ALY SONG | REUTERS
ALY SONG | REUTERS

G-20 encara a onda antiglobalização

Em cenário de fraca expansão do mundo desenvolvido e na esteira da saída do Reino Unido da UE, líderes precisam achar agenda positiva

Cláudia Trevisan, Correspondente / Washington

28 de agosto de 2016 | 05h00

Quando se reunirem na China a partir do próximo domingo, os líderes das 20 maiores economias do mundo não estarão diante de uma crise de proporções semelhantes à de 2008, mas enfrentarão ameaças que poderão ter efeitos nefastos no longo prazo. A principal delas é a onda antiglobalização que se espalha pela Europa e pelos Estados Unidos e compromete esforços de liberalização do comércio e de investimentos.

As incertezas provocadas pela decisão da saída do Reino Unido da União Europeia (o Brexit), o anêmico crescimento dos países industrializados e a reação à globalização apresentam riscos comparáveis aos de 2008 na opinião de Peter Drysdale, professor emérito de Economia da Universidade Nacional da Austrália e um dos principais arquitetos da Cooperação Econômica Ásia-Pacífico (Apec, na sigla em inglês).

Na opinião dele, os líderes do G-20 terão de apresentar uma visão estratégica que inclua uma agenda de crescimento, algo ambicioso na área de comércio e investimentos e ações para fortalecer a habilidade do sistema financeiro global de enfrentar crises. Mas há uma tarefa que transcende as demais. “Lidar com a poderosa corrente antiglobalização é o desafio que os líderes do G-20 enfrentarão. Se eles falharem nisso, a cúpula de Hangzhou será um fracasso”, avaliou Drysdale, referindo-se à cidade onde o encontro será realizado.

Mark Melatos, professor de Economia da Universidade de Sydney, na Austrália, ressaltou que o Brexit foi o primeiro grande passo atrás no processo de integração global em quatro décadas. “Isso foi um fato isolado ou é o começo de uma nova tendência?”, perguntou.

A popularidade da retórica contrária ao comércio internacional do republicano Donald Trump, candidato à presidência dos EUA, e de Bernie Sanders, que disputou com Hilary Clinton a candidatura pelo Partido Democrata, revelou que o sentimento também é forte entre os americanos, disse Melatos. Para ele, os líderes que se reunirão na China terão de mostrar que estão atentos às preocupações dos que se consideram prejudicados pela globalização e dispostos a adotar medidas para resolvê-las.

Para Julia Kulik, do Grupo de Pesquisa do G-20 da Universidade de Toronto, os representantes do G-20 terão o desafio de reavivar o crescimento mundial e fazer com que a globalização funcione para todos.

Comércio. Anfitriões do encontro, os chineses colocaram na pauta a proposta de estimular o crescimento pela inovação e o aumento do comércio e dos investimentos internacionais. Maior exportador do mundo, o país tem interesse na expansão do intercâmbio de bens e serviços. Mas o clima hostil em relação à globalização deve comprometer os esforços nessa área.

Professor da Rutgers Business School, nos Estados Unidos, Farok Contractor acredita que os líderes do G-20 devem coordenar ações para influenciar o que ele chama de “consciência global”, em um mundo cada vez mais conectado pela internet e as redes sociais. Segundo ele, os governos devem ter ofensivas de comunicação para tentar evitar que episódios como atentados terroristas ou o comportamento adverso de determinados mercados acionários tenham impacto negativo desproporcional sobre a economia global.

Mas, no curto prazo, Contractor avalia que a principal tarefa dos dirigentes do grupo será coordenar o processo de transição da política monetária na direção da alta dos juros. O professor ressaltou que as taxas atuais estão em um patamar artificialmente baixo, o que traz riscos de criação de bolhas imobiliárias e de ativos.

O G-20 reúne países que representam 85% da economia mundial. O grupo ganhou mais relevância em 2008, quando seus integrantes coordenaram respostas à maior crise econômica do mundo desde 1929. O desafio agora, na opinião de Drysdale, é traçar uma visão estratégica para o futuro.

O que é o G-20?

O G-20, grupo que reúne as 19 maiores economias do mundo e os membros da União Europeia, foi estabelecido em 1999 para responder à instabilidade causada pelas sucessivas crises financeiras enfrentadas durante aquela década. Juntas, as nações participantes representam cerca de 85% do PIB (Produto Interno Bruto) mundial e 80% do movimento do comércio global, além de dois terços da população. O G-20, de maneira geral, discute formas de garantir a estabilidade econômica global, com a contribuição de nações desenvolvidas e países em desenvolvimento. Na esteira da crise financeira, em 2008, o G-20 ganhou importância e passou a pautar o debate econômico global, substituindo o G-8.

Notícias relacionadas

    Encontrou algum erro? Entre em contato

    Tendências:

    O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.