Futuro da fotografia passa pelo celular

Telefones móveis trazem câmeras cada vez mais sofisticadas, tornando-se rivais das câmeras compactas

Jack Schofield, O Estadao de S.Paulo

06 de setembro de 2009 | 00h00

Até recentemente, os celulares com câmeras eram os primos pobres das câmeras amadoras. Mas alguns deles chegaram agora ao ponto de serem capazes de tirar fotografias de verdade, mesmo à noite. Esta é, ao menos, a promessa da Nokia para promover as vendas do seu N86. A empresa convocou o fotógrafo britânico David Bailey para produzir a exposição Alive at Night, reunindo fotografias tiradas com o novo telefone celular para o seu lançamento.

A proposta era fotografar um conjunto seleto de pessoas que trabalham na noite londrina. Entre elas havia uma garçonete, um paramédico, um açougueiro, um padeiro e algumas dançarinas exóticas.

Não se tratou de um grande desafio. O N86 é mais avançado do que a maioria das câmeras digitais amadoras: tem sensor de 8 megapixels, lentes Carl Zeiss Tessar de abertura ampla (f/2.4), obturador com velocidades mecânicas de até 0,001s, redução automática dos borrões nas fotos em movimento e flash embutido. Seja como for, seria de se esperar que uma pessoa tão talentosa quanto Bailey correspondesse à expectativa. E ele correspondeu.

Eu não soube ao certo se tinha ficado desapontado pela exposição montada na galeria The Old Dairy, em Bloomsbury, região central de Londres. As fotos são fantásticas. Entretanto, a maioria delas dá a impressão de que poderia ter sido feita com uma câmera 35mm.

Talvez o objetivo fosse justamente esse: mostrar que o N86 pode ser usado para substituir uma câmera "de verdade". Por outro lado, não havia nas fotos nada que justificasse a opção de um fotógrafo pelo N86 em lugar de outros equipamentos. Mas o principal atrativo do N86 parece ser o mais óbvio: você pode usá-lo quando deixar suas câmeras de verdade em casa.

Matt Gibbs, diretor de contas da empresa de pesquisa de mercado GfK Retail and Technology, diz que "o total de vendas de câmeras está muito maior do que o registrado anteriormente, o que significa que a fotografia digital foi benéfica para as câmeras".

Mas ele não acredita que os celulares possam substituir as câmeras normais. "Haverá certamente um grupo de pessoas que dirá: ?Não precisamos mais comprar câmeras porque a tecnologia está disponível em nossos celulares.? Mas, quando pensamos nos números envolvidos, é difícil imaginar um canibalismo. Neste ano, foram vendidos cerca de 15 milhões de celulares equipados com câmeras, número comparado a cerca de três milhões de câmeras digitais vendidas no mesmo período. A redução nas vendas das câmeras digitais deveria, portanto, ser muito maior do que os 7% ou 8% registrados."

Os telefones celulares são vistos como ameaça para muitos dispositivos individuais: PDAs, reprodutores de MP3, aparelhos GPS e similares, consoles portáteis e leitores de livros eletrônicos. Mas o impacto provocado pelo celular variou de acordo com cada setor. "Acredito que os celulares estejam incrementando suas vantagens tecnológicas em termos de capacidade e qualidade das imagens, mas as câmeras também estão progredindo", diz Gibbs.

"Estamos descobrindo câmeras com zoom de grande alcance, detecção automática de rosto, telas sensíveis ao toque e avanços do tipo. Até certo ponto, isso mantém clara a fronteira entre os diferentes dispositivos e suas funcionalidades."

Enquanto isso, David Bailey ainda não se impressionou com a ascensão das câmeras digitais, e nem pelo fato de o iPhone ter se tornado a câmera mais popular no Flickr. "O que é Flickr?", pergunta ele.

"Para mim, o formato digital foi a melhor coisa que aconteceu, porque conferiu ao meu trabalho um caráter mais único", diz Bailey. "As fotos de todo mundo são iguais. É como uma reprise de quando a Kodak lançou a Box Brownie há mais de cem anos, e disse: ?Este é o fim da fotografia. Ninguém conseguirá tirar fotos decentes outra vez.? O mesmo aconteceu com as câmeras Polaroid, com as câmeras digitais, e acontece agora com as câmeras digitais dos celulares. É engraçado como, no fim, a tecnologia nem sempre torna as coisas melhores, mas as torna mais acessíveis. Isto não proporciona fotos de maior qualidade. Mas trata-se de algo bom, afinal: uma nova ferramenta à disposição."

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