Gabrielli diz que EUA são prioridade para a Petrobras

Em Houston, presidente da estatal dá entrevista exclusiva à 'Agência Estado' e fala sobre estratégias

Tatiana Freitas, da Agência Estado,

07 de maio de 2008 | 11h42

A estratégia da Petrobras de ser uma empresa integrada de energia deve ser levada para outras partes do mundo. Combinando as atividades de exploração, produção, refino e distribuição, a companhia tem o controle sobre toda a cadeia, o que possibilita minimizar indesejadas variações de margem.  Veja também:Veja a história e os números da Petrobras Em entrevista exclusiva à repórter Tatiana Freitas, enviada especial da Agência Estado a Houston, nos Estados Unidos, o presidente da estatal, José Sérgio Gabrielli, afirma que a integração deve ser uma estratégia a ser perseguida pela companhia e que as possibilidades em torno desse projeto serão analisadas à medida que aparecerem nos mercados onde a Petrobras atua - hoje a companhia está presente em 23 países. Nos Estados Unidos, a empresa tem negócios em exploração e possui metade da refinaria de Pasadena, no Texas, cujo controle total está sendo negociado com a Astra Oil. Gabrielli diz que, com a finalidade de integração, a entrada da companhia nas atividades de distribuição também pode ser analisada naquele país.  O apetite da companhia pelo mercado norte-americano, aliás, parece bastante aguçado. Nesta semana, nenhum visitante ou expositor da Offshore Technology Conference (OTC), que acontece na cidade americana de Houston, no Texas, passou ileso à marca Petrobras. Os corrimãos de todas as escadas rolantes do evento receberam adesivos com o logotipo da companhia, em verde e amarelo. É um detalhe que confirma a impressão que se tem nos bastidores: a de que a Petrobras procura marcar território nos Estados Unidos.  Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista exclusiva do presidente da Petrobras à AE no Texas: Agência Estado - A Petrobras tem interesse em atuar em distribuição nos Estados Unidos, para completar toda a cadeia no setor de petróleo e combustíveis? José Sérgio Gabrielli - A Petrobras é uma empresa integrada de energia, e essa é sua grande vantagem. Ela combina a atividade de exploração e produção com o refino e a distribuição. Com isso, consegue equalizar ciclos, ou seja, minimizar variações cíclicas de margem na exploração, produção, no refino e na distribuição. O negócio da Petrobras visa principalmente estratégias integradas. AE - Isso quer dizer que a companhia tem interesse na distribuição aqui nos EUA? Gabrielli - A empresa analisa sempre alternativas e possibilidades. Cada vez que aparece uma oportunidade, ela é analisada dentro desse contexto e em função da viabilidade de integração estratégica, além do retorno do projeto particularmente. A partir daí as decisões são tomadas. Aqui nos Estados Unidos, nós temos forte investimento em exploração e produção no Golfo do México. Estamos concentrando os nossos investimentos em áreas que nós consideramos com maior probabilidade exploratória e temos 50% de uma refinaria. A distribuição nos Estados Unidos pode ser considerada, mas não analisaremos a distribuição isolada da integração com refino e produção. AE - Os Estados Unidos hoje são o principal foco da Petrobras no mercado internacional? Gabrielli - A maior inversão nossa prevista é no mercado dos Estados Unidos, mas a nossa maior produção virá da Nigéria, onde somos sócios em dois campos operados por outras empresas e temos um campo nosso em operação, cuja produção começa no próximo mês. Também temos uma diversidade de atividades na América do Sul e estamos ampliando a nossa atividade na Ásia de forma bastante intensa. Temos hoje uma política internacional que ocupa 15% dos nossos investimentos previstos. Nossos investimentos totais são de US$ 112 bilhões até 2012, 85% disso no Brasil e 15% no mercado internacional. AE - E o principal país a receber esses investimentos ? Gabrielli - Neste momento são os Estados Unidos. Temos mais de 300 blocos de