Clayton de Souza/ Estadão - 3/4/2014
Clayton de Souza/ Estadão - 3/4/2014

Futuro pertence a quem for capaz de unir o conhecimento acadêmico aos setores produtivos

Universidades devem se tornar vetores do desenvolvimento, em especial da região onde estão sediadas

Waldemiro Gremski*, O Estado de S.Paulo

16 de junho de 2021 | 04h00

Vivemos um momento complexo. No fundo, sabemos que nossa esperança é a ciência. É no domínio do conhecimento que a humanidade tem a certeza de sua sobrevivência e progresso. Mas para que o conhecimento se traduza no desenvolvimento sustentável do País, é imprescindível cumprir algumas premissas, como a convicção de que o conhecimento não se resume à ciência pela ciência. Isso é importante quando se trabalha com pesquisa básica, só que sem tecnologia e inovação ela não necessariamente vai gerar progresso. Por isso, o futuro pertence a quem for capaz de unir o conhecimento aos setores produtivos.

Sem tecnologia e inovação, não teremos como formar capital humano competente para desenvolver no País um verdadeiro sistema de inovação, a fim de enfrentar os desafios atuais. Sem isso, produziremos ciência de alto nível, mas com resultado reduzido em termos de desenvolvimento.

Bons exemplos não faltam, como o do agronegócio. A união da ciência, da tecnologia da Embrapa e do conhecimento acadêmico fez do Brasil o segundo maior exportador de alimentos do mundo. Para citar algo atual, tivemos a impressionante reação da ciência brasileira ante a covid-19.

Nossa produção científica é, de fato, alta, mas seu reflexo no desenvolvimento do País é reduzido: ocupamos a 62.ª posição no ranking de inovação de 2020 (Agência Global de Inovação).

Vejamos a formação de mestres e doutores, com projetos de pesquisa que, em sua maioria, se voltam à academia. É imprescindível ofertar programas alinhados às demandas dos setores produtivos. De longe, isso não descaracteriza uma agência tradicional como a Capes: faz dela balizadora do desenvolvimento. É fundamental que a instituição assuma o planejamento nacional relacionado à formação de recursos para o País e não apenas para a academia. Exige-se uma mudança cultural, com linhas de pesquisa adequadas e readequadas conforme evolui a demanda do setor produtivo. É o que nos impõe a revolução tecnológica em curso.

O Plano Nacional de Pós-Graduação (PNPG) 2011-2020 aponta que o porcentual de doutores atuando na indústria brasileira, ao contrário dos países desenvolvidos, é somente de 7,1%. Considerando que formamos cerca de 23 mil doutores por ano, pergunto: qual é o destino deles? Há algum estudo que defina áreas prioritárias, fora da academia? Há algum planejamento prévio para esses doutores? Infelizmente no Brasil não há qualquer baliza para apontar prioridades. O processo da formação científica acontece, com raras exceções, sob a batuta da inércia. Como planejar o desenvolvimento científico-tecnológico do País nestas condições? 

É importante citar que a destinação de mestres e doutores em outros âmbitos que não a academia não é novidade. Já o PNPG de 1989 previa a interação das agências federais com o setor empresarial. No Brasil, temos uma única agência responsável pela formação de doutores para todo o País. Fica claro que ter mestrados e doutorados vinculados aos setores produtivos não seria nenhuma novidade. É crucial, portanto, que as universidades se tornem vetores do desenvolvimento, em especial da região onde estão sediadas. Não é possível que elas produzam uma ciência de qualidade sem que dela emane bem-estar, justiça social, empregos, redução das desigualdades, produtividade e competitividade. É essa a dívida da academia com a sociedade que arca com seus recursos. É sua responsabilidade social.

O mundo vive mudanças com velocidade e potencial de amplitude e impacto jamais vistos. Como escreveu Klaus Schwab, fundador do European Symposium of Management, que se tornaria o Fórum Econômico Mundial, “são mudanças tão profundas que, na perspectiva da história humana, nunca houve um momento tão potencialmente promissor e perigoso”. A revolução está assentada em ciência, tecnologia e inovação.

Espera-se de agências como a Capes e de nossas universidades respostas equivalentes à magnitude dos desafios que nos aguardam. Ou seja: com urgência e disruptivas.

*PRESIDENTE DO CONSELHO DOS REITORES DAS UNIVERSIDADES BRASILEIRAS (CRUB) E REITOR DA PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DO PARANÁ (PUC-PR)

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