Benjamin Beavan/Reuters - 6/12/2011
Benjamin Beavan/Reuters - 6/12/2011

G-7 teve visão cínica ao tratar da Amazônia, avalia Jim O'Neill, criador da sigla Brics

Para o britânico, o Brasil precisa ser menos dependente das commodities e tem fazer as reformas para para 'libertar o setor privado' 

Célia Froufe, correspondente, O Estado de S.Paulo

30 de agosto de 2019 | 11h28

LONDRES - O Brasil apenas será o tão esperado país do futuro quando deixar a forte dependência de sua economia do ciclo de commodities, segundo Jim O'Neill, o criador da sigla Brics: grupo de emergentes formado por Brasil, Rússia, Índia, China e posteriormente África do Sul. 

Em entrevista ao Estadão/Broadcast no ano em que o Brasil é o anfitrião do grupo, o britânico se diz decepcionado pela baixa atuação dessas nações em questões que poderiam ser transformadoras para o mundo. "Gostaria de ver o Brics influenciando temas que podem influenciar, e não apenas fazer um encontro de líderes por ano", alfinetou.

O economista não poupou críticas à atuação do grupo das sete maiores economias do mundo (G-7), que, segundo ele, usou de uma "visão cínica" ao tratar da questão da Amazônia em seu encontro no fim de semana passado, na França. 

Leia a seguir a entrevista

Dez anos após ter criado o nome Bric em 2001, o sr. avaliou que os então quatro países superaram as expectativas. Agora, passados quase 20 anos, a análise positiva se mantém?

Obviamente esta segunda década foi diferente. A China continua a crescer em linha com o que previmos - de fato, de forma um pouco misteriosa. A Índia, um pouquinho menos, mas, claro, Brasil e Rússia têm realmente desapontado até aqui. Esses países sofreram com a maldição das commodities e não recuperaram seu brilho desde e estouro da bolha no início da década.

Há previsões de que a economia da Índia supere em tamanho a da França e a do Reino Unido este ano. O sr. também crê nisso?

Sim, é muito provável. A Índia continua no ponto ótimo por sua demografia, de modo que pode crescer de 6% a 8% pelos próximos 10, 15 anos. Se (o primeiro-ministro Narendra) Modi realmente fizer reformas na Índia, especialmente em termos de investimento estrangeiro direto e negócios, a Índia poderá crescer a um ritmo de 10%.

Em quanto tempo o sr. acredita que a China poderá passar os EUA em tamanho econômico?

De fato, a China é especial e, mesmo com um crescimento mais lento, deverá atingir o tamanho dos EUA antes de 2030. Assumimos para a década que começa em 2020 que a China vai diminuir o ritmo de crescimento para 5% por ano. Isso é ainda possível, apesar, claro, de não ser garantido. A China tem muitos desafios a enfrentar, como sempre, e é preciso lidar com eles.

Quando o Brics vai se equivaler ao G-7?

Devido ao tamanho absoluto da China e do conjunto dos demais países, o Brics se tornará tão grandes quanto o G-7 até 2037. A Índia está para se tornar a quinta maior economia do mundo e, apesar de todos os seus problemas, o Brasil está ainda entre as dez maiores. Principalmente por causa da China, ainda penso que isso ocorrerá antes de 2040. O Brics pode se tornar maior do que o G-7. Isso dependerá da China e da Índia. Se a China ultrapassar os EUA antes de 2030 e a Índia se tornar tão grande quanto a Alemanha perto desse ano, é bastante provável que o Brics se torne tão grande quanto o G-7 até 2040.

O sr. falou dos percalços do Brasil, que, assim como a Rússia, tem tido dificuldade de se recuperar da recessão. Quando o Brasil deixará de ser o "país do futuro" para se tornar do presente?