exploração no Golfo do México. AE - Na OTC, a marca Petrobras chamou a atenção dos presentes pela presença nas escadas rolantes. Gabrielli - Estava em Nova York na sexta-feira. Fiquei impressionado com a marca Petrobras nos ônibus da cidade. Na propaganda do Speedy Racer (o filme), tem o dirigível com a marca Petrobras. AE - A Petrobras se tornou mais internacional desde a última OTC? Gabrielli - Ela tornou-se mais internacional sim, porque estamos investindo mais internacionalmente. Mas eu acho que, além disso, há um reconhecimento internacional das perspectivas de produção da Petrobras. E isso faz com que os interesses dos investidores para a Petrobras sejam muito grandes. Eu acho que hoje nós temos as nossas ações com as maiores valorizações entre as empresas de petróleo no mundo. Os acionistas da Petrobras tiveram o maior retorno do seu investimento nas ações da Petrobras, sejam eles acionistas pessoas físicas ou pessoas jurídicas, seja o governo ou o setor privado. Isso chamou a atenção do mercado financeiro para a empresa, que é fortemente tecnológica, que está dando resultados bastante claros sobre uma política de longo prazo de investimentos em exploração e é uma empresa que tem um portfólio de crescimento baseado em seu próprio crescimento orgânico. Isso é que o mercado está reconhecendo. Aqui na OTC, por exemplo, o reconhecimento já é mais antigo. A Petrobras já ganhou dois prêmios na feira. No ano passado o melhor técnico da indústria de petróleo do mundo foi um técnico da Petrobras. É um reconhecimento da indústria e do mercado financeiro. AE - A Petrobras pode lançar a marca BR nos EUA? Gabrielli - Essa é uma decisão que pode se tomar em momento adequado, desde que seja na linha de integração que eu mencionei. Não tem muito sentido plantar marca somente. O mercado é muito grande para você ter impacto pensando somente na marca BR. Isso só tem sentido econômico se tiver integração com a produção e se otimizar e adicionar valor à nossa produção brasileira. AE - Como está a negociação a respeito da compra da totalidade da refinaria de Pasadena? Gabrielli - Isso é um processo entre os sócios. Quando estiver resolvido entre os sócios, nós comunicaremos. AE - Mas as negociações continuam? Gabrielli - Sim. AE - Por falar em negociação, como estão as negociações para a compra dos ativos da Esso no Chile e Uruguai? Gabrielli - Não sei. Sobre negociação, eu não vou falar nada. Não adianta perguntar que eu não vou falar. AE - Como o senhor vê a entrada da Cosan no mercado de distribuição? Gabrielli - O Brasil tem mais de 200 operadores no País. Mais de 200 distribuidoras. Então não vejo maior problema. É um distribuidor a mais. AE - Não foi por uma questão de valores que a Petrobras perdeu a disputa pela Esso para a Cosan ? Gabrielli - Não vou comentar a aquisição dos outros. AE - Ainda falando sobre o mercado internacional, como estão as atividades no Equador? Gabrielli - Nós estamos em negociação com o governo do Equador, em razão da mudança tributária pelo governo. O nosso projeto do bloco 31 foi aprovado do ponto de vista ambiental, mas tem essa questão econômica e não há nenhuma decisão ainda. AE - E se o modelo tributário proposto continuar nesses moldes? Gabrielli - Negociação a gente não antecipa. AE - E quanto à Bolívia? Gabrielli - Retomamos investimentos, estamos aumentando os aportes na Bolívia. Nós temos um contrato assinado com a YPFB aprovado pelo congresso boliviano com validade até 2019. Portanto, nós vamos desenvolver o investimento e a produção vai crescer na Bolívia. AE - Não há mais nenhuma preocupação a respeito do ambiente regulatório? Gabrielli - Não, temos um contrato assinado e aprovado pelo congresso boliviano. AE - Mas contrato, dependendo do país não significa muito. Gabrielli - Mais do que o congresso aprovar? Não há como você não ter uma garantia. AE - Como está o processo para criação da subsidiária que cuidará da área de biocombustíveis? Gabrielli - Estamos criando, esse processo tem uns dois meses. Estamos