G20 faz acordos com pobres para pressionar europeus

O G20, grupo de países em desenvolvimento liderado pelo Brasil e pela Índia, fechou dois acordos paralelos nesta sexta-feira com o objetivo de aumentar a pressão sobre os europeus e tentar destravar a Rodada de Doha, cujas negociações estão sendo feitas em Hong Kong. Um dos acordos ocorreu com o G90, grupo que reúne países pobres da África, Ásia e América, para a formação do que deverá ficar conhecido como o G110. O outro foi realizado com o grupo de Cairns, que agrupa países exportadores agrícolas e é liderado pela Austrália.?A dinâmica dessa negociação requer movimentos tanto da União Européia como dos Estados Unidos?, diz a declaração do G20 com o Grupo de Cairns. ?É hora deles mostrarem liderança.? Ambas declarações também destacam que ?a agricultura é central para o desenvolvimento? e que deve estar no centro das discussões na Rodada Doha.?É um momento histórico. Isso não é pura retórica. Nas negociações aqui em Hong Kong temos nos apoiado mutuamente?, disse o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, na coletiva de imprensa com os representantes do G90. ?Vamos mostrar ao mundo que estamos unidos.?Futuro? O G20 já vinha mantendo encontros com representantes do G90, mas essa foi a primeira fez que todos os ministros se encontraram para fazer uma aliança que somará 110 países. ?Quando convidamos o G90 para participar da reunião do G20 foi, graficamente, uma revolução na OMC com tantas pessoas reunidas para enriquecer o encontro?, descreveu o brasileiro.Os representantes dos dois blocos reconheceram que têm diferenças de interesses em certas áreas de negociação, mas, como disse um dos representantes do G90, o ministro da Zâmbia, Dipak Patel, eles ?querem resolver essas diferenças entre eles e não que outros o façam?. É difícil avaliar, porém, o quão efetivas serão as novas alianças. A atual rodada de negociação não está avançando, apesar do fato de na madrugada desta sexta-feira os negociadores terem conseguido colocar sobre a mesa textos que tratam das principais questões: agricultura, bens industriais e desenvolvimento. O fato de colocar no papel tais propostas é considerado um passo importante na OMC, já que muitas das propostas são tratadas apenas de forma verbal durante as negociações.Apesar desse aparente avanço, o comissário de Comércio da União Européia, Peter Mandelson, foi mais uma vez crítico sobre rodada e outros países nesta sexta-feira. Mandelson disse que as conversações pareciam ?estar andando para trás?. ?A direção que está surgindo do encontro é preocupante (?) O nível de ambição (sobre a reunião) está andando para trás.? Divisão Peter Mandelson se reuniu na quinta-feira com os ministros do G20 para tentar dissuadi-los de condicionar a abertura nas áreas industrial e de serviços aos avanços na área agrícola. "Foi uma coisa curiosa porque ele tentou dividir o grupo. Ele disse que a gente deveria pensar com cuidado nos nossos interesses defensivos", contou o chefe da divisão de contenciosos do Itamaraty, Roberto Azevedo, que participou do encontro.?Ele disse que aqueles que têm interesses defensivos pensem bem, porque pode ser que eles (os europeus) atendam esses interesses. O curioso foi que a resposta do grupo foi muito unida.? A União Européia propõe um corte médio de 39% em suas tarifas de importação agrícolas. O G20, que pede um corte médio de 54%, considera o percentual europeu ?insuficiente?. A União Européia alega que seu corte já seria o suficiente, por exemplo, para aumentar a importação de carnes de 500 mil toneladas para 1,3 milhão de toneladas. Isso, segundo os europeus, daria espaço para ganhos em países como o Brasil, que é o maior exportador de carnes do mundo.?Nossa oferta daria novo acesso a mercado real e substancial. Não posso entender como as pessoas podem reclamar de que não estamos fazendo uma oferta séria?, disse, em uma coletiva de imprensa, Mariann Fischer Boel, comissária de Agricultura da União Européia.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.