Quando aprender a parar de ser excessivamente dependente das commodities e de seu ciclo de preços. Como muitos têm dito há muito tempo, eu inclusive, o Brasil precisa fazer as reformas domésticas apropriadas para libertar o setor privado doméstico, 

Quando aprender a parar de ser excessivamente dependente das commodities e de seu ciclo de preços. Como muitos têm dito há muito tempo, eu inclusive, o Brasil precisa fazer as reformas domésticas apropriadas para libertar o setor privado doméstico, especialmente em termos de investimentos no setor privado. As atuais tentativas de reforma da Previdência são muito importantes.especialmente em termos de investimentos no setor privado. As atuais tentativas de reforma da Previdência são muito importantes.

O sr. acompanhou a polêmica sobre a Amazônia, que acabou sendo debatida no G-7 e tomando conta do noticiário internacional?

A controvérsia em torno da Amazônia revela o fraco estado da governança internacional e, dentro dela, a relevância questionável do G-7. Se por um lado é admirável que (o presidente francês Emmanuel) Macron tenha levantado essa questão dada sua relevância global, por que não foi levantada no G-20 em junho, em um fórum que não só inclui o Brasil, mas é mais pertinente para aqueles que estão verdadeiramente ligados com questões globais, incluindo a mudança climática? É óbvio que o Brasil tem de fazer alguma coisa sobre o assunto, mas não está claro para mim por que se tornou uma questão do G-7, a não ser uma visão cínica, já que não há praticamente nada com o qual os países do G-7 concordassem e que importasse apenas para eles mesmos.

Li que, durante a crise financeira internacional da década passada, até o sr., entre outros especialistas, chegou a prever que o Brics poderia estar com os dias contados.

Não acho que tenha dito isso. O que disse é que a crise abriu a consciência dos países do grupo, especialmente com todos descobrindo a ridícula dependência do globo do consumidor americano. O Brics, especialmente a China e a Índia, pode se tornar para o mundo o que os EUA foram nos últimos 40 anos, o maior driver global de consumo.

A África do Sul não fazia parte de sua sigla inicial e o sr. se opôs a sua entrada no grupo. O país ainda está deslocado do resto do grupo?

Admiro a habilidade diplomática da África do Sul para se tornar parte do Brics, mas economicamente, nunca fez sentido e ainda não faz. O país é menor do que pelo menos outras dez economias emergentes e tem lutado duramente para crescer por muitos anos. Às vezes brinco com políticos do Brics que sua força coletiva atingiu o pico quando deixaram a África do Sul entrar no clube. A Nigéria tem mais razões legítimas para participar dele, assim como Indonésia, México, Turquia, Etiópia, Vietnã, Tailândia e muitos outros.

O que torna o Brics um grupo? Ainda há coerência entre esses gigantes hoje?

O grupo político não teria relevância real se não fosse a China e, apesar de eu acreditar neles como uma força econômica, questiono sua união política. Uma das grandes motivações é fazer parte de um grupo que não inclui os EUA, mas após dez anos fizeram algo para ser um grupo transformador para o seu mundo ou o mundo em geral? Fizeram alguma coisa para impulsionar seu próprio crescimento além do que poderia ter acontecido de qualquer forma? Influenciaram a paz e a segurança globais? Na realidade, gostaria de ver o Brics influenciando temas que podem influenciar, e não apenas fazer um encontro de líderes por ano!

Há um debate na Organização Mundial do Comércio (OMC) sobre o tratamento diferenciado concedido a países emergentes, mas de grande porte. O assunto foi moeda de troca na primeira conversa entre o presidente Jair Bolsonaro e o americano Donald Trump. Qual sua opinião?

Vejo que a OMC lutou para acompanhar as mudanças globais nos últimos 20, 25 anos, mas precisa de uma reforma, como o Fundo Monetário Internacional (FMI), o Banco Mundial e grande parte de entidades globais de governança. No ano passado, me tornei presidente da think tank Chatam House e vejo como uma grande missão para mim melhorar a governança global. Isso é desesperadoramente necessário e todos os grandes países precisam ser mais abertos quando há incentivos para reforma (na OMC).

Como o sr. vê a guerra comercial entre EUA e China, as consequências para o mundo e, principalmente, para o Brics?