na fase final de montagem da distribuidora da empresa. Tem a fase de desenvolvimento de modelo de gestão, desenvolvimento de negócios, mecanização da empresa, governança... Tem uma série de questões nas quais há um grupo trabalhando. Está dentro do prazo e assim que concluirmos será anunciado. AE - Qual será o foco dessa empresa? Gabrielli - O foco é produção de biocombustíveis. Produção de biodiesel e a participação na produção de álcool e logística do álcool. AE - A Petrobras havia anunciado a construção de 40 usinas para a produção de etanol. Gabrielli - Essa empresa vai cuidar disso. AE - O HBio também vai para essa nova empresa? Gabrielli - Não, porque o HBio é uma variação do processo produtivo dentro das refinarias. AE -A empresa de biocombustíveis também terá atuação no mercado internacional? Gabrielli - Sim. AE - E como fica a comercialização? Gabrielli - A comercialização no mercado internacional deve ser feita pela nossa estrutura de comercialização internacional de produto. AE - Pela posição do Brasil no mercado mundial de biocombustíveis, a Petrobras parece ter papel fundamental no desenvolvimento de um mercado internacional. Qual é a sua visão a respeito disso? Gabrielli - A nossa visão é de que a Petrobras tem um papel fundamental na comercialização e na logística internacional de etanol. Nós achamos que temos vantagens competitivas e temos condições de adicionar valor à cadeia de etanol, aumentando investimentos na área de logística que vão reduzir os custos para exportação de etanol e incrementando o desenvolvimento de sinergias com nossa rede de operação comercial internacional, viabilizando, portanto, a expansão da atividade exportadora. Nosso foco principal neste momento é o Japão, mas estamos abertos a qualquer mercado que se disponibilize. Mas nós vamos ter uma atuação mais voltada para a produção de biodiesel. Nós queremos ser um grande produtor de biodiesel. Nós não vamos ser um grande produtor de etanol, porque a estrutura de produção já está praticamente definida. O mercado interno está praticamente atendido pelos atuais produtores. Nossa atuação no etanol é mais voltada para exportação. AE - O biodiesel também pode ser viável para exportação? Gabrielli - O biodiesel é predominantemente mercado interno, mas também podemos ir para exportação. A prioridade é diferente. AE - O biodiesel que será produzido pela Petrobras será a partir de óleo vegetal? Gabrielli - O biodiesel será feito a partir de diferentes fontes. Nós estamos construindo três plantas de produção neste momento. Uma planta em Quixadá, no Ceará, uma planta em Candeias, na Bahia, e uma planta em Montes Claros, Minas Gerais. Essas unidades vão ser multioleaginosas e, com isso, vamos produzir biodiesel para o mercado. Atualmente, além disso, nós somos 100% comprador da produção de biodiesel. AE - Esse interesse pelo biodiesel também passa por uma política de inclusão social do governo federal, não? Isso é um pedido do presidente Lula? Gabrielli - Não, não é só um pedido do presidente Lula. É claro que é uma oportunidade que aparece a partir de uma decisão de política de governo. Mas tem um papel importante na substituição de importações no Brasil. Nós somos um país importador de diesel. Diesel é um produto que nós não produzimos de maneira suficiente para o mercado interno. Portanto, a substituição das importações por uma fonte interna é positiva para a balança comercial e é positiva para os resultados da companhia. AE - O senhor não acha que a Petrobras pode estar perdendo um pouco de tempo no mercado de energia alternativa? Começa-se a discutir uma segunda geração na produção de biocombustíveis e outras alternativas. Não só a Petrobras, mas também o Brasil, não demora no desenvolvimento de um mercado mundial de biocombustíveis e em busca de uma padronização internacional para o etanol O Brasil não estaria perdendo tempo para tomar mais espaço nesse mercado? Gabrielli - Ao contrário, nós estamos posicionados na vanguarda desse mercado. Nós não estamos