''

Na esteira da eliminação do Brasil na Copa América, tem sido mencionado o "complexo de vira-latas" - um "narcisismo às avessas" imortalizado por Nelson Rodrigues - para explicar por que os brasileiros conseguiram perder quatro penalidades máximas sucessivas. Não parece ter havido "complexo de vira-latas". Houve, sim, a punição de um time brasileiro que não se pensa composto por vira-latas, mas que, pelo contrário, "se acha" - ou, como diria Nelson Rodrigues, mergulhado na "máscara".

Marcelo de Paiva Abreu, O Estado de S.Paulo

25 de julho de 2011 | 00h00

Quando Rodrigues cunhou a expressão "complexo de vira-latas", tinha na cabeça o Brasil futebolístico das Copas anteriores a 1958. A de 1938, quando Domingos da Guia desferiu ostensivo pontapé no italiano Piola fora de campo, mas perto da área, e o Brasil ficou chocado porque o juiz, além de expulsá-lo, marcou pênalti decisivo. O bom time brasileiro, que incluía Leônidas da Silva, foi eliminado. Nelson Rodrigues certamente pensava no Maracanazo de 1950, quando, a despeito de perorações patrióticas, o Uruguai, de virada, deixou o Brasil em estado de choque e foi campeão. E, ainda, no episódio que coroou a nossa história de futebol vira-lata, a tristemente famosa Batalha de Berna, na Copa de 1954, quando o Brasil foi derrotado pelo maravilhoso time húngaro. Com direito a expulsões (dos dois lados), chuteirada de Zezé Moreira - o técnico brasileiro - na cara do vice-ministro húngaro de Esportes e batalha campal em que o episódio culminante foi a rasteira do jornalista Paulo Planet Buarque num policial suíço.

A cura do complexo só começou em 1958 e se consolidou em 1962 e 1970. Depois disso, o Brasil andou ganhando Copas que não merecia ganhar e perdendo Copas que não merecia perder, mas decididamente abandonou o complexo de "vira-latas".

O sucesso em cinco Copas - "pentacampeonato" na nova terminologia, que não exige vitórias em campeonatos sucessivos -, em meio à crescente globalização do esporte, ao aumento meteórico de salários e da concorrência entre clubes e à consolidação do Brasil como fonte de talentos, levou ao surgimento de craques de um novo tipo. Muito mais ricos que os craques do passado, mais dispostos a trocar de clube e de país, dependendo de vantagens financeiras, e em geral jogando fora do Brasil ou prestes a jogar fora do Brasil. Em certos casos, "marrentos" e com alta propensão ao "salto alto".

A perdição do Brasil na derrota contra o Paraguai foi, além de alguma falta de sorte, a de "se achar". Talvez menos na execução dos pênaltis do que nas reações ao fracasso. O olhar fixo de alguns dos batedores frustrados na direção da marca do pênalti tentava sugerir que a culpa era do estado do campo. Como se os paraguaios tivessem sido beneficiados por dominarem com exclusividade a técnica de bater pênaltis em campos com superfície irregular. Para prosperar, a atual seleção vai ter de encontrar meios de conter a vulnerabilidade psicológica que resulta do seu excesso de confiança. Está mais para complexo de poodle do que de vira-lata.

E não é só no futebol que se manifestam os problemas decorrentes do "salto alto". Também na economia estamos batendo sucessivos pênaltis para fora, refestelados nas glórias da redenção da condição de vira-latas econômico que nos assolou no passado. Entre 1979 e 1993, o País deixou de ser levado a sério em meio à aceleração inflacionária. Depois do ufanismo basbaque do Brasil Grande dos anos 70, instalou-se um complexo de vira-latas com a mistura de estagnação, calotes e hiperinflação. Depois, com o Plano Real e reformas estruturais importantes, foram lançados os alicerces da superação, com longa defasagem, da estagnação econômica, especialmente a partir de 2004, embora a taxas bem modestas de crescimento do PIB.

A melhoria do quadro macroeconômico, conjugada a notícias favoráveis quanto a reservas petrolíferas e ao aumento de preços de commodities, culminou na boa resposta brasileira à crise mundial pós 2008, em contraste com a vulnerabilidade das economias desenvolvidas. Isso levou ao reconhecimento internacional, também com longa defasagem, de que o Brasil não era mais um mero vira-lata. Levianamente, o Brasil passou a ser arrolado entre os Brics, em meio a louvações da mídia internacional, embora, do ponto de vista do crescimento econômico e da acumulação de capital, faça parte da rabeira - bem distante de China e Índia - desse bloco heterogêneo.

Na esteira desse processo, o governo brasileiro passou a adotar políticas imprudentes, substituindo falta por excesso de confiança, a exemplo de nossos craques. A incontinência de gastos públicos persistiu, agora misturada à bisonha tentativa de mascarar suas ações com o uso de artimanhas primitivas. Pior do que isso, o governo está desperdiçando a oportunidade oferecida pela bonança de promover reformas estruturais essenciais para corrigir desequilíbrios macroeconômicos que não poderão persistir no médio prazo.

De novo com significativo atraso, observadores internacionais começam a perceber que as esperanças de que o Brasil país do futuro pudesse transformar-se em Brasil do presente podem ser infundadas. Só que, agora, parecem ter razão.

DOUTOR EM ECONOMIA PELA UNIVERSIDADE DE CAMBRIDGE, É PROFESSOR TITULAR NO DEPARTAMENTO DE ECONOMIA DA PUC-RIO

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