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'Futuro do País está em suas próprias mãos', diz diretor do FMI

Para José VIñals, Brasil precisa manter inflação sob controle e implementar reformas estruturais

Entrevista com

Cláudia Trevisan, correspondente de Washington, O Estado de S. Paulo

12 de abril de 2014 | 02h08

O Brasil deve continuar seus esforços para manter a inflação sob controle, com o objetivo de reforçar a confiança internacional em sua política monetária, além de implantar reformas estruturais que ampliem a sua capacidade de crescimento, afirmou o conselheiro financeiro e diretor do Departamento Monetário e de Mercado de Capitais do Fundo Monetário Internacional (FMI), José Viñals.

"O futuro do Brasil está em suas próprias mãos", disse o economista espanhol em entrevista ao Estado. "Essas questões são essenciais para aumentar a resiliência de um país como o Brasil para quando houver turbulências externas que provoquem pressões de aumento da taxa de juros e de depreciação da moeda, com impacto negativo sobre o crescimento."

Para ele, os países ricos ficaram dependentes de políticas monetárias expansionistas e enfrentam o desafio de deixar as muletas da liquidez e caminhar para uma situação de crescimento sustentável. Os EUA estão mais adiantados que Europa e Japão no processo de normalização de sua política monetária. Quando estiver concluído, as taxas de juros de equilíbrio da economia deverão ser menores que as registradas no período anterior à crise de 2008, disse Viñals. A seguir, trechos da entrevista:

Como a crise global mudou a percepção dos economistas em relação à eficácia de políticas monetárias tradicionais?

Se você precisa mover taxas de juros em patamares superiores a zero, a política monetária tradicional continua tão efetiva quanto antes. O que a crise introduziu foi uma nova dimensão, a de que existem outras políticas que podem ser usadas para ajudar a economia mesmo quando há a impossibilidade de reduzir a taxa de juros, porque elas atingiram um patamar igual a zero. Essas medidas, chamadas de não convencionais, é o que a crise nos ajudou a descobrir. Elas podem ter a forma de concessão de liquidez aos bancos por um longo período de tempo ou de compra de ativos pelo banco central com o objetivo de reduzir a taxa de juros de longo prazo. Políticas não convencionais também podem se traduzir nas tentativas dos bancos centrais de guiar as expectativas sobre as taxas de juros oficiais futuras.

A economia americana ficou dependente de taxas de juros extremamente baixas?

As economias americana, europeia e japonesa se tornaram dependentes de políticas monetárias bastante expansivas. O desafio que o mundo tem agora é o de passar da dependência de liquidez para uma situação de crescimento sustentável. A economia americana está se recuperando e o Fed está começando a normalizar a sua política monetária, tirando o pé do acelerador. Mais tarde, pisará no freio, quando começar a subir os juros. Isso significa que os EUA estão em uma posição que permite deixar as muletas da liquidez para trás e se mover para o crescimento. Mas os EUA são diferentes da Europa e do Japão, onde é necessário mais tempo para a recuperação se fortalecer.

Qual o risco de surgimento de bolhas de ativos em razão do aumento da liquidez?

Esse risco é importante. Vemos um pouco disso no mercado de dívida de baixa qualidade, no qual o débito está crescendo rapidamente, mas o prêmio de risco que os investidores estão recebendo para compensar o risco está de volta aos patamares anteriores à crise, o que significa que eles podem não estar recebendo compensação adequada pelo risco. Também vemos que as garantias dadas na emissão de dívida alavancada com elevado rendimento estão se tornando mais débeis. A proteção para o crédito está mais fraca. Se olharmos para o mercado acionário nos EUA, a situação é mais controvertida, porque o mercado não atingiu os recordes que registrou no boom das empresas de internet e a relação entre preços e rendimentos está em linha com médias históricas. Mas, se considerarmos uma versão ajustada da relação entre preço e rendimentos, o índice Shiller, a relação entre preços e rendimentos está significativamente acima das médias históricas. É uma situação na qual podemos dizer que o mercado acionário está supervalorizado, mas a expectativa de que a economia continuará a crescer poderá validar as expectativas do mercado e sustentar essa alta valorização. Mas se as expectativas não se realizarem, haverá uma correção do mercado.

Quais são os riscos para o Brasil do processo de desmonte do relaxamento quantitativo e do passo seguinte, de normalização da política monetária nos EUA?  Para o Brasil e outros emergentes, a questão fundamental é trabalhar para ter a inflação sob controle, ter finanças públicas sólidas e realizar reformas estruturais que permitam ao país aumentar seu crescimento potencial. Essas questões são essenciais para aumentar a resiliência de um país como o Brasil para quando houver turbulências externas, que provoquem pressões de aumento da taxa de juros e de depreciação da moeda, com impacto negativo sobre o crescimento. O futuro do Brasil está em suas próprias mãos, no sentido de que o País estará em uma posição muito melhor para enfrentar os ventos contrários que virão de um cenário internacional de alta dos juros. Quanto mais sólidas forem essas políticas, menor será a saída de capitais que o Brasil experimentará e, por isso, menor será o impacto sobre a estabilidade financeira e o crescimento. O Brasil também precisa olhar para a saúde do setor corporativo e ser muito vigilante em relação à dívida acumulada pelo setor e tentar administrar os riscos associados ao débito das companhias.

Por que é tão importante manter a inflação sob controle?

A inflação tem um custo para a sociedade e também é percebida por investidores como um sinal de que talvez as coisas não estejam tão boas quanto deveriam. É importante que a inflação não só fique dentro da meta, mas volte no ritmo certo para o centro da meta, porque isso será importante para a confiança em relação à qualidade da elaboração de políticas macroeconômicas no Brasil. Acho que o BC agiu corretamente com a elevação dos juros e eles devem fazer o que é apropriado para manter a inflação sob controle. Isso é algo que fará com que a economia tenha mais resiliência, porque haverá mais confiança no Brasil.

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