atrás. Estamos à frente desse mercado. Tanto no biodiesel como no etanol tradicionais, assim como no futuro da segunda geração. Nós temos um protótipo na Petrobras, com tecnologia desenvolvida pela Petrobras e patenteada pela Petrobras para produzir etanol através do processo enzimático de quebra da molécula de celulose, que é a geração futura. É evidente que isso vai levar um tempo até chegar à fase comercial. Nós temos desenvolvido novas tecnologias na produção de biodiesel, estamos desenvolvendo tecnologia própria de produção de biodiesel com intensidade do uso da mamona. Portanto, nós estamos desenvolvendo tecnologia na ponta da segunda geração. Nós vamos trabalhar com a possibilidade de criação de biodiesel de segunda geração. Nós desenvolvemos o processo de HBIO, que é um processo tecnológico novo. Portanto nós estamos à frente, e não atrás da tecnologia, além de sermos o maior exportador mundial de etanol, o segundo maior produtor mundial, e com uma produção de biodiesel tradicional crescente. Então não vejo por que estaríamos atrás. Estamos à frente. AE - Referente à distribuição e exportações, como está a idéia de construção de um alcoolduto? Gabrielli - Nós temos dois projetos de alcoolduto que cruzam várias áreas produtoras novas. O plano existe, evidentemente que nós temos que modular a construção do alcoolduto com o crescimento das áreas produtoras novas. Os nossos alcooldutos são principalmente voltados para reduzir o custo de exportação de etanol para viabilizar melhor a entrada do produto brasileiro no mercado internacional. AE - Quanto aos projetos de exploração na Bacia de Santos, o que está sendo perfurado neste momento? Gabrielli - Vários poços estão sendo perfurados. Estamos com perfuração em andamento em Carioca. Em Tupi eu acho que não temos perfuração neste momento, estamos analisando as informações já coletadas. Estamos retomando a perfuração em Júpiter, temos perfuração em andamento em Bem-Te-Vi, BMS-9, Caramba... A nossa previsão é iniciar o teste de longa duração no primeiro trimestre de 2009 em Tupi. A nossa meta é ter a produção piloto no final de 2010. AE - E Pão de Açúcar, como está a exploração? Quando teremos a confirmação a respeito das reservas? Gabrielli - Pão de Açúcar eu não sei (risos). AE - Houve aquela confusão por causa do relatório do UBS... Gabrielli - Há várias áreas, há vários relatórios e todo mundo tem o direito de achar o que quer. Só que nós temos limitações legais. Primeiro, só podemos perfurar em áreas concedidas. E, segundo, nós só podemos afirmar o que pudermos comprovar. Então nós temos que ter resultados de testes para fazer isso. AE - Os problemas operacionais que a Petrobras vem tendo já estão sendo equacionados? Gabrielli - Os problemas operacionais não são só da Petrobras. Os problemas operacionais são de todas as grandes empresas que têm projetos grandes no momento. E especialmente os problemas operacionais decorrem de atrasos dos critérios das entregas de grandes equipamentos. Como são grandes equipamentos, isso acaba afetando a produção média ao longo do tempo. Mas objetivamente, no ano passado nós adicionamos 540 mil barris por dia de capacidade. Não chegamos ao pico dessa produção porque estamos com um processo atrasado em termos do momento em que isso entrava em operação. É evidente que a produção tende agora a crescer em função da capacidade já instalada. AE - Há uma falta de equipamentos para todos? Gabrielli - Nós estamos vivendo uma situação em que, mundialmente, a indústria de fornecedores está aquecida. Não é um problema só do Brasil, é um problema do mundo inteiro. Quando nós adotamos a política de conteúdo nacional, há quatro cinco anos, havia uma clara dúvida sobre a capacidade da indústria nacional de responder em prazo e preço. A indústria nacional respondeu em prazo e preço neste momento. E por quê? O crescimento da indústria mundial foi tão intenso que o fato de a gente ter crescido no Brasil foi muito bom.

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