Penso que os conselheiros de Trump estão um pouco parados no tempo. Dado que esta é a era do consumidor chinês, esta é uma grande oportunidade para os EUA e suas melhores empresas. No entanto, os EUA estão presos nessa visão de que a China é um concorrente desleal, que rouba empregos americanos e por aí vai. Trump tem, de forma errada, levado as coisas a se tornarem uma questão bipartidária e não sei quão flexíveis os EUA estão para acalmarem as coisas. Há uma preocupação porque 85% de todo o Produto Interno Bruto (PIB) nominal mundial desta década veio dos EUA e da China, então, se eles continuarem a brigar por causa de comércio, trata-se de uma notícia negativa para provavelmente todo o mundo. Acredito que em algum ponto, talvez quando ficar mais claro que a economia dos EUA pode entrar em recessão, os EUA vão parar com essa obsessão. Nesse meio tempo, a disputa estimulará a China a promover mais reformas e permitir a si ser mais direcionada por sua própria economia, em vez de pelo comércio internacional, o que, em um grau modesto, não é necessariamente uma coisa ruim.

De volta a Trump e Bolsonaro, existe uma virada à direita no mundo. Além de EUA e Brasil, alguns países europeus, agora aqui também no Reino Unido com a controversa figura de Boris Johnson e sua posição mais radical em relação ao Brexit (a saída do Reino Unido da União Europeia). Como o senhor vê esse movimento político?

Acho que ele reflete uma das más consequências da globalização, muitos dos ganhos vieram para grandes e mais ricas companhias e seus lucros. O crescimento salarial enfraqueceu em muitos países do Ocidente e a qualidade dos empregos não melhorou o suficiente. Mas não compartilho com esse rótulo simplificado do populismo. Há grandes diferenças entre Trump e Johnson, mas alguns dos eleitores que votaram neles são membros de uma população que está ansiosa por uma vida melhor. Acho que é importante que grandes companhias façam mais também, e não apenas culpem políticos.

O senhor é britânico e tenho uma pergunta direta sobre o Brexit: de que lado o senhor está? A Inglaterra e seus vizinhos vão se beneficiar ou ser prejudicados pelo divórcio?

É claro que deixar a UE vai prejudicar o Reino Unido em termos de comércio e, quanto mais selvagem for a retirada, pior será o choque inicial. No entanto, não acredito que esta seja a coisa mais importante que o Reino Unido encontrará no futuro. Não é tão importante quanto desigualdade, desigualdade regional, desigualdade intergeracional, produtividade muito baixa e fraca habilidade. Se essas questões tivessem sido abordadas, eleitores poderiam ter votado para permanecer na UE. É importante para formuladores de políticas do Reino Unido tratar esses temas de forma mais séria do que vêm fazendo, independentemente do Brexit. Em uma década, desde a crise de 2008, a produtividade britânica ficou 20% mais fraca do que antes, o que é algo maior do que qualquer choque do Brexit, conforme as projeções de analistas independentes.

O senhor construiu uma carreira passando por várias das maiores instituições financeiras globais. Qual seu foco agora?

Estou profundamente envolvido com questões de políticas públicas e faço quatro coisas primordialmente. Sou o presidente da Chatam House, provavelmente a think tank mais respeitada no mundo fora dos EUA, e me sinto muito privilegiado e orgulhoso dessa posição. Sou membro da UK Educational Charity, uma entidade brilhante que foca na melhoria dos resultados da educação para quem está em desvantagem. Continuo muito envolvido na chamada North Powerhouse (potência do norte), um projeto para ressuscitar o crescimento econômico de partes do norte da Inglaterra industrial, sendo o vice-presidente. Me mantenho também altamente envolvido na luta global contra a resistência antimicrobiana (AMR). Além disso, levo uma avaliação global independente para (o ex-primeiro ministro) David Cameron. Fui chamado por causa da minha experiência com o Brics, provavelmente a coisa mais interessante que fiz profissionalmente e, certamente, a mais importante.

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